domingo, 14 de julho de 2019

Os procuradores de dinheiro

Fernando Brito *    
O que se revela, hoje, na Folha, com a transcrição dos diálogos entre o coordenador da “Força Tarefa” da Lava Jato, seus colegas, o juiz Sérgio Moro e o então procurador geral da República, Rodrigo Janot não é apenas a mais grossa “picaretagem” para ganhar (muito) dinheiro às custas do serviço público pelo qual já eram regiamente remunerados.
 

É crime.

Embora uma “cambalhota” flexibilize a proibição de outras atividades a juízes e promotores, admitindo a participação “esporádica” remunerada em palestras, não é dito que se trata. São os planos de montagem de uma estrutura profissional – e semi-clandestina, porque formalmente em nome de suas mulheres – para ganhar uma bolada de dinheiro explorando o prestígio alcançado com a Operação, isto é, com o exercício de suas funções.

Prestígio, claro, que crescia com a produção de fatos bombásticos e sua repercussão na imprensa.

A descrição da Folha não poderia ser mais explícita:

A ideia de criar uma empresa de eventos para aproveitar a repercussão da Lava Jato foi manifestada por Deltan em dezembro de 2018 em um diálogo com a mulher dele.

No mesmo mês, o procurador e o colega dele na força-tarefa da Lava Jato Roberson Pozzobon criaram um grupo de mensagens específico para discutir o tema, com a participação das esposas deles: 

“Antes de darmos passos para abrir empresa, teríamos que ter um plano de negócios e ter claras as expectativas em relação a cada um. Para ter plano de negócios, seria bom ver os últimos eventos e preço”, afirmou Deltan no chat.

Pozzobon respondeu: “Temos que ver se o evento que vale mais a pena é: i) Mais gente, mais barato ii) Menos gente, mais caro. E um formato não exclui o outro”.

Após discussões sobre formatos do negócio, em 14 de fevereiro de 2019 Deltan propôs que a empresa fosse aberta em nome das mulheres deles, e que a organização dos eventos ficasse a cargo de Fernanda Cunha, dona da firma Star Palestras e Eventos.

A renda da picaretagem não era pequena, segundo Deltan Dallagnol descreve nos diálogos com sua mulher, Fernanda.


Cerca de três meses antes de iniciar o grupo para discutir a abertura da empresa, Deltan informou a esposa sobre a lucratividade das palestras apurada até setembro de 2018.

“As palestras e aulas já tabeladas neste ano estão dando líquido 232k [R$ 232 mil]. Ótimo… 23 aulas/palestras. Dá uma média de 10k [R$ 10 mil] limpo.”
No mês seguinte, o procurador manifestou a expectativa para o fechamento de 2018.


“Se tudo der certo nas palestras, vai entrar ainda uns 100k [R$ 100 mil] limpos até o fim do ano. Total líquido das palestras e livros daria uns 400k [R$ 400 mil]. Total de 40 aulas/palestras. Média de 10k limpo”, disse o procurador.

Deltan também é generoso, ao propor, em diálogos “de botequim” ao procurador geral Rodrigo Janot palestras a R$ 30 mil de cachê, em junho de 2018.

Depois de abordar o curso, ele comentou: “Tava aqui gerenciando msgs e vi que fui direto ao ponto kkkk Tudo bem com Vc? Espero que esteja aproveitando bastante, tomando muita água de coco e dormindo o sono dos justos rs Agora, vou te dizer, Vc faz uma faaaaaaaltaaaaa”.

“Oi amigo kkkkkk”, respondeu Janot. “Considero sim mas teremos que falar sobre cache. Grato pela lembra”.

Deltan perguntou se o cachê oficial do ex-chefe era de R$ 30 mil e sinalizou que faculdades normalmente “não pagam esse valor”: mas se pedir uns 15k [R$ 15 mil], acho que pagam”.

Janot, é bom lembrar, ainda estava (ou parecia estar) no serviço ativo, pois só se aposentou em 25 de abril deste ano.

O mesmo com Sérgio Moro, a quem sugere que cobre mais por uma palestra organizada pelo procurador de SP Edilson Mougenot, ao qual está cobrando R$ 5 mil para participar e sugere ao juiz que “poderia pedir bem mais se quisesse, evidentemente, e aposto que pagam”.

