sábado, 9 de junho de 2012

O Brasil não precisa de mais usinas nucleares

Richard Jakubaszko
Enviado por Gerson Machado, reproduzo abaixo o artigo de dois cientistas brasileiros que argumentam contra a instalação de novas usinas nucleares no Brasil para a produção de energia elétrica. Em verdade, o Governo Federal brasileiro ainda estuda a questão face ao monumental lobby dos ambientalistas para a não construção de novas hidrelétricas, inclusive Monte Belo. 

Como as energias alternativas (eólica, solar ou das ondas do mar) ainda não se mostraram viáveis, tecnicamente falando, pela incapacidade de energias serem estocadas, e ainda porque os ventos escasseiam, e nas noites não há sol, e também porque ainda são antieconômicas, a alternativa seria a produção de energia elétrica pelas usinas nucleares, que é para onde nos empurram os ambientalistas.

O Brasil não precisa de

mais usinas nucleares  
por Joaquim de Carvalho e Ildo Sauer *

O acidente de Fukushima aconteceu 25 anos depois do de Chernobyl (ex-União Soviética, atual Ucrânia), que aconteceu sete anos depois do de Three Mile Island (Estados Unidos).

Essa sequência de acidentes jogou por terra as conclusões do mais importante estudo sobre segurança de reatores nucleares, segundo o qual a probabilidade de acidentes graves em centrais nucleares é tão pequena, que só a cada 35 mil anos poderia acontecer um. A metodologia desenvolvida nesse estudo - que foi feito em 1975, por um grupo dirigido pelo professor Norman Rassmussem, do Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) para a Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (Relatório Wash 1400) - serviu de base para as análises de segurança de praticamente todas as centrais nucleares desde então implantadas no mundo.


Não existe máquina infalível nem obra de engenharia 100% segura. Haja vista os inúmeros acidentes de avião, automóvel e trem que acontecem pelo mundo. Entretanto os acidentes nucleares têm dimensões que os outros não têm. Eles se propagam pelo espaço - continentes inteiros - e pelo tempo - décadas, senão séculos.


Um desastre de avião, por exemplo, atinge diretamente os passageiros e, por mais traumático que seja, este tipo de acidente termina no local e no instante em que acontece. Um acidente em central nuclear apenas começa no instante e no local em que ocorre. Alguns anos depois centenas de pessoas em regiões inteiras sofrerão males induzidos por exposição a radiações ionizantes. E em algumas décadas crianças nascerão com aberrações cromossômicas e desenvolverão leucemia e desordens endócrinas e imunológicas, provocadas pela absorção, por seus genitores, de doses de radiação acima do tolerável, como acontece até hoje em consequência do acidente de Chernobyl com a população que permaneceu nas cidades próximas.
 

O Brasil não precisa dos riscos nucleares
O Brasil não precisa correr risco semelhante, porque dispõe de abundantes recursos energéticos renováveis e capacidade técnica para aproveitá-los. De fato, em adição aos 100 GW de potencial das grandes hidrelétricas que já estão em operação ou em implantação, ainda restam por aproveitar 150 GW. Além disso, há o potencial das pequenas hidrelétricas, que é de 17 GW. E ainda há o potencial resultante da modernização das usinas em operação e da racionalização do uso da energia.

O potencial eólico avaliado em 2001 era de 143 GW, para turbinas encontradas no mercado, instaladas em torres de 50 metros. Com o desenvolvimento de turbinas mais eficientes e torres mais altas, esse potencial é estimado em 300 GW. Para as térmicas a bagaço-de-cana, o potencial é de 15 GW. Há, ainda, a opção fotovoltaica, que já é uma realidade em países tecnologicamente avançados.


No lugar das usinas nucleares planejadas pelo governo, várias combinações de fontes renováveis são possíveis, todas elas com custos de investimento inicial de cerca da metade da opção nuclear. Ademais, é evidente que as alternativas renováveis prescindem de combustíveis, ao contrário das usinas nucleares, que consomem montanhas de minério de urânio e, ao final de suas vidas úteis, deixam a herança dos combustíveis irradiados, que, devido à sua alta radiotoxidade, requerem tratamento especial e uma estocagem sob vigilância 24 horas por dia. A estocagem pode durar de centenas de anos, se os combustíveis forem desmontados e reprocessados, até milhares de anos, se forem guardados tal como saem dos reatores. Tudo isso sob rigorosa vigilância de forças policiais especialmente treinadas, para evitar que grupos anarquistas ou terroristas se apropriem desses materiais.


