sexta-feira, 7 de maio de 2021

Entre o impropério e a mitologia

Carlos Eduardo Florence *  

Relato em contrapartida e mais convicto, sem constrangimentos agora, passados vários indefinidos percalços sob a sombra suave desta solidão, mesmo não tendo lábios de carmim, nem sífilis, vendo em réplica as gaivotas brincarem de fingir fugidias ao infinito e eu aqui, obsessivo, campeando o verbo espairecer para saborear delicadas metáforas envenenadas. Mastigo fiapos de nada e me inspiro. Fazia-se, insisto para não pairar dúvidas, um imiscuído indefinido intervalo emocional entre o eu e a promiscuidade. Sim, provocativa, plasmando-se procedente posteriormente, embora, até então, não sabia eu, ingênuo, porque esta hipótese de promiscuidade comparecesse com peso relevante na minha interminável psicanálise. Prossegui meditativo vendo pouca esperança em aproveitar o canto da palmeira acarinhando o encanto do pintassilgo.

Não intuí por que não seria de cunho nada minimalista, na circunstância, pois entre as sete andorinhas mimetizando delicados voos insubordinados sobre o imprevisto, modulados em escala de fá, e o mesmo sol que as acalantara por uma primavera inteira, deu-se de o porvir ser inconstante, embora inexorável? Esta inconstância passou a fazer parte de meu proselitismo mesmo quando, raramente, sóbrio.

Mas, para certa tranquilidade, permitiu-se ao andejar, o que se confirmou fundamental, aproveitar estes cenários entranhados nas poesias concretas, tanto tal também como com as paisagens expressionistas, antes de simularem-se findas as sinfonias efêmeras diárias que se desconstroem para oferecer o poente. Anotei o aroma sobre uma pequena amálgama de hipótese, para não desperdiçar os remanescentes dos subterfúgios das circunstâncias indefinidas disponíveis, e a moça passou segurando a mão da criança brincando de chutar as espumas menores para implicar com a maré. Assim restaria aceitar o se estender do provérbio para eu absorver melhor o transcorrer inefável do dia, ameigado pela preguiça e à rotina entre o amanhecer e o entardecer. Friso, por onde pasmo ainda agora meus devaneios acompanhando este desenrolar, esperando o nada procriar pequenos êxtases de madraçarias. Não havia incompatibilidade ou redundância, a meu ver, entre a promiscuidade e o meu eu indolente, mas ainda estavam estabelecendo limites e espaços confiáveis.

Configurou-se exato. Através do paradoxo ou da mitologia, sempre confundo, pois repete-se esta determinação do Criador para se refazer as circunstâncias do panorama eterno que insinua diariamente a reedição da morte solar. Isto me foi fundamental então. A fantasia seria minha, portanto, na dúvida, propus que a interrogação perdurasse por outra estação de recreio se a hipótese em incremento se transformasse em libertinagem ou imposições xenófobas. Naquele momento, resgataríamos se a origem analítica do fenômeno da libertinagem teria caráter genético, ambiental, fiduciário, preservacionista ou influência, quem diria, do cruzamento de Capricórnio com Áries em trânsito eventual pela Constelação de Libra.

Voltava eu, inconscientemente, a pontos escolásticos ligados ao geocentrismo que levaram vários infiéis ao cadafalso por negarem aquilo que não fazia a menor diferença. Pois, com ou sem as alternativas em retrospectiva, a terra não se manifestou, mas também não parou de ter relações extraconjugais com o cosmos, os servos de gleba mal sobreviviam do que colhiam, o sol se movia em sentido horário e, em deferência ao inusitado, solicitei repetir a mesma marca de vinho. Senti-me gratificado e compartilhei com a tristeza, que viera me acompanhar como sempre naquele horário, o restante da garrafa.

Como percebi, este pensamento de confronto do verbo transitivo com a resultante da cabala em conluio com os princípios da metodologia vegana, jamais se esclareceu conscientemente, mas como se alternavam estas mesmas e ainda outras minúcias esquizoides posteriores, dei razão ao psiquiatra para dobrar a dose do psicotrópico. Mesmo preço de uma dúzia de garrafas de vinho, cartel filho da puta. Neste intervalo a promiscuidade e o ego já se intervinham um pouco melhor.