Deixa claro, também, que a doação de valores altos a instituições de caridade é uma “cobertura” para “valores menores, que reservo para mim”.

É, considero, a revelação que mais impacto terá na opinião pública.

Nela, não há a “desculpa” que tem sido aceita pela hipocrisia reinante, de que as transgressões éticas e legais se justificariam por “combater a corrupção”.

Agora são por dinheiro, mesmo.

E muito.

* o autor é jornalista, editor do Tijolaço.
Publicado em: http://www.tijolaco.net/blog/os-procuradores-de-dinheiro/
Originalmente publicado na Folha de São Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/deltan-montou-plano-para-lucrar-com-fama-da-lava-jato-apontam-mensagens.shtml


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sexta-feira, 12 de julho de 2019

A reforma da Previdência manteve privilégios

Richard Jakubaszko  
Está na Constituição que nenhum servidor público pode ganhar mais que o Presidente da República. Entretanto, a começar pelos ministros do STF e de todas as instâncias judiciais, muitos ganham salários acima do teto. E vão aposentar-se com salários integrais, incorporando aos seus salários os adicionais de cargo e função, tempo de serviço, auxílio aluguel, auxílio escola etc., etc. Com os deputados e senadores, a mesma coisa. Os privilégios continuam, para os mesmos de sempre.

Que reforma é essa? É a reforma de quem votou no capitão para presidente, e continua achando que tem razão. 


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quinta-feira, 11 de julho de 2019

O planeta B (ou, o bonde sustentável)

Richard Jakubaszko 
Recebo por e-mail, vindo lá da terrinha de além-mar, comentário de Luís Amorim, que por si só é esclarecedor sobre a avaliação das exóticas propostas de "soluções tecnológicas" existentes em cada ponto do planeta para resolver as emissões de gases estufa (GEE).

Nós, um grupo de cidadãos preocupados com o nosso planeta, e engenheiros que somos, resolvemos apresentar um modelo de veículo ecológico, movido a biocombustível.

O motor desenvolve uma potência de 2 CV, podendo transportar 30 ou mais pessoas. Tem uma boa autonomia e um tempo de carregamento muito inferior a um veículo eléctrico.

Não emite gases estufa, pois podemos considerá-lo de Emissões Zero, sendo estas inteiramente recicláveis de forma natural. (os gases dos burros são naturais, ah, ah, ah).

Propomos por isso que os Governos do Mundo inteiro comecem a utilizar este veículo que, aliás, utiliza uma tecnologia muito simples e acessível.
Assina  

Grupo de Cidadãos preocupados
Luís Amorim *
* cidadão lusitano, com humor de fina estirpe


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terça-feira, 9 de julho de 2019

41 Verdades Inconvenientes sobre a "Nova Economia Energética"

Richard Jakubaszko

O mundo vive a utopia de uma sustentabilidade a ser construída em cima de  delírios, ideais e fantasias baseadas na mística. O artigo abaixo, publicado pela Fundation for Economic Education (Fundação para Educação Econômica) traz os poetas do desiderato ambiental para a dura concretude da realidade comprovada pela matemática, confiram.
  
Greta Thunberg, a garota sueca gazeteira de aulas lidera a neurose coletiva europeia: não viaja em avião para não emitir mais GEE. Virou moda na Suécia. Apesar de ser autista dizem que escreveu um livro, talvez pelas mãos de seus ricos pais, a ser lançado em breve no Brasil. Caminha célere como candidata ao Nobel da Paz pela sua campanha infantil (mas bem orquestrada) em prol do meio ambiente, sem oferecer qualquer alternativa aos problemas reais de poluição das grandes cidades.


41 Verdades Inconvenientes sobre a "Nova Economia Energética"
Mark P. Mills

Bill Gates disse que quando se trata de compreender as realidades energéticas “precisamos trazer a matemática para o problema”. Ele está certo.

Uma semana não se passa sem que um prefeito, governador, formulador de políticas ou comentarista junte-se à pressa de exigir ou prever um futuro energético inteiramente baseado em energia eólica / solar e baterias, livre da “carga” dos hidrocarbonetos que alimentaram sociedades por séculos. Independentemente da opinião sobre se, ou por que, uma “transformação” de energia é exigida, a física e a economia de energia combinadas com as realidades de escala deixam claro que não há possibilidade de qualquer coisa se assemelhar a uma “nova economia de energia” no previsível futuro. Bill Gates disse que quando se trata de compreender as realidades energéticas "precisamos trazer a matemática para o problema".

