sábado, 11 de outubro de 2014

A palavra escrita é sagrada - a mídia também!

Daniel Strutenskey Macedo

Devemos ter cuidados com jornais
A expressão é antiga, de um tempo em que somente o poder escrevia: a igreja, os generais, a aristocracia. Os primeiros textos são códigos religiosos, ordens de reis, de chefes de nações. A palavra escrita tinha poder. Quanto poder ela ainda tem? A que escrevemos uns pros outros, pouco, quase nada. A escrita no Diário Oficial tem, pois nomeia, estabelece normas. A publicada na mídia miúda vale alguma coisa. A publicada pela grande mídia faz estragos. As pessoas defendem a liberdade de imprensa, mas é uma defesa que ainda leva em conta o abuso praticado em nome da liberdade. A internet permite a veiculação popular, começa a trazer à tona opiniões que antes não tinham onde trafegar.

Foi com enorme e decisiva participação da mídia que aconteceu a maior tragédia brasileira: A “Guerra de Canudos”. Coloco entre as aspas porque não foi uma guerra entre um país e outro, mas o martírio de sertanejos pobres acusados de subverterem a ordem. Euclides da Cunha, além de narrar os episódios, fez questão de esclarecer a falsidade da terrível campanha movida pelos jornais da época (em São Paulo, pelo jornal O Estado de São Paulo), os quais, durante dois anos, incitaram a população e conclamaram as forças armadas a intervir para “salvar” a pátria e a república. O original traz a análise do autor a respeito da farsa montada. Nas edições posteriores, os trechos que apontavam os malfeitores foram retirados. Ainda hoje o Estadão posa como paladino em defesa da liberdade e da democracia. Que desonra!

Regina Abreu, antropóloga, estudiosa do assunto, assim retrata a posição do autor: segundo o escritor, em vez de soldados, o governo republicano deveria ter enviado "mestres escolas" para educar a população de Canudos no caminho do progresso e da civilização, ou seja, as autoridades militares e civis erraram e abusaram do poder ao reprimir pela força uma população que deveria, pelo contrário, ser integrada ao Estado-nação. Euclides da Cunha chamou a atenção para o desconhecimento total em que viviam as elites com relação às populações dispersas pelo território. Os sertões eram mundos desconhecidos que precisavam ser desvendados. Euclides da Cunha fornecia uma interpretação que potencializava o aspecto positivo dos habitantes dos sertões do Norte, que ele chamava "nossos rudes patrícios". 0 principal argumento do escritor era de que essa população que vivia à margem da nação constituía o cerne da nacionalidade. Os "Sertanejos" de Canudos, mártires dos desvios e dos abusos do poder do governo republicano, passaram a representar, metaforicamente, o povo brasileiro. Resgatá-los, nem que fosse procedendo a uma revisão histórica dos erros de Canudos, significava resgatar o projeto da nação brasileira”. Vale a pena ler a Regina Abreu na íntegra.

Há alguns anos atrás, tivemos o episódio da Escola de Base. Falsamente acusada, foi fulminada pela mídia e fechou, pois os pais retiraram seus filhos da escola. Professores e diretores ficaram difamados, marcados para sempre. Soube-se depois que tinha sido uma farsa, mais já era tarde, o mal já estava feito, não era possível voltar atrás.

Recentemente, vivemos a Farsa do “caso” Celso Daniel. Durante dez anos, sempre próximo das eleições, repetiam-se intensamente as análises dos mesmos acusadores para desmoralizar o PT em Santo André e na mídia de massa. Todas as pessoas que conheço e com as quais conversei sobre o assunto, até as “sensatas”, acreditaram no que foi divulgado, ficaram convictas de que tudo o que foi publicado era verdade. Acompanharam o caso como se acompanhassem uma novela. Atualmente, ao invés do Manoel Carlos, são os repórteres que trazem as narrativas dos acusadores, dos advogados e das testemunhas. A mídia é novelesca, mas não traz os dois lados como fazem os autores de ficção. Elegem alguém culpado, urdem uma trama e vão acrescentando detalhes que ratificam as evidências por eles apontadas.

O jornalista Daniel Lima, de Santo André, que pode ser lido no “capitalsocial.com.br” cobriu, virou e revirou o caso Celso Daniel do avesso. Suas matérias forneceram laudos integrais da perícia, cópias dos depoimentos e uma porção de informações que contradizem a novela montada pela grande mídia. No entanto, ninguém se interessou pelo outro lado, o revelado pelo Daniel Lima, pessoa séria, culta, que conhece os políticos, os empresários, os artistas e todas as pessoas minimamente relevantes do ABC, particularmente de Santo André.

Confesso que escrevo isto desiludido, pois além de conhecer Daniel Lima, conheci e trabalhei com o professor Celso Daniel, conheci seus amigos, seus interesses. No entanto, ninguém deu crédito às informações. Preferiram ficar com a versão da mídia. Culpa da mídia? Não, da cultura. E não se trata de cultura aprendida nas escolas.


Dou um exemplo: ajudei a fundar a Instituição Lar Bom Repouso, da qual fui diretor por quinze anos, voltada às pessoas de rua, doentes e velhos, tudo gratuito, nem os diretores recebem remuneração, são voluntários. Nos primeiros quinze anos, recebemos e demos guarida a 18.845 adultos. Um número expressivo, maior que o de uma pequena cidade e composto por gente vinda de todos os lugares do Brasil.

Por ser da área de marketing e pesquisador, por querer conhecer as razões e os números (o que não é medido não é gerenciado), fiquei bem informado, quase especialista no problema. Pois bem, ao trocar informações com um antropólogo, professor de duas faculdades, ele me disse que "o centro de São Paulo tinha três milhões de moradores de rua". Contestei, pois a estimativa era de 800 mil pessoas migrando, indo de um lado pro outro no Brasil todo, nas capitais e cidade regionais. Expliquei que o centro de São Paulo é delimitado pelo Bom Retiro de um lado e a avenida Paulista do outro, que tem baixa ocupação populacional, nele mal cabe um quarto dos três milhões mencionados. E que nossos estudos estimavam em vinte e cinco mil os moradores de rua na cidade toda (naquela época, esse número caiu), que é muita gente e que causa muitos problemas para a cidade.

Ele retrucou da seguinte forma: então a Folha de São Paulo está mentindo? Respondi: você acredita em mim ou no jornal? Ele confirmou: acho que o jornal sabe o que diz, e ficou com a informação absurda (e furada) do jornal. Depois disso, vê-se que precisamos trabalhar muito para que a palavra da grande mídia não permaneça sagrada!
Ela ainda é. Mas não merece mais essa honraria.

A verdade sempre prevalece?
"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta, formará um público tão vil como ela mesma."

Joseph Pulitzer
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