terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

De passagem pela Índia o espanto é uma constante

Rinaldo Arruda    
Quando Richard me consultou se queria ir à Índia representando o richardjakubaszko.blogspot.com a convite da BKT, a multinacional indiana líder no setor de pneus para máquinas agrícolas e de mineração, achei que era brincadeira. Era sério, ele não podia ir, tinha outros compromissos. Nesse caso, aceitei na hora!


Viagem incrível apesar das quase 20 horas de voo até Mumbai, com escala em Dubai. A qualidade do convite da BKT logo se fez notar ao escolher a Emirates, excelente companhia aérea, de poltronas confortáveis mesmo na classe econômica e serviço de bordo com talheres e louça de verdade, impecável.


A Índia tem um bilhão e quatrocentos milhões de habitantes e Mumbai, sede da BKT e centro financeiro e de negócios da Índia tem cerca de 20 milhões.


A chegada ao aeroporto moderno e espaçoso já mostrou os rigores da segurança e a morosidade do serviço público. Filas e mais filas e vários pontos de checagem. Finalmente conduzido por funcionário da BKT que me esperava na rua em frente ao aeroporto, pois só entram neles os que forem viajar, penetramos na cidade por uma larga avenida, com os primeiros vislumbres da Índia e com contrastes que se mostrariam permanentes. A Índia é para os fortes!





Trânsito ordenado e ao mesmo tempo caótico na avenida moderna. Passando por tapumes intermináveis tampando a vista dos infindáveis casebres atrás, me confidencia o motorista: essa é a maior favela da Índia. Os tuk tuks e carros buzinando o tempo todo e as motos com um, dois, três e até quatro passageiros, a maioria sem capacetes, completavam o cenário. A cidade toda em obras, de novas linhas de metro, de longuíssimas pontes que pretendem ligar a cidade às suas 7 ilhas próximas, de renovação urbana infindável. Chamava atenção a disputa entre a modernidade do que se construía e a aparência degradada de quase todas as edificações de passagem.

  

O hotel Tridente Nurimar, de frente ao mar, maravilhoso. Na entrada, portões de metal e guardas armados, detector de bombas e artefatos passado por baixo do carro, entrada autorizada. Desço do carro e já passo por outra barreira, como de aeroporto. Bagagens escaneadas na esteira, passe por esse pórtico sem nada de metal com você.


A partir daí eram as mil e uma noites: moças indianas de roupas típicas oferecem uma limonada salvadora naquele clima quente, com uma delicada tijela de pó vermelho pedem licença para marcar seu chacra na fronte e logo me encaminham para meu apartamento em andar alto e vista próxima da cidade e do mar em frente.

  

Saio depois de duas horas de sono reparador e é fim de tarde no passeio ao longo da costa.


Multidões apreciando o entardecer e a vista da cidade banhada de sol, com os poucos turistas quase despercebidos na população majoritariamente indiana.


Dia seguinte começou a maratona


Voamos cedo para Buhj (4:45 am), todos os 128 convidados na entrada do hotel, visitar a planta fabril da BKT, lotamos o avião! Ônibus moderno com ar condicionado, demorada passagem pela segurança no aeroporto, uma hora de voo e chegamos.


Até aí tudo lindo, o choque foi a visão do caminho até a fábrica da BKT. Muita sujeira nas ruas, estradas, casas, animais soltos, visão desoladora contrastando com a gentileza das pessoas, com as lindas roupas das mulheres indianas e os típicos caminhões adornados e coloridos.

  



Hospedados na White House, alojamento da BKT, nesse dia e no próximo tivemos a oportunidade de ver de perto as instalações de ponta da fábrica, já descritas em post anterior ( https://richardjakubaszko.blogspot.com/2023/02/bkt-uma-empresa-da-india-do-seculo-xxi.html ).

 
A surpresa ficou para a recepção da noite. Era aniversário de Arvind Poddar, o fundador e CEO da BKT e fomos levados à um banquete, antecedido por várias apresentações de dança moderna e tradicional indiana assim como de maravilhosos músicos da Índia, nesse local incrível da foto abaixo, a arena Bageecha, no interior da planta fabril, de uso para eventos.

   


Dia seguinte voltamos para Mumbai e no próximo visitamos duas propriedades rurais em Surat, desta vez de trem, desafiando o deslocamento entre as multidões indianas.

 





Esperava ver uma grande propriedade agrícola com o uso de maquinário pesado, típico dos consumidores dos pneus BKT. O que vimos, porém, foram duas pequenas propriedades de cerca de 2 hectares cada. Uma dedicada ao plantio manual consorciado e orgânico de inúmeras variedades vegetais e outra ao plantio de flores de cores muito fortes, fruto de cruzamentos experimentais e bem sucedidos, tocados por uma família muito simpática, com a qual me fiz fotografar.

   



No último dia participamos com todos os 128 convidados, mais convidados e imprensa local de uma apresentação da BKT, seus novos lançamentos e suas perspectivas de futuro numa entrevista coletiva no hotel Trident Nurimar. Além da excelência, inovação e qualidade tecnológica da BKT vimos que ela está presente também nos espaços do Metaverso, com NFTs próprias a venda nesse mercado digital!


Check out e três dias de passeio por Mumbai

Agora hospedado num hotel de menos estrelas (por minha conta) isto me colocou em contato mais direto com o dia a dia da maior cidade da Índia. Regateios nos táxis, nas lojas, nas ruas, andanças nos dias encalorados, conversas soltas com taxistas e transeuntes, experimentações em restaurantes muito diferentes. Muita gente, buzinaço constante, mil coisas acontecendo simultaneamente no meio da multidão sempre em movimento.