Ele tem razão. Assim, no meu recente relatório do Manhattan Institute, “A Nova Economia Energética: Um Exercício no Pensamento Mágico”, eu fiz exatamente isso.

Aqui, então, há um resumo de algumas das realidades principais da matemática subjacente. (Veja o relatório completo para explicações, documentação e citações.)

Realidades Sobre a Escala de Demanda de Energia
1. Os hidrocarbonetos fornecem mais de 80% da energia mundial: se tudo isso estivesse na forma de petróleo, os barris se alinhariam de Washington a Los Angeles, e toda a linha cresceria à altura do Monumento a Washington toda semana.

2. O pequeno declínio de dois pontos percentuais na participação de hidrocarbonetos no consumo mundial de energia implicou mais de US$ 2 trilhões em gastos globais cumulativos com alternativas nesse período; a energia solar e eólica hoje fornecem menos de 2% da energia global.

3. Quando os quatro bilhões de pessoas pobres do mundo aumentam o consumo de energia para apenas um terço do nível per capita da Europa, a demanda global aumenta em um montante igual ao dobro do consumo total dos EUA.

4. Um crescimento de 100x no número de veículos elétricos (VE) para 400 milhões nas estradas até 2040 desalojaria 5% da demanda mundial de petróleo.

5. A energia renovável teria que se expandir 90 vezes para substituir os hidrocarbonetos globais em duas décadas. Demorou meio século para que a produção mundial de petróleo expandisse “apenas” dez vezes.

6. A substituição da geração elétrica baseada em hidrocarbonetos dos EUA nos próximos 30 anos exigiria um programa de construção que construísse a rede a uma taxa 14 vezes maior do que em qualquer outro período da história.

7. A eliminação de hidrocarbonetos para produzir eletricidade nos Estados Unidos (impossível em breve, inviável por décadas) deixaria intactos 70% do uso de hidrocarbonetos nos EUA - a América usa 16% da energia mundial.

8. A eficiência aumenta a demanda de energia tornando os produtos e serviços mais baratos: desde 1990, a eficiência energética global melhorou em 33%, a economia cresceu 80% e o consumo global de energia aumentou 40%.

9. A eficiência aumenta a demanda de energia: desde 1995, o uso de combustível de aviação / milha / passageiro caiu 70%, o tráfego aéreo aumentou mais de 10 vezes e o consumo de combustível de aviação global aumentou mais de 50%.

10. A eficiência aumenta a demanda de energia: desde 1995, a energia usada por byte caiu cerca de 10 mil vezes, mas o tráfego global de dados aumentou cerca de um milhão de vezes; a eletricidade global usada para computação subiu.


11. Desde 1995, o uso mundial de energia aumentou em 50%, o que equivale a somar a demanda total de dois Estados Unidos.

12. Por segurança e confiabilidade, uma média de dois meses de demanda nacional por hidrocarbonetos está armazenada a qualquer momento. Hoje, apenas duas horas de demanda nacional de eletricidade podem ser armazenadas em todas as baterias em escala pública, além de todas as baterias em um milhão de carros elétricos nos Estados Unidos.

13. As baterias produzidas anualmente pela Tesla Gigafactory (a maior fábrica de baterias do mundo) podem armazenar três minutos de demanda anual dos EUA.

14. Para produzir baterias suficientes para armazenar dois dias de demanda de eletricidade nos EUA, seriam necessários 1.000 anos de produção pela Gigafactory (a maior fábrica de baterias do mundo).

15. Cada US$ 1 bilhão em aeronaves produzidas leva a cerca de US$ 5 bilhões em combustível de aviação consumidos ao longo de duas décadas para operá-los. Os gastos globais com novos jatos são de mais de US$ 50 bilhões por ano - e crescentes.

16. Cada US $ 1 bilhão gasto em data centers gera US$ 7 bilhões em eletricidade consumida em duas décadas. O gasto global em data centers é de mais de US$ 100 bilhões por ano - e está aumentando.

Realidades sobre economia de energia

17. Em um período de 30 anos, US$ 1 milhão em energia solar ou eólica produz 40 milhões e 55 milhões de kWh respectivamente: US$ 1 milhão em xisto produz gás natural suficiente para gerar 300 milhões de kWh em 30 anos.