Tal vigilância é muito onerosa e contribui para aumentar o custo da energia nuclear. Aliás, nos recentes leilões promovidos pelo governo, a energia hidrelétrica e a energia eólica foram negociadas pela metade do preço calculado para energia nuclear - apesar de ser esta favorecida por importantes subsídios.


Se, por motivos sociais, ambientais e políticos, aproveitarmos apenas 70% da capacidade hidráulica ainda por explorar na Amazônia, 80% da capacidade das demais regiões e 50% da capacidade eólica, poderemos estruturar um sistema interligado inteligente ("smart grid") capaz de oferecer anualmente cerca de 1,4 bilhão de MWh a partir de fontes inteiramente renováveis, o que será suficiente para atender a uma demanda per capita da ordem de 6.600 kWh (semelhante ao padrão atual da Alemanha) na década de 2040, quando, segundo o IBGE, a população estará estabilizada em 215 milhões de habitantes.


Há uma tendência natural de complementaridade das disponibilidades energéticas entre os ciclos hídrico e eólico no Brasil. Além disso, uma eventual complementação com usinas térmicas, com suprimento flexível de gás natural, para operação em períodos hidroeólicos críticos, permitiria aumentar a confiabilidade e reduzir custos.


Se o potencial elétrico renovável fosse aproveitado de maneira inteligente, os brasileiros teriam energia elétrica por custos dos mais baixos do mundo, o que, entre outros benefícios, daria um grande poder de competitividade à nossa indústria, compensando, em parte, o chamado "custo Brasil".


* Joaquim Francisco de Carvalho é pesquisador associado ao IEE/USP, doutor em energia pela USP, foi diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear) e presidiu a comissão criada pela presidência da República para avaliar o acidente com Césio-137, em Goiânia. Ildo Luis Sauer é diretor do Instituto de Energia e Eletrotécnica - IEE/USP, é PhD em energia nuclear pelo MIT e foi diretor de Energia e Gás da Petrobrás. 
Artigo publicado no Valor Econômico de 1º/6/2012.
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Edição 4510 - Notícias de C&T - Serviço da SBPC

Jornal da Ciência JC e-mail 4510, de 01 de junho de 2012. 
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* A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.
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sexta-feira, 8 de junho de 2012

O nosso Código Florestal e as regras européias

Luiz Prado
(publicado originalmente em http://www.luizprado.com.br/2012/06/01/codigo-florestal-regras-brasileiras-regras-europeias/comment-page-1/#comment-2878 )

A União Européia está propondo regras para o setor agrícola que preveem que 7% das propriedades terão algo semelhante a uma “reserva legal” brasileira e que, se aprovadas, entrarão em vigor em 2014. SETE POR CENTO! “Semelhante” porque ainda não é claro se tais áreas serão intocáveis, se nelas deverá ser feito uma recomposição da vegetação nativa e quanto de indenizações deverão ser pagas aos agricultores.

Essas regras não incluem áreas de preservação permanente ao estilo de Pindorama!

A burocracia da União Européia deu a isso a denominação de “agricultura verde”. O “verde” é só um modismo passageiro, mas um relatório do Parlamento da Inglaterra concluiu que essas regras reduzirão a produção de alimentos, aumentarão a burocracia e poderão até mesmo ser danosas para o meio ambiente.

Um dos argumentos básicos para esta conclusão é simples: o que vale para a Irlanda não se aplica necessariamente à Sicília. Pelo simples fato de que tudo é muito diferente entre esses dois “ambientes”: geologia, topografia, clima e regime de chuvas, e por aí afora. De acordo com as novas regras “verdes”, os produtores rurais teriam que, além de separar 7% de suas terras sem qualquer cultivo para “proteção da ecologia”, reservar áreas para pastagens e fazer rotação de culturas.

A Comissão de Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais do parlamento inglês avaliou, no relatório, que as novas regras – que deverão entrar em vigor em 2014 – “reduzirão a segurança alimentar e provavelmente causarão impactos negativos ao meio ambiente”.

A presidente da Comissão, Anne McIntosh, ressaltou o óbvio: “É um nonsense acreditar que os produtores rurais da Finlândia e da Sicília devem obedecer ao mesmo conjunto de regras. Uma regra aplicada igualmente a todos (“one size fits all”) não será efetiva se considerado o amplo espectro de ambientes encontrados na Europa. Da maneira que foram formuladas, essas regras será danosa para os produtores rurais, para os consumidores e para a área rural.”