Fui ao Crawford Market para comprar especiarias, depois visitas a inúmeras lojinhas para compras de roupas indianas e passeio de um dia às ilhas Elefanta, onde só se encontram macacos perto das imensas cavernas escavadas na rocha, com estátuas do panteão indiano e um lindo passeio de barco. Deu tempo para visitar a casa onde morou Gandhi quando passou uns tempos em Mumbai, e que hoje é um museu, depois assistir um ritual no lindo templo de Krishna, ir ao Portal da Índia, imenso monumento construído para comemorar a visita do rei inglês Jorge V e da rainha Maria, em dezembro de 1911, mas que só ficou pronto em 1924.





















Voltando para casa
E daí, depois desta semana que com tanta coisa acontecida, vista e sentida parecia que já tinha passado um mês inteiro, volta para o Brasil, também com suas fortes desigualdades, mas não tão populoso, nem tão barulhento. Como dizia minha mãe que adorava viajar, as viagens são ótimas, mas melhor ainda é voltar para casa!


O que achei da Índia? A resposta é lugar comum: maravilhosa, estranha, hiper moderna, antiquíssima, linda, feia de doer, muito rica e muito pobre, bagunçadíssima e ainda assim eficiente. Os indianos todos com os quais tive o prazer de conversar, com alguns tropeços por conta do inglês de sotaque no mínimo peculiar, sempre foram gentis, solícitos, amigáveis, me causaram ótima impressão. Culinária de dar água na boca e suor na testa pelo apimentado de tudo, um mundo imenso ainda a descobrir.


Saí onze da noite do hotel, depois de uma hora de carro em meio ao buzinaço rotineiro, fila de uma hora para entrar no aeroporto, mais uma de check in e mais duas para passar pela imigração, revista de bagagem etc. e tal, entrei na área internacional e consegui subir no avião! Parecia que a Índia não ia me deixar ir embora, engolido pela Ásia, esse continente tão antigo, tão moderno, tão diverso e tão cheio de contrastes.


Na chegada em São Paulo 20 horas depois (ufa!), depois de uma escala de poucas horas em Dubai, passo numa alfândega super rápida com meu passaporte de leitura eletrônica, free shop para um vinho para o Richard e saio num saguão e cidade que me pareceu muito silenciosa e organizada, São Paulo!

 

 

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Por que o Agro é importante para o Brasil e os brasileiros.

Richard Jakubaszko   
A importância do agronegócio para o Brasil tem garantido a estabilidade econômica do país, pelas exportações e pela geração de empregos. E pelo portentoso Fundo Soberano que dispomos, superior a US$ 380 bilhões de dólares. Por causa do Fundo Soberano o Brasil não quebrou durante os períodos de Temer e Bolsonaro. Esse Fundo Soberano foi formado pelas exportações brasileiras nas duas primeiras décadas deste século XXI e garante-nos posição de destaque como sócios junto ao Banco BRICs constituído para fazer frente ao BID e ao Banco Mundial, ambos com influência americana.

Registro a importância do agronegócio brasileiro através do infográfico abaixo, enviado ao blog pelo amigo e engenheiro agrônomo José Maria Salgado. Em alguns casos podemos não ser o primeiro na produção, mas somos os primeiros da exportação. Casos das carnes bovina e de aves. Questão de competência.



 

 

 

 

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domingo, 26 de fevereiro de 2023

Live sobre a mentira do aquecimento

Richard Jakubaszko  
Participei na última sexta-feira, dia 24/02/2023, de uma live sobre a mentira do aquecimento, entrevistado que fui pela gaúcha Márcia Rohr da Cruz, lá de Caxias do Sul (RS). Vale a pena conferir, foi uma live muito interessante.


Quem desejar assistir no Youtube, acesse o link:  https://www.youtube.com/watch?v=mgKvI62I3eg

   

 

 

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

BKT – Uma empresa da Índia do século XXI com visão positiva para o futuro.

Richard Jakubaszko
Recebi em novembro último, pela segunda vez, o convite para visitar em fevereiro de 2023 a Índia e a sede da BKT pneus, uma das maiores empresas do mundo no setor.
O primeiro convite veio em 2017, e em ambos os casos estive impossibilitado de realizar a viagem devido a compromissos assumidos no Brasil. Na primeira vez uma colega da redação da DBO foi designada para ir em meu lugar. Desta feita, o blog recebeu o convite e meu genro, Rinaldo Arruda, antropólogo, foi o indicado para a curta viagem (5 dias) com fuso horário de 8 horas, mais de 18 horas de voo, afora 3 horas de escala técnica em Dubai, nos Emirados Árabes.

Visitar a Índia pela primeira vez foi um desafio enorme para Rinaldo, acostumado a visitar aldeias indígenas em nossa Amazônia, mas a pobreza e a prática extrema de segurança observada na Índia, definitivamente, assusta os ocidentais. Como me relatou Rinaldo, "gostei muito da viagem, e também não gostei de muitas coisas". A pobreza geral é fato de amplo conhecimento dos ocidentais, mas a segurança observada, que remonta a ataques terroristas dos paquistaneses, não está apenas nos aeroportos, mas em todos os prédios públicos e também em hotéis 5 estrelas, espaços reservados para turistas e para a elite indiana. O trânsito em cidades como Mumbai é caótico, muito movimentado e altamente barulhento, especialmente pelos tuk tuk, cuja característica principal é buzinar por qualquer motivo. Buzinam por qualquer razão, até porque é uma prática centenária, e nela se inclui a alegria pela vida.