Olhei a tristeza e não me lembro se verbalizei, menti ou supus – “são dados incontestáveis desde quando os deuses burilaram este universo gravitacional e materialista, embora inconsciente e espontâneo, face a que as opções da realidade eram mais simples, mas o raciocínio cartesiano foi se impondo cada vez mais ditatorial, presente e autoritário. Tanto que o cartesianismo estuprou a fantasia para destruir o amor, imperar sobre a dúvida sempre que havia discórdia, renegar o novo testamento e as cores passaram a ter funções psicossomáticas”.

Justificava-se a conjetura, pois até então não havia eu atentado aos detalhes dos pardais entremeando o coreto se descompondo impregnado de nostalgia, onde uma senhora ouvia o chamado do além e conversava com Deus, ainda ali o chafariz enferrujado se desfazendo e abandonados se deram a ficar naquela ponta de praia amortalhada entre o silêncio e minhas insânias alvoroçadas.

Deu-se em alfa as sequências e a posteridade não configurou mais os meus motivos que não eram só disfarçados, mas afetivos e ancestrais. Impus-me pausa para não continuar elucubrando como faço enquanto desenvolvo elipses conflituosas para elucidar se o que estou imaginando é fruto do meu consciente ou se a consciência elabora o que estou imaginando. Tenho, nesta ânsia, duas soluções, transcender a atenção para um ponto imaginário imponderável em um subjetivo aleatório entre o azul amedrontado e o manifesto comunista ou me consolo da demência restando cativado à flor do maracujá que me saudou ontem em silêncio. Na dúvida chamei o garçom. O eu se aproximou da promiscuidade sem tocá-la.

Foram estes os argumentos com que a tristeza amena, amiga afetuosa, que me embala doce ao cair das tardes, aconchegara então à mesa que frequentava no Pontão do Procópio. Antecipo que os detalhes anteriores foram pontos de somenos no contexto que oferecerei. Não me senti confortado e tranquilo, embora uma das sete andorinhas tenha se recolhido mais cedo. Mas dispôs a tristeza, aleatoriamente, suave, a partir daquele momento marcante, sobre o tampo disponível, cada detalhe resgatado da bolsa de seus badulaques significantes que portava perene à tiracolo. Vieram seus atributos despejados sobre a mesa com a exigência precípua, sua, que atentasse eu somente ao aroma da fantasia, à acuidade do melindre, às cores da emoção.

Caso não me contagiasse peremptoriamente pelas oferendas portadas não seria impregnado da sutileza do encanto da incerteza, metamorfose da dúvida, do vazio espiritual. O álcool não faria mais efeito. Isto seria desumano, desalentador. Da embriaguez não compartilhada na intimidade com a tristeza, antes de chorar, se não lhe devotasse eu todo carinho e atenção, nasceriam provérbios inúteis, miasmas subversivos, discursos políticos, dividas, pregadores redentoristas. Repete-se esta cena inspirada na imensidão da suave demência com a qual me emociono sempre ao entardecer enquanto repito ordenar sistematicamente outra dose a ser sorvida em goles miúdos, na companhia da tristeza já alcoolizada, antes de me extasiar. O eu e a promiscuidade se acalmaram.

Lembro-me bem, parara de fumar na véspera, mas pedi só mais um maço, usaria dois e jogaria fora aquela porcaria de cigarros. Na medida que as peças das metáforas e encantos aforavam, tímidas ou alegres, enternecidas, medrosas, envergonhadas, desorientadas, a tristeza, imperativa, em seus desígnios de me enternecer em seus braços, olhou-me com a fisionomia complacente sabendo que eu não teria alternativa, se não a acatasse. Fui, tranquilo, sendo abscondido pelo fervor impregnado de delírio irrequieto da tristeza impositiva, olhos pasmados na sua impassividade, certo torpor, resto de medo atávico. Transcendi à infância, seios maternos, o ladrão embaixo da cama, infinito, o cavalo de pelúcia, reza para pedir perdão, a reza para pecar depois.