A Comissão, multipartidária, afirmou que apoia a proposta de tornar a agricultura mais “verde”, mas enfatizou que as diferenças climáticas – climáticas, geográficas, de práticas agrícolas – devem ser consideradas.

“Objetivando a proteção do meio ambiente e da biodiversidade, os produtores rurais da União Européia devem ser capazes de gerir as suas propriedades de acordo com regras adaptadas às suas regiões, aos seus métodos agrícolas e às preocupações ecológicas locais ou regionais específicas” – afirmou a presidente da Comissão.

Nada como um pouco de bom senso e realidade aplicada a debates generalistas.  Acorda, Dilma!

Com a palavra, o Greenpeace, que tem uma razoável tradição de ações passadas na Inglaterra, e o braço operacional do grupo financeiro WWF, cuja força maior – senão total – vem de um país onde regras desse tipo simplesmente não existem.

Lá, as unidades de conservação não são “parques de papel”, como aqui!
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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Descriminalização das drogas


Richard Jakubaszko
Recebi por e-mail do jornalista Moacir José, o texto abaixo de uma carta enviada ao Jornal da CBN, programa de rádio do Sistema Globo, e dou divulgação. Pelo que entendi a rádio CBN não divulgou a mensagem abaixo, mas apenas o registro da entrevista abaixo citada.
De toda forma, registro a opinião do colega, sugerindo aos leitores do blog que debatam agora o tema, pois criticar depois que a legislação for aprovada não adianta nada. As críticas devem ser feitas antes, de forma a subsidiar os legisladores com a opinião dos cidadãos. O fato de qualquer leitor do blog ter uma opinião e efetuar um comentário não o torna criminoso, se for a favor da descriminalização das drogas, e nem tampouco uma madre Tereza de Calcutá se for contra.
Leiam e comentem, debatam, esta é uma atitude cidadã!

Sobre a descriminalização das drogas
por Moacir José *
Sobre a entrevista do procurador da República Luís Carlos Gonçalves, membro da comissão de juristas que propôs a descriminalização parcial de drogas, como parte da reforma do Código Penal. A entrevista foi concedida ao Jornal da CBN, do apresentador Milton Jung, na manhã da quarta feira da semana passada, dia 30 de maio

Fiz o seguinte comentário:
Acho que o procurador está equivocado quando imagina que essa medida, se aprovada, vá ter um efeito contrário, ou seja, o de, ao invés de reduzir as prisões de pessoas portadoras de drogas, vai aumentar o número de detenções. Pelo simples fato de que já há hoje uma tolerância aos portadores de drogas para consumo próprio, motivada justamente porque não haveria prisões suficientes para encarcerar esse universo de pessoas, que, ao que parece, aumenta a cada dia. Questionar esse fato (o do aumento do consumo) é muito importante, mas não é o caso de analisá-lo agora

O que se deve entender é que a descriminalização para quem porta drogas para consumo parte da idéia de que esse indivíduo não é, a priori, um criminoso, porque o único crime que está cometendo é o de comprar algo que é ilegal. E por que é ilegal? Porque em algum momento do passado considerou-se que o entorpecente poderia levar o indivíduo a cometer algum delito. É uma possibilidade, assim como é possível que uma pessoa embriagada atropele e mate outra pessoa. Melhor do que proibir o consumo, porém, seria aumentar a pena de quem comete algum crime sob efeito de qualquer droga, inclusive o álcool.

Descriminalizar, nesse sentido, significa partir do princípio de que o consumo e os efeitos danosos dos entorpecentes, se os houver, ocorrerão, a princípio, no próprio consumidor. É, portanto, um risco de saúde individual.

Por outro lado, o procurador está correto ao apontar a contradição (que, por sinal, até agora serviu de argumento aos opositores da descriminalização) de que se o consumidor não deve ser penalizado qual seria a lógica em se criminalizar o traficante

Aí é que reside o ponto da transformação. Ao permitir, na mesma lei, que a produção para consumo próprio também seja legalizada, abre-se a possibilidade de se legalizar também a produção e comercialização em pequena escala destinada àqueles que não tenham condições de produzir para consumo próprio. E essa legalização teria de vir acompanhada de uma elevada cobrança de imposto, semelhante à aplicada a cigarros e álcool, de forma a que o Estado se aproprie das vultosas quantias movimentadas hoje pelo tráfico – e que tantos prejuízos causam à sociedade, a começar pela violência.

A partir desse momento, isola-se o traficante das duas pontas – produção e consumo – e abre-se a possibilidade de o Estado sangrar o tráfico através do confisco de qualquer droga que não tenha sido produzida de forma legal, com sua posterior venda aos consumidores.

