quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Carta aberta aos cooperativistas: só o associativismo salva!


Richard Jakubaszko
O cooperativismo não será capaz de enfrentar sozinho o que vem aí pela frente, pois será uma verdadeira guerra mundial, e sangrenta, ninguém tenha dúvida disso. Teremos uma crise de restrição de alimentos – e de fome – em muitos países, pois os preços tendem a se elevar ainda mais dos que os praticados hoje, agora catapultados não apenas por uma seca nos EUA, mas também pelo aumento de demanda asiático e por causa da especulação financeira que transformou alimentos como soja e milho em prosaicos “derivativos”, levando neste pacote a avicultura e a suinocultura.

Esse panorama, num primeiro momento, pode prenunciar bons lucros aos produtores de grãos. Os bons lucros, entretanto, vão se reduzir na medida em que os insumos subam de preços, bem como o transporte, o armazenamento e o custo da terra. Como os estoques mundiais andam muito baixos, isto vai provocar guerras, rebeliões e migrações, governos democráticos serão depostos, assim, como outras ditaduras. 

O tabuleiro de xadrez onde se desenrola esta guerra, encontra os agricultores brasileiros, especialmente eles, desprotegidos de toda sorte de políticas públicas, onde se destaca o seguro agrícola, um dos temas abordados nas páginas da Agro DBO 38, de outubro 2012, em circulação desde o início deste mês, e que poderá ser lida através do nosso site: www.agrodbo.com.br

Nesta Carta Aberta nos dirigimos a todas as cooperativas brasileiras produtoras de grãos, e seus respectivos presidentes, e, em especial às maiores do setor:

CAROL – José Oswaldo Galvão Junqueira
COAMO – José Aroldo Galassini
COCAMAR – Luiz Lourenço
COMIGO – Antônio Chavaglia
COOPAVEL - Dilvo Groli
COTRIJAL – Nei Mânica

Só o associativismo salva os produtores brasileiros, especialmente os pequenos e médios. Como os agricultores não têm representatividade política em nível nacional, quem vai atuar em nome deles e de seus interesses? O que vimos na aprovação legislativa sobre o Código Florestal é uma pequena amostra grátis do que vem aí pela frente face às discussões que vão ocorrer pela sociedade urbana quando os preços dos alimentos subirem: se subir é porque há perigo de faltar, e, na sequência, surgirão propostas de confisco dos alimentos, até mesmo taxas sobre exportação, para garantir o abastecimento interno, multas e prisão para quem estiver mantendo estoque dos grãos, enfim, não é difícil imaginar as dificuldades que possam surgir se os preços subirem acima do suportável, pelos governos e pela população.

Somente o associativismo pode salvar os produtores de grãos brasileiros, especialmente os pequenos e médios.

Preços cada vez mais altos
O mais recente relatório divulgado em setembro último pela FAO, o órgão das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, revela que a elevação no preço dos alimentos chegou a níveis críticos, principalmente para os países pobres que necessitam importar alimentos para dar de comer às suas populações.

Segundo os dados da FAO, nos últimos meses os preços do trigo registraram alta estratosférica de até 80%. O milho, um aumento de 40%. Uma perversa combinação entre crescimento de demanda, especulação financeira, secas, e produção de energia a qualquer custo, está entre os fatores causadores dessas altas. Afinal, as quebras nas safras de dois gigantes na produção de grãos, EUA e Rússia, ocorreram em virtude dos efeitos de secas prolongadas. O relatório da FAO afirma que 22 países já enfrentam uma crise prolongada com altos índices de fome mesmo antes dessa forte alta. Portanto, além do agravamento da situação desses que já enfrentam uma crise alimentar, deve-se esperar que novos países se juntem ao contigente de esfomeados.

Mesmo assim, o preço desses alimentos tem estado em constante alta, pois além do prato dos humanos, essas commodities alimentam animais e os veículos abastecidos por biocombustíveis.

Outro problema apontado por economistas da FAO é a especulação orquestrada pelos mercados futuros. “A financeirização por meio de manobras especulativas contribui para elevar os preços dos alimentos”, afirma a entidade.