Deixei-me entreter lento, voz pastosa, volvendo vistas à tristeza, ela pedindo para passar para o lado direito, pois gostaria de acompanhar o poente. Oscilei o pensamento para uma frase sem sentido prático, naquele momento pelo menos, por ser inoportuna, mas me deixei tangenciar por uma letra de samba canção que pincelava a textura suave do tema, por ser sábado, no qual poderia eu ter desejos e carências sexuais. A imaginação é fantástica. O vinho não era dos piores depois da sexta dose. Uma brisa calma trouxe recordações de Alita, que me abandonara no mês anterior, tanto que lembrei que teria de resgatar, na véspera, a penhora do relógio que fora de meu avô.

Só nos distraímos, a tristeza e eu, por vermos desprender da flor de maracujá, empenhada em ouvir o silêncio, um beija-flor à cata de seus existenciais, procriar ou nutrir-se. Deus caprichou no colibri enquanto rascunhava os demais imprevistos à beira do nada. Neste ponto tentei impor-me o pensamento mais formal e não dialogar com o surrealismo. Por favor, pedi, sem timidez mais, o terceiro ou quarto copo depois do último que parara de considerar necessário contar. A tristeza, impassível não se pronunciou. Fiquei orgulhoso.

Depositava ela seus portados em ordem de minúcias afetivas e por silogismos crescentes, insistindo para eu não me distrair pedindo, simultaneamente, vinho novamente. Ainda falávamos da importância do contexto das andorinhas em confronto com os paradigmas solares, quando a angústia chegou sorrateira de mãos dadas com o problema de cálculo integral acarinhando-a e observando a importância existencial do desabrochar da camélia em dia de finados. A equação não fechava, mas existia certa correlação poética com o mar morto.

A tristeza voltou a olhar-me na intimidade da alma, pediu mais vinho tinto para ela então, enquanto entonava quase imperceptível algo de Noel. Antes de se despedir e levar-me aos safanões pela calçada, sem perguntar-me, jogou, a tristeza, sobre a lambança dos seus búzios preferidos, um olho de cabra que sorria pela metade, um preconceito irreal recolhido em desavença com a Via Láctea, aquele exemplar estranho de sonho que não tinha envolvimento com o Complexo de Édipo, duas metamorfoses lésbicas de cigarras ainda encasuladas, fotografia do colibri que enfeitara o além antes das festas juninas, um saca-rolhas sem dente. Além disto, embora não considerasse búzio ou patuá, me fez alisar, para ir acostumando a conviver, uma réstia de melancolia, duas metades de saudades que não encaixavam. Mostrou ela ainda possuir três quartos de alguma substância fortuita para uso anticoncepcional ou remédio para mal olhado, mais o pedaço severo lascado de frustração para misturar com álcool antes da missa das seis. Jamais entendi para que, a missa. O ego viu-se impotente para assumir fantasia promíscua.

Expos, em sua confusão simpática, mas destrutiva, a tristeza, os motivos porque se davam nossos encontros sempre ao entardecer e assim não atrapalhar a chegada da insônia, que não falhava jamais. Atribuiu à tristeza, então já ordenando mais um vinho tinto, a tranquilidade que pairou entre nós até enquanto aguardávamos a depressão chegar para entrelaçarmos nossos propósitos de ménage a trois. Não nos despedimos, convidei-as a dormir. Proibi-as de atender o insistente telefone, era do AA.

* o autor é economista, blogueiro, escrevinhador, e diretor-executivo da AMA – Associação dos Misturadores de Adubos.

Publicado em https://carloseduardoflorence.blogspot.com/2021/05/entre-o-improperio-e-mitologia-relato_6.html

 

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quinta-feira, 6 de maio de 2021

Bolsonaro é a galhofa das guerras

Richard Jakubaszko    

Péssimo orador, Bolsonaro se atrapalha com sua pouca cultura e baixo QI. Tosco, mas sem ser burro, tenta criar mas tropeça na malandragem ideológica, pois não é que inventou agora uma nova guerra, a "radiológica", que, segundo ele, foi criada pelos chineses. Pergunto aos universitários: como será essa guerra radiológica? Atiram rádios nos inimigos? Ou será que são os aparelhos de Raio X que são arremessados nas tropas dos desafetos?

Ai, ai, ai... coitado do Brasil com um persidente desses (isso mesmo, persidente...).

 

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domingo, 25 de abril de 2021

O que a pandemia fez com a gente?