BKT

Arvind Poddar (acima) fundou o ramo de pneus da Balkrishna Industries Ltd. – BKT, uma multinacional Indiana sediada em Mumbai, Índia, colocando em prática um sonho de seu pai. Atualmente Arvind Poddar é o Chairman and Managing Director da empresa e seu filho Rajiv Poddar (ao lado) o secunda como o Joint Manager Director.

 Balkrishna, nome da empresa, se refere ao deus Krishna quando criança, a encarnação de Vishnu, e simboliza aquele que vinha trazer a justiça, a paz e a inovação e uma visão nova no mundo para guiar a empresa que nascia. Krishna, na sua epopeia mítica, confrontou e derrotou entidades que representavam a exploração de seres humanos e a degradação e destruição do meio ambiente, como Kaliya o rei serpente que envenenou o rio Yamuna e devastou a mata circundante.

A BKT - Balkrishna Industries Ltd começou a operar com pneus em 1987 com a inauguração de sua primeira fábrica em Aurangabad. O crescimento dos negócios permitiu a abertura de novas fábricas em Bhiwadi (2002) e Chopanaki (2006), posteriormente em Dombivali e Bhuj em 2015. Além disso, tem 3 sedes de apoio comercial e de marketing em cidades da Europa e da América do Norte: A BKT Europe S.r.l. em Seregno, Itália, a BKT Tires USA Inc. em Akron, Ohio, e a BKT Tires Canada Inc. em Toronto.

O grupo BKT proporciona uma gama de pneus Off-Highway, ampla e atualizada, devidamente projetados para os veículos que operam nos setores agrícola, industrial, movimentação de terras, das minas, portuário, ATV e jardinagem. As soluções inovadoras da BKT foram projetadas para as exigências de qualquer tipologia de utilizador e incluem mais de 3.200 diferentes produtos vendidos em mais de 160 países em todo o mundo.

  


A empresa se consolidou e cresceu exponencialmente baseada em princípios estruturantes voltados para a inovação tecnológica, controle estrito de qualidade, investimento em educação, formação profissional, qualidade de vida, pesquisa e inovação em soluções voltadas para a sustentabilidade socioambiental.

A BKT é conhecida por suas inovações em tecnologia de pneus, incluindo:

Tecnologia de carcaça de aço – A BKT foi uma das primeiras empresas a usar carcaças de aço em seus pneus agrícolas, o que aumenta a resistência e a durabilidade de seus pneus em condições de uso extremo.

Tecnologia de belting – a BKT também desenvolveu uma tecnologia de belting o que aumenta a resistência à tração dos pneus, reduzindo a deformação da banda de rodagem e aumentando a vida útil dos pneus.

Pneus radiais agrícolas – a BKT foi a primeira empresa indiana a produzir pneus radiais para tratores e outros veículos agrícolas. Os pneus radiais oferecem melhor tração, estabilidade e conforto de condução em comparação com os pneus diagonais convencionais.

Pneus gigantes – a BKT também é conhecida por seus pneus gigantes para veículos de mineração e construção. Esses pneus são projetados para suportar cargas extremamente pesadas e operar em terrenos difíceis, como pedras e lama.

Pneus inteligentes – recentemente a BKT anunciou o desenvolvimento de pneus inteligentes equipados com sensores que monitoram a pressão e a temperatura do pneu em tempo real. Essa tecnologia ajuda a evitar falhas nos pneus e aumentar a segurança nas estradas.

A empresa continua investindo em pesquisa e desenvolvimento para criar soluções avançadas em pneus para diferentes tipos de veículos e mercados e também passou a produzir pneus de esteira e pneus maciços para equipamentos de construção e mineração. Cada tipo de pneu tem suas próprias vantagens, dependendo das necessidades específicas de uso. Algumas das vantagens dos pneus de esteira e dos pneus maciços da BKT incluem:


Pneus de esteira
Tração: os pneus de esteira oferecem excelente tração em terrenos difíceis e irregulares, como pedras, lama e areia.

Flutuação: as esteiras também têm uma grande área de contato com o solo, o que ajuda a distribuir o peso da máquina de maneira uniforme e evitar que ela afunde em terrenos macios ou instáveis.

Durabilidade: os pneus de esteira são geralmente mais duráveis do que os pneus convencionais, porque a esteira é feita de materiais resistentes à abrasão e cortes.


Pneus maciços
Resistência a perfurações: os pneus maciços são fabricados com compostos de borracha especiais que reduzem o risco de perfurações e cortes, o que pode aumentar a vida útil do pneu.


Manutenção reduzida: como os pneus maciços não precisam ser inflados, eles exigem menos manutenção do que os pneus convencionais. Além disso, eles não precisam de reparos frequentes devido a furos ou rasgos.

Confiabilidade: os pneus maciços têm uma estrutura sólida, o que os torna menos propensos a problemas de vibração e desgaste desigual. Eles também são capazes de suportar cargas pesadas sem deformação ou perda de pressão.


Em resumo, os pneus de esteira são ideais para uso em terrenos difíceis, enquanto os pneus maciços são mais adequados para operações que exigem maior confiabilidade e resistência a perfurações. A escolha entre os dois tipos de pneus dependerá das necessidades específicas da aplicação e das condições de uso.