Nesse clima, fica a pergunta: de que forma as cooperativas poderiam atuar na defesa de seus interesses e dos seus cooperados? De nenhuma forma, respondemos nós. Nem na grande mídia haveria defensores dos agricultores, pois representam a opinião dos urbanos, e estes, como sabemos, andam com inédita antipatia pelo agronegócio. Assim, prevemos que nem mesmo a Frente Parlamentar Agropecuária, de cunho essencialmente político, mostraria a cara para defender os produtores, na hipótese de subida desmedida dos preços pela ameaça de faltar alimentos.

Só o associativismo, com forte atuação política, seria capaz de apresentar a defesa dos agricultores em situação como estas. De outro lado, enquanto esse prognóstico não se confirma, existem muitas batalhas e demandas de interesses dos produtores que estão sendo perdidas pela falta de interlocutores preparados, ou por atores que não possuem representatividade, mas falam em nome dos produtores, diariamente, nos meios de comunicação.

Outro exemplo gritante das diferenças e problemas enfrentados pelos agricultores está expresso em artigos da edição 38 da Agro DBO, dos colunistas Daniel Glat e Rogério Arioli, ambos agrônomos e produtores rurais, quando relatam a tranquilidade dos agricultores americanos diante de uma seca perversa que, se ocorresse no Brasil, jogaria milhares de agricultores em negociação de dívidas ou quebraria a quase todos. Lá existe seguro (de renda) rural aos produtores, enquanto aqui no Brasil temos um seguro que garante apenas aos bancos de receberem o que emprestaram. Em outro artigo, também na edição 38 da Agro DBO, o cafeicultor Luiz Hafers já se antecipa no alerta sobre cotas e impostos, ou melhor, confiscos.

A questão é que a ganância estúpida do mercado nos tempos modernos busca colocar o consumidor em sua condição de “pagante”. Só assim dá para entender a inversão de prioridades ao se colocar em limitação o uso de novas áreas na futura produção dos alimentos, tal como prevê o Código Florestal.

O fato é que se deixarem as coisas como estão pode-se esperar o registro de novas revoltas ao redor do mundo, semelhantes as que têm ocorrido cada vez com maior frequência em diferentes regiões do planeta, em destaque o mundo árabe, mas também na Ásia e na África. Muitas das manifestações entre os árabes tinham também como motivação a escassez ou a alta no preço dos alimentos, mas o agravamento da situação atual não será bom conselheiro na hora de pedir calma aos revoltosos. Afinal, se não for possível comprar comida para colocar no prato das famílias, não haverá bom senso e bons argumentos capazes de evitar atitudes não civilizadas.

A união só pode vir através das cooperativas
É tempo de as cooperativas liderarem a instalação de uma associação nacional, de cunho técnico, com atuação política, que seja representativa, que seja forte, e que expresse os verdadeiros interesses da agricultura. Para defender os agricultores dos futuros e breves ataques, que surgirão de todos os lados. Para buscar equilíbrio nas decisões de governo que se destinam a regular o mercado, sempre em favor dos consumidores, nunca beneficiando os produtores. Para que se evolua com o seguro rural. Para que se tenha uma lei de CLT (Consolidação da Lei Trabalhista) ajustada ao meio rural, que é diferente do urbano. Para que se obtenha segurança jurídica na posse da terra e nas relações com os mercadistas. Ou as cooperativas, e seus líderes, acreditam que poderão defender os seus cooperados sob o manto das cooperativas? Nem antes, nem hoje e nem no futuro. Não é essa a função do cooperativismo, mas apenas de um associativismo.

Que se estabeleça o associativismo, sob as bençãos e liderança do cooperativismo, para dar sustentabilidade aos agricultores. Não há outro caminho: só o associativismo salva a agricultura. Só o cooperativismo tem recursos suficientes para essa empreitada, e só o cooperativismo pode provocar o senso gregário dos produtores rurais, hoje inexistente no Brasil, ao contrário do que se verifica nos EUA e Europa.
Aos cooperados que concordam com nossa proposição sugerimos conversar com os presidentes de suas cooperativas, pedindo que pensem a respeito.
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2 comentários:

  1. EVARISTO DE MIRANDA24 de outubro de 2012 12:08

    PARABÉNS.
    EXCELENTE ARTIGO!
    QUE DEUS E TODOS ESSES DIRIGENTES TE OUÇAM.
    EVARISTO DE MIRANDA

    ResponderExcluir
  2. É isso aí, meu caro!
    Roberto Rodrigues

    ResponderExcluir

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