Richard Jakubaszko  
A pandemia está marcando a cada um de nós de forma indelével e definitiva.  Evidentemente que alguns de um jeito, outros de maneira diferente. Há jovens em permanente pânico, não querem sair de casa nunca mais. Há pessoas que, se escutam alguém espirrar ou tossir, com evidência de que tenha sido a uma distância de pelo menos 10 metros, saem em desabalada correria em sentido contrário. Enfim, cada um reage conforme suas neuroses, e essas coisas em tempos de pandemia são processos que a psiquiatria e a psicologia levarão anos e anos para entender e quiçá explicar. 

Eu, por exemplo, sempre tive mania de falar sozinho, comigo mesmo, por vezes em viva e altissonante voz. Hoje, com essa pandemia, já ando fazendo palestra comigo mesmo. Prevejo que, dentro em breve, estarei montando presentations em power point.
 



 

 

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sábado, 24 de abril de 2021

Ego meu donde estás? Em fá sustenido, abistel ou a flor de liz não brotou?

Carlos Eduardo Florence *   

Paira-me até hoje a interrogação que se tal houvera em ré menor, poderia ter ocorrido da mesma forma que se deu na Constelação de Aires ou ainda com a brisa do sonho como melhor apetecesse? Mas não se deu e prossigo. Irrompe me perguntar de improviso se raciocino em grená após deleitar a quinta sinfonia ou o complexo de Édipo tem influência sobre a menopausa do esturjão? Este conflito saboroso, emulação, que aflora em sendo, me intriga eterno se é fruto da emoção, do consciente, vinho tinto, impudência, atração sexual, materialismo histórico, reciclagem de lixo, irresponsabilidade, reforma agrária, amor, imaginação, pré-conceito, não menos respeitável, inconsciente, saudades ou vontade de exibir-me. Como dilema eterno é emocional ou intelectual? Não tenho resposta, mas constato que por isto o meu último leitor sou eu e o abstrato silêncio. Mas impinjo-me seguir.

Fato e precaução como aviso. Não é afrodisíaco, mas também não suporta críticas pessoais, coletivos lotados ou ejaculações precoces estas melancolias ou paranoias. Dou conta da consciência, assustada ou vadia, ser a única própria consciência deste labirinto circular. Viver é muito perigoso, senha do meu mestre Guimarães. Poderia ter agradavelmente memorado esta cena inteirando-a entre um correr de casas modestas, flores nas jardineiras, violão à mão, intenção de serenata a ser dedicada à frustração, pois estava apaixonado, ou a melancolia ainda tentando se explicar por falta de hábito naquele se desfazer, fim de tarde, lábios do anoitecer. Senhor, ajudai-me, segure meus delírios ou peça ao garçom um vinho tinto.

Se ruborizaram piegas o sol e o poente ao se beijarem. Se fosse poeta colocaria esta delonga verbal, inútil, registre-se, para surtir efeito emocional sobre alguém imprudente, em um sorvete de marzipã ou ofereceria as palavras separadas, em ordem não alfabética, à professora em vez da maçã, sem pejo ou sorriso cínico. Devaneio, como proponho-me, é inútil na maior parte das vezes, mas muito interessante, perigoso outras, confuso sempre, irritante ou alegre, quiçá necessário, ainda pode se desafazer esvoaçante por desconhecidos imbróglios ou se assenta infernal como paranoia irresoluta sem reticências sobre o pedestal da arrogância.

E a reflexão, minha, permite-se portar com independência e altivez como tal maré que segue as determinações da lua e não tem a menor consciência de ser. De onde vem meu imaginar? Não obtenho retorno, mas é como prospero transtornar-me em infinitesimais deleites, curvas inacabadas, retas indecisas, desfigurações confusas. Não escolhi, brotam. No meu caso eu esbarro, não reclamo, mas tenho muito medo, embora disfarce com habilidade. Obrigo-me refletir como as coisas aleatórias surgidas no, ou melhor, do meu ego subalterno ao inconsciente, prestes a se enrolar nos delírios, como sempre, mas no momento escolhi, por não conseguir segurá-lo, a forma original das jabuticabas silvestres que se desmilinguem das próprias flores para se tornarem bolas e belas. Se não beijadas pelas abelhas, cismas, as aves, alguém apaixonado, talvez pobres famintos, se desfazem murchas, tristes, desconhecidas. Enfim, me confundem desesperadamente estes pensamentos que tal jabuticabas se desfazem rapidamente sem saber por onde somem.