A planta fabril em Buhj  

Em fevereiro de 2023 visitamos suas instalações em Buhj para conhecer suas linhas de produção, e a impressão que a planta fabril deixa o visitante extremamente impressionado com o caráter inovador e visionário de suas metas e perspectivas para o futuro.

Com máquinas automatizadas e muito eficientes a BKT vem ampliou a capacidade e a precisão dos processos produtivos, aumentando a quantidade da produção e a qualidade do produto acabado. Dessa forma, a quantidade de produto descartado é menor, aumentando a sustentabilidade do processo fabril e consequentemente reduziu os custos de produção. Os processos se tornaram também cada vez mais confiáveis, quase sem riscos profissionais e com maior conforto para os trabalhadores.

Aliado à automação praticamente total de seus módulos produtivos evitando erros humanos e acidentes, há um controle e monitoramento digital em tempo real de todas as fases de operação, efetuando um controle de qualidade minucioso de cada pneu produzido. Esse controle do processo e monitoramento em tempo real do processo produtivo permite a percepção instantânea de qualquer desvio dos parâmetros exigidos e sua correção imediata.


Cada módulo produtivo ocupa enorme armazém dedicado a cada fase do fabrico dos pneus, desde as mantas diferenciadas de material das várias camadas que compõem os pneus até o módulo da montagem final de todas suas partes. Pronto o pneu nesse processo de controle e monitoramento contínuo de sua qualidade, cada um deles ainda passa ainda por uma averiguação final minuciosa. Primeiro por inspeção visual detalhada e por fim por um escaneamento fino, interno e externo, apto a identificar qualquer ponto de ruptura ou má constituição, ainda que seja um ponto diminuto que, se percebido pode condenar o pneu, cujo material será reciclado para produção de novo pneu. Essa inspeção/escaneamento é gravada e referida a cada pneu produzido, constituindo uma garantia e checagem de sua integridade, podendo ser recuperada em caso de qualquer posterior alegação de defeito. Isso significa que todos os pneus BKT que entram no mercado tem 100% de conformidade com os parâmetros exigidos para seu uso, sem nenhum defeito de fabricação.


Visitamos também os módulos de produção dos novos pneus de esteira e dos pneus maciços, novos lançamentos da empresa, adequados aos mesmos padrões de automação e qualidade.

Reciclagem e sustentabilidade produtiva
Os resíduos de borracha e dos outros produtos envolvidos na produção dos pneus são reaproveitados para a produção de materiais complementares, como o negro de fumo.

A fábrica abriga módulos complementares à produção dos pneus, como o módulo de produção de carbon black, ou negro de fumo em português, em parte produto de reciclagem de resíduos da própria fabricação dos pneus.


O negro de fumo (carbon black) é um pigmento e fase de reforço em pneus de automóveis. Também ajuda a conduzir o calor para longe da banda de rodagem e da zona da cintura do pneu, reduzindo os danos térmicos e aumentando a vida útil dos pneus. Além desse uso, esse produto tem inúmeras outras aplicações, na condutividade de baterias de lithium, em cintos, mangueiras e muitos outros produtos como capas de computadores, celulares, mesas de escritório.


A fábrica de negro de fumo entrou em funcionamento em 2017, quando foram produzidos os primeiros 65 000 MT/PA de negro de fumo de grau duro, o tipo de negro de fumo utilizado especificamente no piso dos pneus. No ano seguinte, a produção aumentou de 65 000 para 110.000 MT e foi acrescentada a produção de negro de fumo de grau suave, utilizado no composto da lona de carcaça para melhorar a sua resistência e durabilidade, gerando menos calor. Em 2021, a produção total dos dois tipos de negro de fumo atingiu 138.000 MT por ano, enquanto no ano passado subiu para 165 600 MT por ano.


O objetivo para 2023 é 198.600 MT. Além disso, o departamento de Investigação e Desenvolvimento planeja acrescentar um terceiro tipo de negro de fumo, o "negro de fumo especial". Este é um tipo de negro de fumo com propriedades únicas em comparação com o utilizado em compostos de borracha, tais como alta resistência à coloração, um alto nível de pureza, um baixo nível de cinzas e um nível muito baixo de HAP, o que o torna adequado para aplicações específicas, tais como tintas, plásticos e tintas de impressão.

A BKT também introduziu uma nova abordagem à produção de negro de fumo, ao tornar todo o processo mais sustentável.


Em primeiro lugar, o transporte de negro de fumo: a BKT substituiu os contentores de sacos a granel por silos móveis. Isto significa que a fábrica de produção de pneus recebe entregas da fábrica de negro de fumo com a ajuda de silos móveis transportados pneumaticamente para o armazenamento. Assim, a BKT poupará nas embalagens, ou seja, 100.000 sacos a granel nos próximos anos.


Mas há mais: todo o sistema de transporte foi também concebido para reduzir o consumo de energia e aumentar a qualidade. Cada sistema de transferência é controlado pelo peso e pela energia utilizada. E a meta para o futuro é um desafio: reduzir o consumo de energia até 70%. Isto traduz-se numa poupança de mais de dois milhões de quilos de emissões de CO2 por ano, que são comparáveis a 5.000 apartamentos de 100 metros quadrados cada.