18. Custa aproximadamente o mesmo construir um poço de xisto ou duas turbinas eólicas: a última, combinada, produz 0,7 barris de petróleo (energia equivalente) por hora, a plataforma de xisto tem em média 10 barris de petróleo por hora.

19. Custa menos de US$ 0,50 armazenar o barril de petróleo, ou seu equivalente em gás natural, mas custa US$ 200 para armazenar a energia equivalente de um barril de petróleo em baterias.

20. Os modelos de custos para energia eólica e solar assumem, respectivamente, 41% e 29% de fatores de capacidade (ou seja, com que frequência produzem eletricidade). Dados do mundo real revelam até dez pontos percentuais a menos para ambos. Isso significa US$ 3 milhões a menos de energia produzida do que se supõe ao longo de 20 anos de vida de uma turbina eólica de 2 MW e US$ 3 milhões.

21. A fim de compensar a produção eólica / solar episódica, as empresas norte-americanas estão usando motores alternativos de queima de óleo e gás (grandes motores diesel semelhantes a navios de cruzeiro); três vezes mais foram adicionados à rede desde 2000, como nos 50 anos anteriores.

22. Os fatores de capacidade de parques eólicos melhoraram em cerca de 0,7% ao ano; Esse pequeno ganho vem principalmente da redução do número de turbinas por acre, levando a um aumento de 50% na média de terra usada para produzir um vento-quilowatt-hora.

23. Mais de 90% da eletricidade dos Estados Unidos e 99% da energia usada no transporte vêm de fontes que podem fornecer energia facilmente à economia sempre que o mercado exigir.

24. Máquinas eólicas e solares produzem energia em média de 25% a 30% do tempo, e somente quando a natureza permite. Usinas convencionais podem operar quase continuamente e estão disponíveis quando necessário.

25. A revolução do xisto colapsou os preços do gás natural e do carvão, os dois combustíveis que produzem 70% da eletricidade dos EUA. Mas as tarifas elétricas não diminuíram, aumentando em 20% desde 2008. Os subsídios diretos e indiretos para a energia solar e eólica consumiram essas economias.

Física de Energia...

Realidades Inconvenientes
26. Políticos e especialistas gostam de invocar a linguagem “moonshot”. Mas transformar a economia de energia não é como colocar algumas pessoas na lua algumas vezes. É como colocar toda a humanidade na lua - permanentemente.

27. O clichê comum: uma ruptura na tecnologia de energia ecoará a ruptura da tecnologia digital. Mas as máquinas produtoras de informação e as máquinas produtoras de energia envolvem física profundamente diferente; o clichê é mais tolo do que comparar maçãs com bolas de boliche.

28. Se a energia solar fosse dimensionada como a tecnologia informática, um único painel solar do tamanho de um selo postal alimentaria o Empire State Building. Isso só acontece em histórias em quadrinhos.

29. Se as baterias fossem dimensionadas como tecnologia digital, uma bateria do tamanho de um livro, que custasse três centavos, poderia alimentar um jato para a Ásia. Isso só acontece em histórias em quadrinhos.

Os VEs que usam baterias chinesas criarão mais dióxido de carbono do que economizam substituindo os motores de queima de óleo.

30. Se os motores de combustão fossem dimensionados como computadores, um motor de carro encolheria ao tamanho de uma formiga e produziria mil vezes mais potência; os motores reais do tamanho de formigas produzem 100.000 vezes menos energia.

31. Nenhum ganho digital de 10x existe para a tecnologia solar. O limite de física para células solares (o limite Shockley-Queisser) é uma conversão máxima de cerca de 33% dos fótons em elétrons; as células comerciais hoje estão em 26%.

32. Nenhum ganho de 10x semelhante ao digital existe para a tecnologia de vento. O limite de física para turbinas eólicas (o limite de Betz) é uma captura máxima de 60% da energia no ar em movimento; as turbinas comerciais atingem 45%.

33. Nenhum ganho digital de 10x existe para baterias: a energia máxima teórica em um quilo de óleo é 1.500% maior que a energia máxima teórica na melhor libra de produtos químicos para baterias.

34. São necessárias cerca de 60 libras de baterias para armazenar o equivalente de energia de um quilo de hidrocarbonetos.