Assim perco-me ao dirimir e fingir que sou kardecista, intelectual de vanguarda, monge maoísta talvez ou em busca constante do eu. Meu vizinho Elpádio, instrutor de subserviência em uma fábrica de algo para alienação infantil, prefere cerveja gelada em copo de cristal com iscas de manjuba, enquanto imagina assistir seu time de futebol marcando gols e discute consigo mesmo por ser normal não escutar a metamorfose da crisálida em cigarra. É a crisálida que se metamorfoseia ou meu pensamento?

Por que fui inventado imaginante das situações nas direções inversas das escalas jônicas enquanto o colibri paira irredutível sobre o infinito até definir suas opções de destino, sobreviver ou procriar? A natureza é única, cria o beija flor por razões sublimes e os loucos para observá-los. Se eu não constato o voo puro da ave será que ela existiria? São as dúvidas do filósofo e do criador. Alguém já me desvelou intimamente que a natureza só se confirma porque a vemos, mas a confusão é mais agradável e naquele momento subiu uma brisa da maré dando sossego ao ego desalentado.

Porém o horizonte se preparou para acarinhar a luz do dia em seu regaço e volto a não ter consciência clara do que penso, não me concentrar no raciocínio correto, como deveria. Se existe correto? Seria sonho acordado ou distúrbio esquizoide? No aproximado do largo em frente, um sabiá cantou, irritado, para lembrar-me o compromisso à tarde de contas a pagar e telefonar para os pêsames a Lecália, que ficou viúva ontem de Acamôr, meu primo que morava em Caramoi da Água Funda. Abandono o talvez anterior por determinação da contingência e esqueço a demência por uns momentos. Tal teria acorrido, não recordo, no verão de Canacei, salvo se deu-se de forma embrionária nos tradicionais delicados correres de águas onde o verbo passivo apoita para dormitar estafado.

O eu, que sou eu e só, as vezes duvido, para não pairar suposição outra, não se incomodou com a voz passiva, pois intempestivo continuei a saltitar das indefinições para os pensamentos, destes para as figuras, passei à estrofe alexandrina, entremeei hipóteses sem confirmação, com isto, não poderia ser diferente, brotou ansiedade. Acalentei chegar a qualquer provérbio ou a uma situação definida e assim convencer-me que era normal minhas instabilidades emocionais. Nesta altura não sabia mais se era imaginação, desejo ou se o eu que fingia controlar a situação seria o mesmo eu que saboreava o caos esquizofrênico docemente em mim implantado. Tudo, repetia-se, embora, desta vez, ocorrera em domingo de Ramos. Contei ao psiquiatra as angústias, que me mandou escolher entre Narciso e Édipo, torturou-me para confessar quantos anos eu teria quando vi minha mãe nua pela última vez e com que frequência eu assassinei meu pai enquanto me masturbava.

Entre as alternativas propostas tecnicamente perfeitas por ele, supus que adoraria escutar Noel Rosa em Feitio de Oração. Segurei uma perna do ego querendo escapar pelo silêncio, fingir que iria ler Ilíada e não criar nenhum vínculo com a realidade ou transferência com o psiquiatra. Mas daí já chegara quinta feira e zodíaco cruzaria com aquários ao escurecer e não deveria ter nenhum receio de que a metamorfose da libélula me traria esperança ou pensar em subterfúgios para concluir que meu pensamento é independente. Não sei do que? Sem concluir, permaneceu a dicotomia; é do transtorno do meu próprio eu que me mistifico insanamente ou insanamente é a mistificação do transtorno que me constrói em este eu que não existe existindo?