Ao mesmo tempo, o gás utilizado para fabricar negro de fumo é agora encaminhado para uma instalação de cogeração com capacidade para reutilizar 75 000 metros cúbicos de gás por ano. Isto significa poupar 215 000 MT de carvão por ano.


Zero emissão e autonomia energética
Da mesma forma que os resíduos de borracha são reciclados, todo o CO2 emitido envolvido no processo de produção é capturado, assim como outros gases emitidos, conduzidos para um outro módulo, esse agora de produção de energia, que aproveita também os resíduos sólidos e gasosos da produção do negro de fumo.


Já em 2013, a central elétrica interna foi criada para dispor de uma fonte de eletricidade fiável e controlada. Atualmente, tanto os painéis solares como a central de cogeração permitem a autoprodução de energia. Em 2022, a central de cogeração foi expandida, de 20 MW para 40 MW, e ainda estão em curso projetos para aumentar a potência dos recursos renováveis autoproduzidos. 

Tratamento e reaproveitamento da água e reflorestamento local
A água está também no centro do caminho virtuoso da BKT para a Sustentabilidade. Desde 2019, foi adotado o princípio de Descarga Líquida Zero (ZLD), o que significa que não se descarrega nenhum resíduo líquido fora da fábrica. Toda a água utilizada na fábrica é tratada, purificada e reutilizada. O objetivo do princípio ZLD é conservar os recursos hídricos, reduzir o impacto ambiental da descarga de águas residuais e melhorar a eficiência global e a sustentabilidade da instalação.

Dessa forma, a BKT desenvolveu no interior da planta da fábrica uma estação de tratamento de água e uma estação de medição de efluentes, gases e monitoramento da qualidade do ar.


Com o apoio dessas estruturas passou a desenvolver o reflorestamento do seu entorno, usando a água como fonte de irrigação e criando também enorme viveiro de mudas e desenvolvimento de experimentação de associações vegetais de cerca de 2 hectares.


Centro de Investigação e Desenvolvimento
A divisão de Investigação e Desenvolvimento da BKT foi a alavanca do crescimento da planta de Bhuj até ao seu estado atual, orientando suas inovações, expandindo constantemente as suas fronteiras e enfrentando novos desafios à medida que estes surgiam. Criado em 2017, este núcleo desenvolve produtos e processos, para garantir que a empresa mantenha sua liderança internacional.


Liderado por uma equipe especializada de investigadores e analistas, continua a ser um dos centros de investigação mais importantes e modernos do mundo no setor dos pneus. Procurar a solução certa significa testá-la na prática. Por este motivo, em 2017, foi inaugurado um circuito de testes especial. Com 6 pistas diferentes, este circuito inclui pistas para testes de desempenho de pneus em condições secas e úmidas, uma pista de asfalto e uma pista inclinada de concreto. Graças a uma grande variedade de testes, muitas características importantes como tração, manuseamento, conforto, compactação do solo e muito mais podem ser medidas ali, com recurso a dispositivos e instrumentos de alta precisão.
   

A Índia está prestes a se tornar o país mais populoso do planeta, ultrapassando a China, ambos com população de 1,4 bilhões de habitantes. A Índia será nos próximos anos a quarta nação em termos de PIB. De certa forma uma contradição, pois a renda per capita ainda será baixa. E a milenar e exótica nação indiana se prepara para ocupar seus espaços.

 

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domingo, 19 de fevereiro de 2023

Coisas de bêbados

Richard Jakubaszko     
Situações hilariantes acontecem muitas vezes na vida de quem bebe álcool além da conta. As fotos abaixo mostram isso, e o farplay nem sempre amigável dos amigos bêbados que estão sempre juntos comprovam a vexatória situação. Durante o Carnaval essa história é uma rotina constante. 













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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O que os poderosos querem que você faça

Richard Jakubaszko   
É assim que funciona, e você nem sabe o porque. Eles mandam e você tem de obedecer, simples assim.



 

 

 

Tradução:
Michael Bloomberg tem 6 aviões, 3 helicópteros, 11 casas e 42 carros.
Ele pensa que você deve usar o transporte público.
Para salvar o meio ambiente...

 

 

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sábado, 4 de fevereiro de 2023

Não era dia da onça beber água

Rinaldo Arruda  
Há muitas histórias sobre onças acontecidas com os que vivem nas matas.

Balduíno contou que, de certa feita, caminhando no mato indo da aldeia da Beira Rio para a Aldeia do Tapema, se deparou com rastro de onça atravessando a trilha. Era rastro fresco e como era próximo da aldeia, resolveu seguir o rastro e ver onde ia a onça e até quem sabe, se fosse em direção às proximidades das aldeias, avisar o pessoal.

Saiu da trilha seguindo os rastros, lentamente sem fazer ruídos, caminhou uns cem metros ... o caminho da onça fazia uma curva como que se estivesse voltando na direção oposta... andou mais um pouco seguindo as patas da onça e, de repente, estalou uma pisada nas folhas secas uns 10 metros atrás dele. Quando se voltou, viu que uma onça preta o seguia enquanto ele seguia os rastros dela. Atirou rápido com sua espingarda, conseguiu ferir fatalmente a onça, escapando de um ataque que ela armava contra ele.


Foi assim. A onça percebeu que era seguida, fez a volta e passou a seguir o perseguidor, por isso a trilha da onça fazia aquela curva estranha como se ela voltasse para a direção de onde vinha vindo.