35. Pelo menos 100 libras de materiais são extraídos, movidos e processados ​​para cada quilo de bateria fabricada.

36. Armazenar o equivalente de energia de um barril de petróleo, que pesa 300 libras, requer 20.000 libras de baterias de Tesla (valor de US$ 200.000).

37. Transportar o equivalente de energia do combustível de aviação usado por uma aeronave que voa para a Ásia exigiria US$ 60 milhões em baterias do tipo Tesla pesando cinco vezes mais do que a aeronave.

38. Leva a energia equivalente a 100 barris de petróleo para fabricar uma quantidade de baterias que podem armazenar o equivalente de energia de um único barril de petróleo.

39. Uma rede centrada na bateria e um mundo de carros significam a mineração de gigatons a mais da terra para acessar lítio, cobre, níquel, grafite, terras raras, cobalto etc., - e usando milhões de toneladas de petróleo e carvão na mineração e na fabricação metais e concreto.

40. A China domina a produção global de baterias, com a sua rede a 70% movida a carvão: os VEs que usam baterias chinesas vão criar mais dióxido de carbono do que poupados, substituindo os motores de queima de óleo.

41. Não se deve mais usar helicópteros para viagens regulares transatlânticas - factíveis com logística elaboradamente cara - do que empregar um reator nuclear para alimentar um trem ou sistemas fotovoltaicos para alimentar uma nação.

https://fee.org/articles/41-inconvenient-truths-on-the-new-energy-economy/?utm_source=zapier&fbclid=IwAR2c28XxbHIOEAGLkDQna_jgFEF9FCHhv2xvVHr3tEa9v2V3wVdu-wAT_xQ


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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Falar de fascismo no Brasil


Vladimir Safatle *
 

Há o medo de certas palavras. Esse medo vem na maneira com que tentamos, até o limite, não utilizá-las. Porque seu uso acende alertas vermelhos, nos quebra a letargia de sentir que, por mais que nossa situação atual seja complicada, a vida corre. E corre com um correr de quem acaba por acertar seu passo, abaixar os gritos. Bem, não há palavra que nos leve mais a temer seu uso do que "fascismo". No entanto, é ela que se ouve de forma cada vez mais insistente quando se é questão da situação brasileira atual. Coloquemos então, de maneira direita e simples, uma questão que vários de nós já colocou a si mesmo: Estaria o Brasil caminhando para o fascismo?

Esta questão não se ouve apenas no Brasil. Ela se ouve na Itália, na Hungria, na Polônia, nas Filipinas. Esta confluência de semblantes perplexos a fazer o tour do mundo não é mero acaso. Ela indica uma fenda global que parece paulatinamente crescer, fenda por onde passaria a emergência de novas formas de governo com traços claramente fascistas.

Mas não seriam tais governos simplesmente "populistas"? Não é assim que se diz hoje, "governos populistas de direita"? Sim, é assim que se diz. Mas e se este uso extensivo do termo "populismo" fosse, na verdade, uma forma de não chamar de gato um gato? Pois talvez os chamamos de "populistas" para não dizer o que eles realmente são: governos nos quais uma certa concepção de 'estado total', uma forma explícita de implosão de qualquer possibilidade de solidariedade social com grupos historicamente vulneráveis, uma noção paranoica de nação e o culto da violência são a verdadeira tônica. Mas seria isto exatamente "fascismo"? E por que não falar em "populismo", neste caso?

Lembremos como o uso extensivo da noção de "populismo" voltou. Há pelo menos dez anos havia ficado claro que a política mundial tendia a se deslocar para os extremos. A incapacidade de responder ao processo de degradação social provocado pela crise econômica de 2008, ou seja, a inanidade das políticas neoliberais diante da crise e sua partilha, em maior ou menor grau, por todos os principais atores políticos, provocara uma desidentificação tal com o poder instituído, uma frustração tal daqueles que um dia acreditaram nas sereias da globalização, que o fortalecimento dos extremos era uma tendência irresistível. A democracia liberal havia tocado seu limite. Pois o problema não era apenas econômico, ele era principalmente político. Não havia espaço no campo político para ações e discursos de ruptura clara com a ordem econômica responsável pela pauperização de camadas cada vez maiores da população.