Tentei apanhar as emoções dos movimentos do corpo meu ali perplexo. Não obtive sucesso, pois a alma discordou e me avisou ironicamente que este eu, do agora, não permaneceria o mesmo eu, o do amanhã, apesar de saber que o sol voltaria e a flor se desfaria do bulbo para prevalecer. Deixei o corpo, duvidoso, alma, instável, ungindo Descartes, pois Deus cansou-se destas discussões e se silenciou em um recanto escondido do eterno. Esgotado tentei não pensar, mas o pensamento não considerou significante. Pedi ao garçom uma garrafa de solidão como algo apropriado a ser bebido para iludir-me, como faço em tempos de meditação. Na falta de companhia e motivos, assento a mesma garrafa de solidão à beira do infinito. Não sei por que infinito, poderia encostar ao lado do Bolero de Havel ou de uma pule de corrida de cavalo já confirmada, mas me preparo como réu confesso para receber a sentença final.

O cutelo da depressão, dócil como veneno, suavemente desce sobre meus desejos. Tento recolhe-los despedaçados, correndo para os recantos dos meus imprevistos. A capela traz amena as badaladas dos meus anseios. Nunca sei quantas ainda faltam até o ego se extirpar para sempre. A paz não existe, mas, indiferente, ecoa, ecoa, ecoa, de um imaginário irrequieto que jamais contenho. Fecho o caderno, guardo a caneta. Lacrimejo um sorriso. Despeço-me de mim para entrar na minha esquizofrenia.

* o autor é economista, blogueiro, escrevinhador, e diretor-executivo da AMA – Associação dos Misturadores de Adubos.

Publicado em http://carloseduardoflorence.blogspot.com/2021/04/ego-meu-donde-estas-em-fasustenido.html

 

 

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quinta-feira, 22 de abril de 2021

STF em votação ainda parcial: 7 x 2 = Moro é definitivamente juiz suspeito

Richard Jakubaszko   

Agora é definitiva a decisão (votos parciais de 7 x 2) do STF em plenário que determina que o ex-juiz Sérgio Moro foi parcial nos processos contra Lula quando conduzia a 13ª Vara Federal, em Curitiba.

Votaram pela suspeição os ministros Gilmar Mendes, como relator, Kássio Nunes, Alexandre de Moraes, Lewandowski, Tóffoli, Cármen Lúcia e Rosa Weber.

Contra, votaram Fachin e Barroso. Faltam votar Marco Aurélio de Mello, que pediu vistas, mas deve votar contra a suspeição, e o presidente do STF, ministro Fux, ainda uma incógnita como voto. Se Fux votar como ministro, pela tradição de seus votos, seria contra, mas como presidente do STF pode levar em conta que pela primeira vez na história do STF o plenário colocou em votação algo que já havia sido decidido pela 2ª Turma. Se houvesse uma decisão em plenário para derrubar a suspeição de Moro, ninguém pode sequer imaginar o que aconteceria em termos políticos com o STF. De toda forma, o risco existiu.

Interessante, mas não inédito, o lado emocional de alguns ministros durante a votação. Houve confrontos claros entre Barroso versus Lewandowski, depois Barroso versus Gilmar. Fux tentou encerrar a votação quando o placar estava em 3 x 2, devido ao adiantado da hora, mas foi atropelado por Lewandowski e na sequência por Tóffoli, e logo depois por Rosa Weber e Carmen Lúcia, em votos ultrarrápidos, decidindo a questão para os 7 x 2 atuais.

De imediato, isto coloca Lula nas eleições presidenciais de 2022, ao mesmo tempo em que enterra as pretensões políticas de Moro.

É importante lembrar que Lula não foi inocentado pelo STF, evidentemente, mas terá um julgamento honesto na Vara Federal do Distrito Federal, mesmo que pelo menos 1 dos 4 casos (o do tríplex do Guarujá) venha a ter sua prescrição homologada em decorrência de Lula ter mais de 70 anos.

Lembro, ainda, que o The New York Times qualificou, em janeiro de 2021, a "Lava jato" como o maior escândalo judicial da história. Não sei se foi da história, mas do último século, com certeza.

Curioso ainda registrar que, quem acusava Lula de corrupto, ainda o faz, mas agora não mostra mais tanta convicção. E quem acreditava em sua inocência agora comemora por ter sido provada a enorme injustiça, especialmente em duas questões irremediáveis para Lula, em todos os sentidos: a de ter sido alijado como ficha-suja de participar das eleições de 2018 e a de ter ficado preso injustamente por mais de 500 dias.