O Vicente, quando morava na aldeia do Barranco Vermelho, quase foi morto por uma onça pintada. De dia ele havia escavado um poço, já com uns 3 metros de fundura, perto de sua maloca. Trabalhou nisso o dia inteiro, de tardezinha banhou-se no rio Juruena, voltou para casa, jantou, papeou com a mulher e os filhos, foram dormir cedo. De madrugada, ainda escuro, saiu para mijar, se afastou um pouco da casa e foi urinar perto do poço. Do nada saltou uma onça pintada sobre ele. Desviou, mas tomou uma patada que rasgou seu braço, esquerdo. Ela veio de novo e, no encontrão, empurrou/socou a onça que, por muita sorte dele, escorregou na beira e caiu no fundo do poço, sem conseguir sair. Foi só ir até em casa pegar a arma e matar a onça ali dentro mesmo.


E depois da história vem as conversas. Mas, era onça mesmo? Como assim? - perguntava eu.


O corpo era da onça mas podia ser um Rikbaktsa falecido querendo se vingar, enciumado e invejoso dos vivos.


Quando alguém desse povo morre, todos seus parentes vem para o funeral, seja os do lado do seu clã, do mesmo sangue do seu pai, seja do lado do clã oposto, o da mãe, que são os parentes por casamento. Assim que uma pessoa morre, vai um emissário para todas as aldeias e chega cantando na frente das casas, anunciando a morte do parente. Logo todos se arrumam, com as pinturas faciais de cada clã, vestindo seus cocares de funeral, levando suas armas e seguem para a aldeia do falecido.


Na aldeia do falecido, seus parentes mais próximos já juntaram comida da roça, carne de caça ou peixe, fizeram chicha para beber, as mulheres já estão chorando ritualmente, e cada comitiva que chega das outras aldeias já sai das canoas em fila (ou do barco com motor de popa) cantando/gritando/chorando, e dirigem-se para onde o corpo está sendo velado.


É bem impressionante aquela onda de emoção das mulheres chorando, som contínuo e ritmado, os homens brandindo as armas falando/gritando. Tudo é posto para fora, as mágoas deixadas pelo morto, as culpas reais ou presumidas de cada um, tudo de bom e ruim que pensavam do morto e depois de umas horas dessa catarse, tudo pisado e repisado, tudo fica limpo. O morto é enterrado com seus pertences pessoais, seus pertences outros são queimados e por um bom tempo não se pronunciará mais seu nome. Sua casa será desmanchada e a mulher e os filhos rasparão a cabeça e mudarão para outra casa ou outra aldeia.


Quando esse funeral é bem feito, de acordo com a tradição e com sentimentos verdadeiros, o falecido ou falecida encontra o caminho para o paraíso Rikbaktsa e lá reencontra seus ancestrais na aldeia do “céu”, onde há muita fartura, muita mata, água farta e límpida e todos vivem bem.


Mas, quando o falecido era uma pessoa que em vida fez muitos mal feitos e, principalmente, quando a pessoa era sovina, não era solidário, nunca retribuía o que ganhava dos outros seja da roça, caça ou peixes, sem nenhuma generosidade, o funeral nunca era bem sucedido, seja por que as pessoas não conseguiam ter a atitude interna certa, seja por que era tudo feito “mais ou menos”. Sendo assim, o espírito do morto não acha o caminho para o “paraíso” e fica vagando por perto, com raiva e ciúme dos vivos. Nesses casos, o espírito encarna numa onça, ou numa cobra venenosa, em qualquer animal perigoso que ataca os seres humanos. Então, parece onça, mas não é onça...


E aí, em maio de 1988, mais ou menos, eu estava de novo no país dos Rikbaktsa, lá no rio Juruena. Estava hospedado na escola da Aldeia da Primeira Cachoeira mas a festa grande deste ano estava sendo na aldeia Pé de Mutum, uma das primeiras festas grandes na Terra Indígena Japuíra.


Os Rikbaktsa tinha sido transferidos, expulsos, dessa parte de seu território tradicional na época em que morriam das epidemias causadas pelos primeiros contatos com os brancos. Mas, agora, essa terra tinha sido recém reconquistada pelos Rikbaktsa numa luta dura, no terreno e na justiça, sendo reconhecido seu direito à Terra Indígena Japuíra. Pé de Mutum veio a ser a primeira e maior aldeia dessa terra indígena, fundada por Geraldino Matsy, sua parentela e aliados. A festa grande era lá esse ano.


Foi muita gente nessa festa e em outro momento eu conto como ela é. Saímos da aldeia da Primeira Cachoeira numa voadeira bem cheia de gente. Barco para seis pessoas levava onze e mais o rancho e as tranqueiras (rede, armas, roupas etc.) de todos.


Muitas horas de viagem descendo o rio Juruena, passamos pela foz do rio do Sangue e seguimos adiante. Saímos cedo, fomos parando em outras aldeias no caminho para um papo e comer alguma coisa, sempre ofertada em qualquer casa que alguém vá. Já no meio da tarde, ao passar por uma das ilhas do rio, de repente salta para a água uma enorme onça parda. O piloto da voadeira mudou o rumo, indo direto em direção a ela que passou a nadar rapidamente tentando alcançar a margem do rio.


No barco cheio eu estava no proa, bem no bico da voadeira e a única espingarda, uma winchester 22, estava bem ao meu lado. Naquela perseguição bizarra, voadeira chacoalhando nas águas agitadas do rio, caçando a onça que fugia e parecia que ia alcançar a margem, ao ver que a arma estava bem a meu lado, todos passaram a gritar para que eu atirasse, logo!