Diante de um desejo de recusa forte dos limites de nossa vida institucional, criou-se essa palavra mágica que faz tudo o que coloca em questão os sistemas de paralisias e acordos da democracia liberal parlamentar parecer "irracional", "emotivo", "fruto de frustrações", "convite a regressões atávicas", ou seja, "populista". Ainda de quebra, o termo permitia juntar os extremos, falar de um populismo de direita e de um populismo de esquerda, anulando com isto os dois polos, fazendo-os operar em uma balança de equivalências. Como se, no fundo, existisse apenas a "democracia" que conhecemos e os "populismos".

Mas era claro que as diferenças entre os polos eram profundas. À direita, via-se uma crítica à pauperização social que colocava a conta da catástrofe nas costas dos mais desfavorecidos, a saber, os imigrantes espoliados por relações de trabalhos sub-humanas, os refugiados vítimas das consequências das intervenções imperialistas em regiões de conflito perene, como o Oriente Médio. Quando não havia grandes levas de imigrantes, via-se a mobilização das clivagens originárias de raça e de gênero, em uma reedição de estratégias cuja ressonância fascista era evidente. À direita, via-se ainda todo o imaginário a respeito da fronteira, da imunidade do corpo social, da invasão, do contágio retornar diretamente dos discursos mais inflamados de Goebbels.

Ou seja, não havia proximidade alguma entre os polos. Mas estávamos diante de uma prática de "normalização" da extrema-direita e recuperar a tópica do "populismo" vinha mesmo a calhar. Porque recusar sua normalização acabaria por levar toda a força anti-institucional ao outro polo e com isto produzir uma ruptura sem negociação com a ordem econômica atual.

Mas nada disto respondeu à pergunta colocada no início deste artigo, a saber, estaria o Brasil caminhando para o fascismo? Talvez fosse o caso de levantar alguns traços que têm a força de falar por si mesmos.

Quando o jurista nazista Carl Schmitt procurou explicar o que era o Estado total fascista, ele tomou o cuidado de estabelecer uma distinção. Segundo ele, nós conheceríamos uma forma de Estado total no interior das democracias parlamentares. Trata-se desse Estado que ouve todos os lados da sociedade, que está presente em todos os conflitos sociais e que produz estruturas de mediação e de legislação em todas as esferas da vida social. Ele procura dar conta dos conflitos trabalhistas, dos problemas de desigualdade, da violência específica contra grupos vulneráveis, entre outros. O Estado está assim, em todos os lugares. Ele não pode pairar acima da sociedade e decidir, pois é apenas a emulação dos conflitos sociais. Contra isto, dirá Schmitt, precisamos de outro Estado total. Mas sua função será diferente: ele deverá usar toda sua força para despolitizar a sociedade, impedir que as escolas sejam focos de sedição e formação, impedir que os trabalhadores pressionem seus patrões através de obrigações legais, usar a força policial para impedir greves, paralisias, ocupações. Assim, pode-se garantir a única liberdade real, a saber, a "liberdade de empreender" (que é sempre uma liberdade para alguns, ou melhor, para os de sempre). Este era o Estado total fascista.

Por outro lado, nesse Estado, um dos poucos princípios liberais que qualquer democracia real deveria preservar, a saber, a possibilidade de que indivíduos sempre terão, independente de quem são ou do que fizeram, de se defenderem do Estado quando julgados, não existia. Pois essa possibilidade exige inviolabilidade do sistema de defesa (em bom português, meu advogado de defesa não pode ser grampeado [NR] pelo juiz), exige desinteresse da parte dos julgadores (mais uma vez, em bom português, se sou candidato a presidente, o juiz que julga meu caso não pode me prender porque tem um projeto pessoal de poder e quer ser ele o próprio presidente).

Por fim, e esta era uma compreensão precisa de Franz Neumann, o Estado nazista não governa. Ele é uma associação instável entre grupos que estão em conflito contínuo. Mas esse conflito é uma forma de perpetuar o "movimento", já que ele permite ao governo entrar em conflito contínuo com o Estado, dizer sempre que nosso grande projeto não está a ser implementado porque forças obscuras estão agindo dentro do Estado para impedir nossa grande redenção. O estado nazista é uma crise permanente elevada à condição de governo. A única coisa que tenho a dizer é: junte os pontos e diga se a cena não lhe parece demasiado familiar.

[NR] Grampear: fazer escutas telefónicas clandestinas.
[*] Professor de Filosofia na Universidade de S. Paulo.