 

 

 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Memes pandêmicos, com e sem alho

Richard Jakubaszko   
Quando passar, pode acreditar, jamais esqueceremos essa pandemia. Seja pelas dores, seja pelos medos, seja pelos memes, ou até mesmo por tudo isso, junto e misturado.

Tenho um amigo, hoje com 106 anos de idade, o engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso, que anda escondido em sua fazenda em Mogi Mirim, ainda lúcido e faceiro, que lembra-se com detalhes de como foi a pandemia da gripe espanhola em 1919, quando ainda era um garoto; ele recorda-se que houve uma fake news na época, que resolvia muito mais do que cloroquina, e na qual as mães acreditaram: diziam os alquimistas de então que colocar uma espécie de colar no pescoço, confeccionada com dentes de alho, cujo aroma intenso afastaria os vírus para longe. Desde aquela época ninguém foi capaz de provar a eficiência do alho, mas o Dr. Cardoso até hoje associa o forte cheiro do alho com o milagre de não ter sido acometido pelo vírus.

Memes de hoje em dia, pandêmicos como eles só:

 



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segunda-feira, 19 de abril de 2021

STF decidiu sobre CPI e o julgamento político de Lula

Richard  Jakubaszko 

Sessão do STF ao vivo: instalação da CPI e direitos políticos de Lula

O Grupo Prerrogativas apresentou no vídeo abaixo (com quase 7 horas de transmissão) a mais completa transmissão de uma Sessão do STF. Foram mais de 13 juristas comentando as falas dos ministros do STF na votação histórica sobre a instalação da CPI da covid e sobre as nulidades da Lava Jato e os direitos políticos de Lula.


Participaram: Fabiano Silva dos Santos, Marco Aurélio de Carvalho, Carol Proner, Lenio Streck, Kakay, Pedro Serrano, Luciana Boiteux, Magda Biavaski, Roberto Tardelli, Pedro Carrielo, Fernando Fernandes, Alessandra Camarano, Gisele Ricobom, entre outros. A mediação e geração foi por conta do linguista e comunicador Gustavo Conde.

Esta sessão aconteceu dia 15 de abril 2021, e deixou para a sessão do dia 22 de abril de 2021 a discussão e votação sobre a suspeição do ex-juiz Sérgio Moro, se será reavaliada por votação no plenário, depois de decidida na 2ª turma.

 

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segunda-feira, 12 de abril de 2021

Best sellers na Amazon

Richard Jakubaszko  

O livro "CO2 - aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?", continua entre os mais vendidos da Amazon, na categoria Direito Ambiental, .

Seja por causa da pandemia, ou não, a obra desperta o interesse de muita gente. O livro tem ótima avaliação média de 4,4 estrelas num universo máximo de 5, feita por cerca de 40 leitores, além de comentários pertinentes.

Experimente ler https://www.amazon.com.br/gp/bestsellers/books/7874341011/ref=zg_b_bs_7874341011_1 

A posição de vendas é randômica, atualizada de hora em hora.
 



 

 

 

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domingo, 11 de abril de 2021

Hoje em dia, tudo é novo, é diferente...

Richard Jakubaszko 
Sua dor hoje é diferente de antigamente? Morreu? É da vida, vira a página, faz outro... 

Seu luto hoje em dia é mimimi, tá sabendo? Sua dor é frescura, deixa de ser maricas e vai pra rua, vai trabalhar, vagabundo!

Hoje em dia os valores são diferentes... No meu tempo de jovem andar de calça rasgada era desleixo, mas hoje é moda, até custa mais caro... Meus Deus, como o mundo mudou...

Fumar era bonito, também era moda, hoje é morte, é doença...

Ter escravos, em outros tempos, era legal, do ponto de vista jurídico, hoje em dia manda pra cadeia.

Mudou a moral, ou mudou a verdade? Mudou a dor, mudou o luto? 

Chega de mimimi!!! Então, faz você outro pai, outra mãe, outro filho, outra irmã, seu nazista filho de uma puta! Eu prefiro fazer um novo presidente...



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sexta-feira, 9 de abril de 2021

Vem aí a CPI da Covid-19

Richard Jakubaszko  

A determinação de instalar a CPI no Senado foi do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, ontem, 8 de abril. A Comissão Parlamentar de Inquérito é para apurar a omissão do governo de Jair Bolsonaro no enfrentamento à pandemia do coronavírus, fato que é evidente para a população.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) deve acatar a ordem.