- Atira Rinaldo! Atira, rápido, ela vai alcançar a margem.

- Atira Rinaldo! Atira! Agora!


Onça linda, majestosa na força de seu nado no grande rio, já há uns 10 metros da margem, rio encachoeirado, barco pulando, onça nadando, encostei a winchester no ombro, mirei e, sem muita esperança, premido pelos gritos, atirei. De imediato, num momento congelado na minha mente, a onça parou de chofre, braços abertos, cabeça mole afundando na água.


Havia acertado na nuca, morte imediata. Nem acreditei. Meio triste por ter acertado bicho tão lindo, e perigoso.


Quando alguém mata um bicho, é o outro que carrega e depois divide com os da aldeia. Então, dei a onça para Salvador, irmão do Geraldino, do clã da Arara Amarela, o mais velho da voadeira.


Sua cabeça foi cortada e depositada no banco da voadeira, ao lado de Salvador, voltada para a frente, de olhos abertos. Companhia surrealista de viagem, aquela face de onça, cabeça grande, como que sentada junto conosco, no resto da viagem. Meio assombroso...


Na chegada causou espanto, e a história foi contada muitas vezes para o pessoal que estava na aldeia.


De noite, lua cheia majestosa pairando sobre o rio e a aldeia, deixando tudo claro, fazia até sombra e a água do rio brilhava. O fogo foi aceso na frente da casa de Geraldino, o fundador da aldeia, panelão de água fervendo onde foi colocada a cabeça da onça, por bastante tempo, até amolecer e permitir a retirada dos dentes caninos, enormes e potentes.


O espírito da onça fica ali, no interior dos dentes caninos, dali ela tira sua força e potência. Os dentes foram furados na sua base pelos companheiros do clã oposto, no caso pelos que eram do clã dos Harobiktsa (arara cabeçuda, um tipo de arara vermelha), num trabalho cercado de cuidados para que os dentes não rachassem deixando o espírito escapar. Enquanto isso, outros também do clã Harobiktsa, teciam com tucum os fios para passar pelos furos e constituir o colar. Salvador usou esse colar até seu falecimento, em 2018.


Mas, de tudo isso, ficou até hoje na minha mente o aviso que Salvador me deu, satisfeito com o colar no pescoço e me agradecendo pelo presente:

- De agora em diante tome cuidado ao andar no mato. Você matou a onça, e agora todas elas sabem disso, podem querer se vingar de você. Fica esperto no mato!


- Ô Salvador, podiam ter avisado antes de eu atirar, né, respondi meio na brincadeira.

Mas, levei a sério o aviso, fico sempre esperto ao andar na mata.


Salvador, 1988 Foto Rinaldo Arruda

 

 

 

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terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Notícias ou fake news?

Richard Jakubaszko  
A grande mídia combate e critica as fake news, os jornalões e mesmo as TVs exibem seções no jornalismo onde avaliam e criticam as falsidades que circulam nas redes sociais. Esquecem que eles próprios também publicam notícias, engajadas nos interesses políticos e econômicos dos acionistas e de seus anunciantes.

É uma síndrome de causa e efeito. O jornalismo perdeu credibilidade, a sociedade retrocedeu quase um século, não se acredita em mais nada, e de tudo se duvida sobre as barbaridades publicadas, seja na mídia ou nas redes sociais; porque tudo é deturpado, e coloca-se em julgamento por valores morais contemporâneos, especialmente notícias da área política ou que envolvam "famosos", sejam questões polêmicas de gênero ou de interesse sexual. As pessoas parecem ter perdido a humanidade.

O leitor há de concordar que nem sabe onde está a verdade sobre os Yanomamis, o que se vê é um genocídio contra um povo indefeso, mas foi praticado por não se sabe por quem. Da mesma forma o 8 de janeiro de 2023, capítulo vergonhoso de nossa história, onde todo mundo é inocente...
   



 

 

 

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

A sucuri

Rinaldo Arruda

Rio Juruena. Foto Rinaldo Arruda, 2018
Rio Juruena. Foto Rinaldo Arruda, 2018
Saímos para caçar de manhã cedo, Pudata estava com vontade de comer carne de macaco. Beirando o rio a partir da aldeia da Primeira Cachoeira, lá fomos nós pela trilha, desviando depois para o interior da terra indígena, em direção ao rio do Sangue.

- Mais lá pra frente é que eles andam, diz Pudata, as frutas estão maduras.


Íamos em silêncio caminhando, atentos aos ruídos da mata, evitando pisar em galhos caídos ou folhas secas, sem dar
Pudata na frente levando o arco e flechas, eu atrás com a winchester 22. Rastros de porco do mato...

– Passaram por aqui já faz pouco tempo, diz Pudata. Cuidado...


Seguimos, tudo em silêncio, os animais também são prudentes. Vimos casa de jataí, marcamos o lugar para voltar outra hora, melzinho bom, medicinal.


Quando se sai para caçar, quem não conhece acha que vai dar de cara com algum animal e que será surpreendido. Mas, não é bem assim.


Cada bicho tem seu território, suas trilhas próprias, em geral indo de um ponto de alimento a outro (suas frutas preferidas que amadurecem no seu ritmo e estação do ano; ou os caminhos usuais de outros animais que podem ser suas presas).


