quinta-feira, 16 de julho de 2009

A imagem do agronegócio nunca esteve tão ruim

Richard Jakubaszko 
Não há necessidade de ser leitor contumaz de jornais para perceber que a imagem do produtor rural anda uma verdadeira lástima entre a chamada opinião pública. Essa imagem, na verdade, nunca foi das melhores. O produtor rural brasileiro já foi confundido, em passado recente, com o Jeca Tatu. A síndrome do Jeca Tatu é herança de uma personagem na ficção do genial escritor e nacionalista Monteiro Lobato, que nos legou uma obra literária de inequívoca criatividade e altíssimo valor cultural, plenamente reconhecida.

A referida obra foi adaptada e distorcida, chegando ao cinema nos anos 50 e 60 com grande impacto. Com isso incentivou um viés de interpretação na chamada intelectualidade brasileira e entre os jornalistas urbanos, como formadores de opinião, na medida em que associou e materializou uma imagem pública do produtor rural brasileiro típico ao simplório, inculto, matreiro, caipira e tabaréu personagem Jeca Tatu. A distorção de imagem persistiu até o início dos anos 2000, quando se iniciou um desvanecimento desses sintomas em função do espetacular crescimento da agricultura brasileira, que trouxe repercussões notáveis na geração de renda, no crescimento do emprego e nos superávits da balança comercial.

Excluídos desse perfil de imagem destrambelhada sempre estiveram os usineiros, grandes pecuaristas e também os antigos barões do café. Faziam parte da elite e da nobreza, desde o império. Algum tempo atrás, e aos poucos, já na década dos 90, incluiu-se nessa relação de exceções os citricultores, e a esses se juntaram sojicultores e cotonicultores. Com riquezas circulando e exibindo-se despudoradamente deu-se ao setor a alcunha de agronegócio. No início dos anos 2000 houve momentos em que existiu boa imagem do produtor rural perante a opinião pública. Era visto como sujeito trabalhador e empreendedor, responsável por 40% do PIB brasileiro.


Entretanto, o encarecimento dos preços dos alimentos e as questões de renegociação de empréstimos e das demandas ambientais mudaram a imagem dos produtores rurais. Agora o produtor rural é sinônimo de caloteiro, é ganancioso e, além de tudo, de destruidor de florestas, que depreda o meio ambiente e está sempre pendurado nas tetas do governo. 

A mídia e os ambientalistas acusam os produtores por queimadas na floresta, de contaminar o solo, os rios, e por intoxicar os alimentos com excesso de uso de agrotóxicos e fertilizantes. Na imagem urbana e da mídia é o bandido da moda e da vez. A péssima imagem é atribuída aos produtores pelos ambientalistas com apoio total da grande imprensa, e de alguns políticos oportunistas. Triste e deturpada imagem, sem dúvida alguma. 


A principal causa disso tudo é a ação e o discurso de algumas das lideranças rurais, de mentalidade ultrapassada, e que representam os produtores em algumas associações, entidades e federações. Ou essas lideranças mudam ou precisam ser renovadas. Deve-se colocar em seu lugar gente com uma visão moderna, focada na solução não apenas dos problemas em curto prazo, mas a médio e longo prazo. 

Aos produtores cabe boa parte da culpa, por haver falta de união, por não ter associações representativas, e por se deixar liderar por sindicalistas profissionais que se locupletam em federações estaduais ditas da agricultura. São lideranças sem expressividade ou projeção nacional, cuja arrogância e rompante espanta aos mais crédulos. Atraem, com isso, a antipatia da mídia, estimulada pelos ambientalistas. Essas “lideranças” têm em sua companhia alguns deputados e senadores pertencentes à chamada bancada ruralista, e esta também se tornou alvo preferido da mídia, por representar os mais “tenebrosos” interesses capitalistas do “agronegócio”. O agronegócio, na visão da mídia, só visa o alto lucro.

