terça-feira, 20 de abril de 2010

1968 - Pra não dizer que não falei das flores

Richard Jakubaszko
Pra não dizer que não falei das flores, música de Geraldo Vandré, lançada em 1968 na época dos festivais da canção da TV Record, foi um ícone e o maior hino de toda uma geração de jovens, na qual me incluo.

Geraldo Vandré, nome artístico de Geraldo Pedroso de Araújo Dias Vandregísilo, paraibano, (João Pessoa, 12 de setembro de 1935). Foi o primeiro filho do casal José Vandregísilo e Maria Eugênia. O nome artístico Vandré é uma abreviatura do segundo nome do pai.


Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1951, tendo ingressado na Faculdade Nacional de Direito da então Universidade do Estado da Guanabara, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo se formado em 1961. Militante estudantil, participou ativamente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Conheceu Carlinhos Lyra, de quem foi parceiro em músicas como "Quem Quiser Encontrar o Amor" e "Aruanda", gravadas por Lyra. Gravou seu primeiro LP, "Geraldo Vandré", em 1964, com as músicas "Fica Mal com Deus" e "Menino das Laranjas", entre outras.

Em 1966, chegou à final do Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com o sucesso Disparada, interpretado por Jair Rodrigues. A canção arrebatou o primeiro lugar ao lado de A Banda, de Chico Buarque. 
Em 1968, participou do III Festival Internacional da Canção com Pra não dizer que não falei de flores (ou, Caminhando). A composição se tornou um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar, e foi censurada. O Refrão "Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, / Não espera acontecer" foi interpretado como uma chamada à luta armada contra os ditadores.

No festival a música ficou em segundo lugar, perdendo para Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim. Houve muita polêmica sobre a decisão.
Simone foi a primeira artista a gravar Caminhando após do fim da censura.

Ainda em 1968, com o AI-5, Vandré foi obrigado a exilar-se. Depois de passar dias escondido na fazenda da viúva de Guimarães Rosa, falecido no ano anterior, o compositor partiu para o Chile e, de lá, para a França.

Voltou ao Brasil em 1973. Até hoje, vive em São Paulo e compõe. 
Muitos, porém, acreditam que Vandré tenha enlouquecido por causa de supostas torturas que teria sofrido. Dizem que uma das agressões físicas que sofreu foi ter os testículos extirpados, mas em entrevista no ano de 2000 essas especulações foram desmentidas pelo próprio compositor, inclusive de que ele sequer foi um exilado. Vandré disse que só não se apresenta mais porque sua imagem de "Che Guevara Cantor" abafa sua obra.

Curiosidade
A canção Pra não dizer que não falei de flores foi usada em 2006 pelo Governo Federal como trilha musical para publicidade de suas Políticas de Educação como o ProUni e o ENEM, sendo executada em um ritmo diferente. Dessa forma, a música que foi considerada uma ameaça ao governo ditatorial passou a ser usada para publicidade do governo no período democrático.


Vale a pena ouvir Caminhando. Nas imagens desse vídeo aparecem inúmeras personalidades artísticas, políticos e estudantes dos anos 60 e 70, enquanto os militares desciam o porrete.
Atualmente o que me irrita profundamente é ver gente discutir sobre os exilados, enaltecendo ou criticando essa situação, dependendo de quem seja, ou de criticar exacerbadamente quem aqui ficou para lutar de frente com os militares. Os que ficaram, e por isso levaram muita porrada em prisões, ainda recebem, hoje em dia, de "gorgeta", o rótulo pejorativo de "terroristas". Portanto, idiotice político-partidária essa discussão do “verás que o filho teu não foge a luta”, conforme a letra do Hino Nacional.

Lamentável essa posição de pessoas que não têm memória e conhecimento da história de seu país. Há que se lembrar que reconquistamos o direito de votar, portanto, o voto tem maior valor, maior peso, maior importância do que uma baioneta ou tanques nas ruas. 
O voto é como uma flor... Mas não estou falando de flores... Ouçam quem é o verdadeiro mestre...

5 comentários:

  1. Daniela Jakubaszko20 de abril de 2010 12:25

    Oi Papai,
    achei ótimo, parabéns. Era isso o que eu dizia para um amigo no último fim de semana quando ele criticava o voto obrigatório. Eu disse: não importa se o voto é obrigatório ou não, o que importa é que muitas pessoas sofreram terríveis consequências para defender a nossa democracia, para conseguir as diretas, e agora eu vou renunciar ao voto? Nem a pau, Juvenal, eu vou é fazer uso desse dever como se ele fosse um direito, porque na nossa pequena humanidade brasileira sempre ameaçada é isso o que ele é. Pra mim, democracia é participação, votar é o mínimo que um cidadão tem que fazer!
    bjs
    Dani

    Comentário do blogueiro: a família que vota unida jamais será vencida. Vamos aos votos...

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  2. Richard
    Tenho cada vez mais me identificado com suas crônicas. A música do Geraldo Vandré representa muito mais que uma canção, ela proporcionou a maturidade e consciência política de uma geração, da qual, infelizmente, não participei.
    Um abraço
    Valter Casarin
    Piracicaba, SP

    Comentário do blogueiro: obrigado Casarin, eu é que agradeço a sua honrosa visita aqui no blog. Posso dizer a vc que vivi com tanta intensidade essa época, a música, os debates, que "participei por vc". Grande abraço!

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  3. Richard, velho de guerra. O voto além de ser como uma flor serve para enfrentar canhões também, e não apenas os canhões verdadeiros mas os que dilapidam o patrimônio. Homem de Deus, você não apenas deu uma aula de história sobre nosso Vandré como, acima de tudo, relembrou um tempo dito obscuro mas de uma poesia muita clara.
    Um abraço grande e mataremos as saudades proximamente.

    Rosemilton Silva
    rosemiltonsilva@carroecampo.com.br

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  4. Pedro Irineu Caboverde21 de abril de 2010 10:12

    Richard
    você é um poeta da democracia. Mas, pra que o voto se ele não impede a corrupção? Seria melhor a baioneta? Não sei; o que sei é que precisamos aprimorar o perfume das flores... os que elegeram o que está aí devem estar arrependidos!
    Pedro Irineu Caboverde
    Curitiba

    Comentário do blogueiro:
    Irineu, se vc tem dúvidas, mude de candidato. Aprimore seu voto, é a melhor maneira de trocar o "perfume" das flores. Os que elegeram "o que está aí", pelo que entendo, conforme as pesquisas, vão continuar com o mesmo perfume. A baioneta vc põe onde melhor desejar, tá bom assim? Ficamos combinados...

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  5. Olá! estou fazendo um trabalho escolar e o tema é o significado do titulo da sua música
    " Pra não dizer que não falei das flores "..
    poderia me ajudar?!
    Obrigado
    Tata

    COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO:
    Claro Tata, posso ajudar, dentro do que me for possível. A música não é minha, deixemos isso claro, mas escreva para richardassociados arroba yahoo.com.br e coloque as informações que vc precisa.
    abs

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