segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O político e o economista na gestão da economia


André Araújo 
O padrão mundial e brasileiro de ministros da Economia (seja que título tenha o cargo) registra como experiência histórica o grande político ou o grande empresário como o melhor operador da política econômica. Esse perfil teve, no Brasil, grandes nomes de políticos, como Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha, políticos puros, como ministros da Fazenda ou grandes empresários, como Guilherme da Silveira, Sebastião Paes de Almeida e Horácio Lafer.

Nos Estados Unidos, dos 26 secretários do Tesouro desde a crise de 1929, quatro foram economistas e 22 foram políticos ou grandes empresários. Mesmo os economistas (Barr, Shultz, Summers e Snow) eram tarimbados operadores políticos.

Do grupo de políticos, os melhores foram velhas raposas como George Humphrey, John Connolly, James Baker, Nicholas Brady.

Alguns já nasceram ricos como Andrew Mellon e Douglas Dillon, outros eram ricos e ficaram bilionários depois da passagem pela Secretaria do Tesouro, como Nicholas Brady, que foi Secretário em dois governos, Reagan e Bush.

Até Winston Churchill, que não entendia nada de economia foi ministro da Fazenda na mesma época em que Getúlio, também virgem em conhecimentos de economia, foi ministro da Fazenda do Governo Washington Luis.

O cargo de Ministro da Fazenda exige um POLÍTICO e não um técnico, porque o cargo é político, antes de tudo.

O perfil ideal exige um homem de grande personalidade e cultura, Roberto Campos foi formado em Teologia e Filosofia, só fez curso de Economia muito mais tarde, mas era antes de qualquer coisa um diplomata, foi Embaixador em Washington e Londres, ajudou muito Juscelino na coordenação do Plano de Metas, antes tinha criado o BNDE a pedido de Getúlio e com apoio da Comissão Mista Brasil EUA, banco do qual foi depois presidente.

Mas o nosso ministro mais político foi sem dúvida Oswaldo Aranha, revolucionário de 30, grande diplomata, duas vezes dirigiu a economia brasileira, em épocas muito diferentes, nas duas vezes reduziu a dívida pública em dois terços, operador político de primeira linha, não tinha qualquer estudo de economia.

Os três grandes economistas que moldaram o Século XX foram, por ordem de nascimento, Hjalmar Schacht (nascido em 1877), John Maynard Keynes (de 1883) e Friedrich von Hayek (1899). Todos tinham grande cultura fora da economia, Schacht formado em Filosofia, Keynes era cultor das artes, fazia parte do Círculo de Bloomsbury, onde pontificava a nata da intelectualidade inglesa, como Virginia Woolf, adorava balé casou-se com uma prima bailarina, Lydia Likopowa; quando perguntado por uma dama como sendo um grande economista encontrava tempo para as artes, respondeu: “Minha senhora, a economia é o último de meus interesses”.

Hayek queria ser psicólogo e teve a Psicologia como sua primeira área de interesse, escreveu um livro sobre psicologia, The Sensory Order (A ordem sensorial), onde desenvolve a teoria da “ordem espontânea”, o fenômeno onde a ordem nasce do caos e não do planejamento, a ordem desejada nasce espontaneamente sem que se perceba a sua lógica, tese que é a base da economia de mercado que ele depois desenvolveu até inventar o “neoliberalismo”. Hayek dá como exemplo da ordem espontânea a linguagem, um sistema extremamente organizado que evoluiu por séculos sem que ninguém tivesse planejado.

A ideia de que, para dirigir a política econômica, se necessita de um economista, veio no Brasil a partir da década de 50, quando Eugenio Gudin criou o primeiro curso de economia no País, mas o perfil do “economista no governo” se consolidou a partir do governo militar de 1964 e caminhou até hoje como um grande equívoco. Para os ministérios econômicos, a aposta terá muito maiores chances com operadores políticos experientes, os economistas serão apenas estado-maior de apoio e não os operadores; estes precisam ser personalidade com visão de mundo e experiência muito mais ampla do que o típico economista geralmente apresenta.

O político tem por natureza uma meta macro muito clara e sabe improvisar para nela chegar, não depende de planilhas e nem de discussões bizantinas sobre déficits de 0,5% ou 0,7% como se esses números fossem a pedra filosofal.

Em uma época de crise como a que estamos, um político terá muito mais jogo de cintura para fazer os ajustes e reformas fundamentais, algo que exige intensa atividade de convencimento e negociação, do que um bom economista de perfil técnico, inútil em épocas de crise porque ele sabe diagnosticar, mas não sabe abrir caminho para chegar à solução.

Artigo publicado no http://msiainforma.org/o-politico-e-o-economista-na-gestao-da-economia/ em 23 de dezembro 2015.

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