Se depender só do olhar é muito raro dar de encontro com algum animal. É preciso saber ouvir, decifrar os sons da mata emitidos por uma miríade de seres diferentes. É um pássaro que canta? É filhote? Macho ou fêmea? É canto de acasalamento? É sinal de perigo? É a onça imitando a fêmea de uma ave para atrair seu macho? É o quatá macho que vigia e guarda o bando avisando de alguma coisa? E pelos sons, o mato vai se povoando, o contexto em que estamos vai se desenhando e vai definindo nosso rumo.


Saímos com intenção de matar quatá ou outro tipo de macaco, e assim Pudata resolveu levar só o arco e flechas. Quando se caça macacos, que andam em bandos e com um vigia enquanto o restante do grupo procura e come frutas pelo caminho, é preciso antes localizar sua rota, pelos barulhos que fazem no seu deslocamento e comunicação. E também, é claro, ter uma noção das fruteiras existentes e das rotas usuais que usam. Encontrado o bando, tem que ficar na espreita, deslocar-se lentamente e sem ruídos, até conseguir se aproximar do bando sem ser percebido.


Se o caçador usa arma de fogo o que acontece? O primeiro macaco ao alcance do tiro será baleado, mas com o barulho da arma todos saem em desabalada carreira pelo dossel das árvores, tornando difícil matar mais de um. A gente tem que sair correndo, varando mato, tentando segui-los até que parem por cansaço e daí conseguir de novo se posicionar próximo de algum deles sem ser percebido. E olha, eles demoram para cansar...


Por outro lado, se a arma é a flecha, silenciosa e mortal, o macaco ferido ou morto dá sinal de sua agonia, mas o bando não sabe o que aconteceu e nem localiza o agressor. Movimenta-se mas não sabe para onde fugir. Possibilita nova aproximação e nova caça.


Bem, mas andamos bastante e nada de localizar algum bando. Voltamos um pouco e resolvemos seguir os rastros dos porcos do mato.


Embora sua caça seja mais perigosa, é mais recompensadora, pela qualidade da carne e por sua maior quantidade. Mas, quando alguma fêmea está com filhotes o bando torna-se muito perigoso. Ao menor sinal atacam rapidamente o caçador que, se não conseguir subir rapidamente em algum tronco ou lugar mais alto, fora de seu alcance, será atacado e morto pelo bando. Mas, quando é bem sucedida, a caçada é recompensadora, é raro não voltar com mais de um porco para a aldeia. O duro é carregar os bichos no caminho de volta. Muitas vezes limpa-se o animal na mata mesmo, tirando seus órgãos internos, corta-se em pedaços menores e improvisa-se um cesto (xiri) com folhas de palmeiras trançadas para carregar para casa.


Pudata ouviu ao longe os sons de um bando de quatás! Fomos seguindo em sua direção e percebendo que eles também se deslocavam lentamente.


- Vamos atalhar por ali, diz Pudata, intencionando dar uma volta e espera-los mais à frente na rota que seguiam e aí surpreende-los já em posição de tiro quando ali chegassem.


Saímos da trilha e fomos varando mato até chegar num brejão, não muito fundo. Água e barro na altura da coxa, seguimos lentamente para não fazer barulho. Um tronco caído. Arlindo levanta a perna direita bem devagar para não chapinhar na água, passa a perna por sobre o tronco e quando a baixa dá um grito de dor e debate-se para livrar a perna. Quando vejo ele está se atracando com a sucuri que mordia sua perna, furando sua cabeça com a ponta das flechas que carregava na mão. Assim que deu retirou a perna e correu para trás, saímos rápido daquele brejo, fugindo da sucuri que, felizmente, ficou por lá.


Puta susto e um belo corte na batata da perna, sangrando. Fizemos uma atadura com a camiseta e fomos voltando, ele com alguma dor e dificuldade para caminhar.


Levamos duas horas para voltar para a aldeia. Lá chegando Maria Isabel, sua mulher, já o esperava preocupada: seu filho recém nascido (um mês) estava vomitando e com diarreia.


Quando sua mulher viu o ferimento e soube da história do ataque da sucuri entendeu tudo. Apesar de preocupada com Pudata ficou muito brava! O ferimento no pai havia agredido seu filho e provocado vômito e diarreia! O mal estar do bebê havia começado justamente por volta do momento em que Pudata foi atacado, ele mesmo reconheceu isso e ficou muito mal por ter provocado esse perigo ao bebê.


Os Rikbaktsa, povo que vive no rio Juruena, no hoje estado de Mato Grosso, sabem que um pai e seu filho compartem uma mesma substância espiritual que permeia seus corpos e mentes e fazem com que o que acontece com um reflete no outro. Por isso Maria Isabel ficou brava. Pudata deveria ficar de resguardo enquanto o bebê ainda é pequeno, idealmente até que ele completasse um ano, evitando certos alimentos considerados muito fortes, evitando o encontro com animais ferozes e situações de muito perigo. Tudo bem, ele pretendia apenas caçar quatás, mas andando no mato estava sujeito a tudo, a encontrar uma onça, uma cobra peçonhenta e até uma sucuri como ocorreu. Na verdade, nem deveria ter saído para caçar.


Por sorte o bebê logo se recuperou e Pudata também, a mordida não chegou a infeccionar embora o tenha incomodado ainda por alguns dias.


E assim, aprendi mais um pouco da vida e do mundo com o Arlindo e com os Rikbaktsa.


ARLINDO PUDATA. Foto Rinaldo Arruda, 1987.





 

 

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