Chegaram, produtores e parlamentares, a ser chamados de vigaristas pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Este, apesar dos berros e reclamos de senadores e de deputados, não caiu. O governo federal, na maioria das vezes, por não conseguir identificar de forma clara e adequada quais as causas dos problemas rurais, apresenta soluções ou encaminhamentos a estes problemas e às políticas públicas dentro daquilo que pensa ser o mais correto. Invariavelmente erra porque é mal assessorado e mal aconselhado pelas chamadas lideranças que atuam no cenário rural.
Sem dúvida alguma, é tempo de mudar isso. E só há um caminho: união! União através de um associativismo profissional e transparente, como exigem os tempos modernos. O amplo espaço dedicado pela grande imprensa, que repercute opiniões de ambientalistas radicais, cada vez mais irá fortalecer e consolidar uma péssima imagem do produtor rural perante os brasileiros.
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5 comentários:

  1. Recebi e-mail da jornalista Veruska Tasca, lá de Santa Catarina:
    Sr. Richard
    Como sempre, as postagens estão muito atrativas, de excelente conteúdo.
    Imprimi o último texto (Jeca Tatu... hehehe) e vou colocar na pasta do deputado federal Valdir Colatto, com sugestão de leitura.
    abraço
    Veruska Tasca
    assessoria de imprensa deputado federal Valdir Colatto (PMDB/SC)

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  2. Recebi e-mail do agrônomo Luiz Fernando Ferraz de Siqueira, da Usina São Fernando, lá de Dourados, do Msato Grosso do Sul:
    E ainda que agora somos “vigaristas“, piorou mais...
    Luiz Fernando Ferraz de Siqueira

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  3. Brilhante texto, Jakubaszko!
    'E importante que esta sua analise seja divulgada a todos os agentes publicos e privados do agronegocio brasileiro. Sem duvida, que solucoes devem ser buscadas empregando-se a inteligencia e o conhecimento hoje existentes. Vamos trabalhar por uma nova visao do agronegocio, atraves do uso de novas "ferramentas", como tivemos a oportunidade de comentar no www.josenei.blogspot.com quando do seu texto anterior.
    Parabens e continue na luta por um novo tempo no agronegocio brasileiro.
    Jos'e Nei

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  4. Recebi e-mail do Secretário da Agricultura de São Paulo, João de Almeida Sampaio Filho:

    Richard,
    Parabéns pelo artigo.
    Há muito tempo acredito que devemos ter uma nova postura e que nossas lideranças (me incluo entre elas?) devem adotar um discurso mais moderno, um discurso completamente diferente do usado até agora.
    Continuarei tentando me reciclar e levar esta mensagem aos demais produtores com quem converso.
    Abraço
    João de Almeida Sampaio Filho
    Secretaria de Agricultura e Abastecimento
    Secretário de Estado

    Minha resposta:
    Caro Secretário de Agricultura João Sampaio,
    obrigado por suas palavras de incentivo, e, pelo amor à Deusa Ceres, absolutamente, não vista esta carapuça, ela não lhe cabe. Admito que acreditava, até este momento, ter sido explícito no texto, quando fiz referência a federações estaduais de agricultura e, obviamente, por tabela, de algumas entidades nacionais.
    Entre outras questões é que as citadas entidades servem como referência a outras entidades mais novas. Estas espelham-se no comportamento daquelas que já tiveram liderança de maior importância, mas sucumbem a uma repetição de velhas idéias e, desta forma, pouco fazem pela agropecuária.
    De outro lado cumprimento-o pelas dúvidas que o assaltaram, mais um sinal de que a sua liderança tem auto-crítica, o que demonstra não apenas inteligência, mas sabedoria.
    Um grande abraço!
    Richard Jakubaszko

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  5. Recebi e-mail do Rogerio, daqui de São Paulo:
    Romper a inércia e o imobilismo será uma cruzada contra moinhos de lobby, quer dizer, de vento
    Rogerio Ruschel

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