A CPI foi solicitada ao STF por um grupo de 31 senadores – o regimento exige o mínimo de 27 assinaturas. Será mais um instrumento de pressão do chamado Centrão para manter Bolsonaro quieto e submisso.

Enquanto isso, muitas mortes Brasil adentro, mas o povo vai se divertindo, com Bolsonaro cada vez mais enlouquecido. Agora a gente tá lendo até em árabe:



 

 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O presidente de uma nota só...

Richard Jakubaszko  

Parece que as eleições de 2022 já estão em curso... Parece, não, estão mesmo em andamento. Qualquer ladainha de palanque é repetida pelo ex-capitão agora presidente, enquanto o país anda para trás, em todos os sentidos, seja na economia, seja na saúde, e especialmente na miséria urbana que vemos nas nossas calçadas e debaixo das marquises. Tá faltando remédio na farmácia popular e nada é dito ou denunciado na mídia. Mas o cara se acha...

O nefasto presidente anda se gaba, em seu palanque, que "Imagine se fosse o Haddad que estivesse aqui". Bom, eu imaginei e cheguei à conclusão que estaríamos bem melhores do que estamos, pelo menos em número de mortes nos hospitais, seja porque o sujeito que se diz presidente aposta em medicamentos que a ciência desmente e desautoriza, seja porque o STF vota pelo fechamento dos cultos em igrejas e tempos evangélicos. A Igreja Católica não está pleiteando a ninguém de ficar aberta, nenhum bispo católico pediu isso. Isso é feito apenas pelos evangélicos, porque, caso contrário, o dízimo dos fiéis não entra nos cofres dos pastores. 

A revista Carta Capital registra comentário do governador João Dória: "O tucano ressalta que "não quer ficar fazendo críticas ao governo Bolsonaro, mas apenas identificar a sua total incapacidade de articulação internacional". "O Brasil hoje vive a sua pior imagem internacional de toda a sua história... Nunca se viu uma imagem tão ruim do Brasil como nesse momento no mercado internacional, e não direcionadamente ao agro, é ao país. Um país negacionista, um país que hoje é o vice-líder em números absolutos de mortes pela Covid-19 e que lidera o trágico ranking da maior média de mortes diárias em todo mundo". Além disso, o governador fala que se sente constrangido ao assistir e participar de reportagens no exterior, já que os jornais e TVs sempre destacam negativamente o "péssimo papel que o Brasil vem tendo na pandemia por termos um presidente da República negacionista".

Sim, dá vergonha na gente. Mais vergonha ainda ao ver que um tantinho inexpressivo de empresários paulistas não importantes "ovacionou" Bolsonaro em jantar em São Paulo, conforme a Folha de SP.

O sujeito se vangloria de quê? Esquece que está sendo ridículo? Que suja a imagem do Brasil perante o mundo? Quem dera fosse o Haddad que estivesse no governo, tenho a certeza de que não estaríamos nessa merda que estamos.



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sábado, 3 de abril de 2021

Memes do coronavírus

Richard Jakubaszko  
A web continua leviana, bem humorada, simpática e ao mesmo tempo cruel com o dia a dia da gente, independentemente de nossa dor:

 

 

 

 

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quinta-feira, 1 de abril de 2021

Vai ter golpe ou autogolpe?

Richard Jakubaszko   
Sem governo e sem uma mídia adulta, imparcial e profissional, pelo contrário, temos uma mídia engajada, nós brasileiros vamos caminhando aos trancos e barrancos, e sem saber o que de fato anda acontecendo não apenas em Brasília (como se isso fosse importante...) ou em outras partes do Brasil. Temos excesso de informação pelo whatsApp, todas sem a menor confiabilidade. O fato é que os milicos estão desembarcando do governo do ex-capitão, ficaram desacreditados pelo apoio dado ao maluco que, dizem os jornais, anda a nos governar. O maluco tratou de punir os chefes militares, trocou o comando de tudo, do ministério da Defesa e das 3 armas, e começaram a falar em golpe, autogolpe, estado de sítio e o diabo a quatro. O que os milicos pensam? É hilário...
 



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