O original encontra-se em https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/03/opinion/1562176410_719446.html

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sábado, 6 de julho de 2019

Lula mostra como fazer uma verdadeira reforma da Previdência

Richard Jakubaszko 

Lula, na entrevista, critica a reforma da previdência, e comenta sobre seus malefícios ao povo e aos aposentados futuros. Cada um que julgue a verdade em que acredita.


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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Moro, pode cantar: "Meu mundo caiu"

Richard Jakubaszko  
Com dedicatória especial ao ex-juiz e agora futuro ex-ministro, recomendo cantar o sucesso de Maysa, "Meu mundo caiu". Melhor reconhecer, perdeu.
Não sabe a letra? Então ouça, é inspirador, além de genial:
  
O drama disso tudo é que um inocente ainda está preso por causa de toda essa vergonha monstruosa provocada pelos políticos e pelo judiciário. O Brasil tem jeito? Só o povo pode consertar isso, pelo voto.


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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Argentinos reclamam e criticam sobre futebol e Justiça

Richard Jakubaszko  
Ontem e hoje o que vimos foi os hermanos botando bronca no trovão. 
No futebol, reclamaram de 2 (???) pênaltis. Sendo bonzinhos, poderíamos até admitir a dúvida sobre um pênalti, mas o outro, façam o favor, né? Reclamem com o VAR... De todo modo a blogosfera brasileira não perdeu o humor e respondeu à altura, neste meme enviado pelo jornalista Delfino Araújo.

Ao mesmo tempo, outro hermano, o Papa Francisco, também deu bronca nos juízes, mas outro tipo de juiz, e por isso mostro a bronca do papito, em vídeo a seguir:
   

Papa Francisco: “os juízes devem seguir o exemplo de Jesus, que nunca negocia a verdade”.


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quarta-feira, 3 de julho de 2019

Selênio é realmente benéfico à saúde?

Walter Casarin *
  

O selênio (Se) não é um nutriente de plantas, mas é essencial em muitas funções fisiológicas em humanos e animais. Como é obtido principalmente a partir dos alimentos, seu acúmulo nas plantas tem impactos na saúde humana.

É um micronutriente que desempenha um papel fundamental em todo o corpo. Intracelularmente, tem um efeito antioxidante por estar envolvido no metabolismo de radicais livres e outras substâncias produzidas pela oxidação lipídica no nível das membranas celulares. Também desempenha um papel no metabolismo do fígado e contribui para a manutenção dos músculos esqueléticos e cardíacos e dos espermatozoides.


O selênio (símbolo Se na Tabela Periódica dos elementos químicos) é um micronutriente, isto é, o corpo só precisa dele em quantidades muito pequenas. No organismo, está ligado a diferentes proteínas e, principalmente, armazenado nos músculos.


Entra na estrutura de várias enzimas antioxidantes: glutationa peroxidases e tioredoxina redutase. Essas enzimas ajudam a neutralizar o excesso de radicais livres presentes no organismo, que aceleram o envelhecimento celular e promovem a ocorrência de diversas doenças, incluindo doenças cardiovasculares. A tioredoxina redutase pode regenerar as vitaminas C e E, que também possuem ação antioxidante.


É, enfim, um modulador nas respostas imunológicas, principalmente antivirais, e antiinflamatórias. Participa na desintoxicação de certos compostos tóxicos, metais pesados ​​e xenobióticos (moléculas estranhas). Uma outra função importante é seu envolvimento no metabolismo da tiroide.

 

É comum encontrar, no Brasil, a recomendação de 55 micrograma (mcg) de selênio por dia. O limite máximo de ingestão é de 400 mcg de Se/dia. Na França, a dieta recomendada é proporcional ao peso corporal. A dose é fixada para crianças a 1 μg por quilo de peso por dia. Para adultos (mulheres e homens), é fixado em 70 μg por dia. Em pessoas com mais de 75 anos de idade, a ingestão recomendada é de 80 μg por dia, levando-se em conta o aumento do estresse oxidativo com o avanço da idade e a manutenção do bom funcionamento do sistema imunológico.
 

As necessidades exatas de selênio dos idosos são pouco conhecidas e os consumos dietéticos atualmente recomendados são derivados dos adultos jovens. No entanto, suspeita-se que uma dieta pobre em selênio represente risco de anemia em idosos. Portanto, é essencial que as pessoas mais velhas assegurem que tenham uma dieta suficientemente alta em selênio.
Em atletas que treinam intensivamente, um suplemento de 10 a 30 μg por dia, proporcional ao gasto energético, é proposto levando-se em conta os fenômenos oxidativos causados ​​pelo trabalho muscular.

 

Os alimentos mais ricos em selênio são peixes e frutos do mar, e depois vêm carne, ovos, leguminosas, grãos integrais e nozes.
 

A levedura de cerveja pode suplementar as contribuições. Por exemplo: 50 g de atum enlatado (meia lata) + 1 ovo + 50 g de lentilhas cozidas (duas colheres de sopa) = 100% da dose recomendada para uma pessoa que pesa 60 quilos.
 

O teor de selênio dos grãos e vegetais depende diretamente do conteúdo desse micronutrientes nos solos onde são cultivados. Da mesma forma, o conteúdo de alimentos de origem animal varia de acordo com o da alimentação animal.
 

O campeão de selênio é a castanha-do-pará, pois uma só porcão fornece a dose diária recomendada. Bastam cinco gramas da castanha para obter aproximadamente 95 mcg de selênio.
 

Além disso, a castanha-do-pará contém uma boa quantidade de vitamina E cuja atividade antioxidante é adicionada à do selênio. Aliás, os cientistas descobriram que as concentrações do mineral nas amêndoas de castanha-do-pará variaram muito entre as regiões produtoras do País. Aquelas coletadas no Amazonas e no Amapá, por exemplo, apresentaram cerca de 30 vezes mais Se do que as oriundas do Mato Grosso e Acre.
 

A essencialidade do selênio foi descoberta com a doença de Keshan, uma forma de insuficiência cardíaca ligada à deficiência desse micronutriente. Essa cardiomiopatia pode levar à morte na ausência de suplementação de selênio.
Estudos de observação sugerem um efeito protetor do selênio contra o câncer, o que poderia ser explicado por seus efeitos antioxidantes e modulatórios. A síntese de vários estudos mostrou uma redução de 31% no risco de câncer (33% para câncer de bexiga, 22% para câncer de próstata em homens) e 45% para mortes por câncer. Essa comparação é feita entre os maiores consumidores de selênio em comparação com os consumidores mais baixos1.

 

A deficiência de selênio pode ser devido à ingestão insuficiente, podendo resultar em arritmia cardíaca, menor resistência a infecções, fraqueza muscular, anemia, osteoartrite. Associada a uma deficiência de iodo, pode levar ao hipotireoidismo (deficiência nos hormônios tireoidianos).

Em princípio, a deficiência de selênio só ocorre nos seguintes casos:

• em pessoas cujos alimentos principais vêm de áreas com solos pobres em selênio;

• em pessoas com nutrição parenteral não enriquecida com selênio por períodos prolongados;

• em pessoas com doenças intestinais graves, como doença de Crohn ou colite ulcerativa.

É comumente divulgado que o consumo de uma castanha por dia ajuda a combater doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2, câncer e obesidade. Um estudo da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, comprovou que a ingestão diária de duas castanhas eleva em cerca de 65% o teor de selênio no sangue, mas alertou sobre os problemas com a toxidade desse mineral. Outro estudo da USP, que ganhou o prêmio Jovem Cientista do CNPq em 2015, também comprovou efeitos benéficos do selênio, nesse caso, contra o mal de Alzheimer. De uma maneira geral, os nutricionistas brasileiros recomendam a ingestão de uma única castanha por dia, mas também alertam que quantidades elevadas do mineral podem provocar intoxicação por selênio, ou selenose, causadora de perda de cabelo, fadiga, fraqueza das unhas, lesões na pele e problemas gastrointestinais.

No Brasil é estabelecida uma dose limite de segurança de 400 mcg por dia. Essa dose incluiu todas as ingestões, alimentos, água potável ou suplementos alimentares.


1. G. Dennert & al. Selenium for preventing cancer. Cochrane Database Syst Rev. 2011; 11 (5): CD005195.


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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Memes bolsonarianos

Richard Jakubaszko   
A coisa tá feia neste país. Memes é que são a comunicação entre as pessoas através do zap. O resto, ou o todo, não parece importar aos zapistas, o que vale é capturar um sorriso imaginado em outros celulares. Então, tomem memes, vale até reencaminhar.