Com esses recursos é que se poderá bancar não só programas eficientes de tratamento de dependentes (que, acredito, sejam uma minoria), como também bancar campanhas de esclarecimento sobre os malefícios do consumo contumaz de drogas e de prevenção para que elas não alcancem jovens e crianças.

* o autor é jornalista, de São Paulo, capital.
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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Debate de agrônomos, sobre o Código Florestal.

Richard Jakubaszko
Destaco abaixo o texto completo do artigo do agrônomo Xico Graziano, que se diz um ambientalista (publicado no Estadão, 29/5), e logo a seguir a réplica do também agrônomo Fernando Penteado Cardoso, ambos esalqueanos, mas com uma visão sutilmente diferenciada da história e de outros quesitos ambientais. Vale a pena comparar as opiniões, eis que se transformam num debate interessante.

Código Florestal, o Retorno
Por Xico Graziano *
Entre tantas dúvidas sobre o Código Florestal, uma certeza o agricultor José Batistela carrega: ele não precisa, nem quer, ser anistiado. Ninguém jamais o convencerá de que incorreu em crime ambiental ao abrir as fronteiras agrícolas do Brasil. Julga tal suposição uma afronta ao seu caráter.
Descendente de italianos, cheio de bisnetos, seu José anda meio depressivo pelo que escutou no rádio e na televisão. Sente-se desprestigiado na sociedade urbanizada que ajudou a erigir e agora lhe vira as costas, não lhe reconhecendo nas mãos os calos ganhos no árduo trabalho da roça. Esquecem-se os citadinos de sua saga familiar, há mais de século iniciada com a abertura daquelas terras roxas na região de Araras, destinadas a plantar os cafezais que forjaram a pujança paulista. O machado, sim, e a maleita, também, fazem parte de sua história. Renegada no presente.

A mistura entre desmatadores e pioneiros representou a pior desgraça gerada nessa infeliz polêmica sobre a legislação ambiental do campo. Uns, condenáveis, outros, elogiáveis, ambos se misturaram no discurso exagerado, enganoso mesmo, brandido pelos radicais do ambientalismo. Em nome de nobre causa - a defesa ecológica -, cometeram uma tremenda injustiça com os nossos antepassados, equiparando-os aos criminosos da floresta. Cuspiram em suas origens.

Semelhantes a qualquer outro povo espalhado no planeta, os pioneiros da Nação brasileira, certamente, suprimiram muitas florestas virgens. Começaram pela Zona da Mata nordestina, onde o latifúndio açucareiro se instalou ocupando a faixa úmida e ondulada que acompanha a costa atlântica. Depois, durante a corrida para a mineração, chegou a vez de o montanhoso solo mineiro ser desbravado. O mesmo ciclo de progresso estimulou a exploração pecuária nos pampas gaúchos. Pedaços da vida selvagem cediam espaço para a civilização humana crescer.

Mais tarde, a frente de expansão adentrou a Mata Atlântica do Sudeste, buscando a excelente fertilidade das terras roxas. São Paulo, por intermédio dos bandeirantes e, depois, dos imigrantes, assumia a dianteira econômica, e política, do País antes mesmo do fim da escravatura. Nessa época, o navio trazendo o pai de José Batistela aportava no Porto de Santos. O que o movia era o sonho da prosperidade no além-mar.

O tempo passou. Somente quando a agronomia realizou uma de suas maiores façanhas tecnológicas - a conquista do Cerrado no Centro-Oeste - a última fronteira se efetivou. Há 40 anos se iniciava a interiorização do desenvolvimento nacional, processo que ainda receberá da historiografia o devido reconhecimento na consolidação do País. Confundir essa ocupação histórica do território com o dano ecológico causado pelos devastadores do presente significa tola, ou mal-intencionada, visão.

Nossos avós, definitivamente, não são criminosos ambientais, tampouco criaram "passivos" a serem recuperados. Ao contrário, eles geraram ativos produtivos para a civilização. Como se teriam erguido, e abastecido, as cidades sem a lavra do solo virgem? Impossível. Derrubar árvores, drenar várzeas, combater peçonha foram exigências do progresso material da sociedade, aqui como alhures, turbinado pela explosão populacional.

Haverá, com certeza, um limite para a exploração planetária. O que permite tal hipótese é o avanço tecnológico. Quanto mais as modernas técnicas garantem, no campo, maior produtividade por área explorada, mais se facilita a preservação de espaços naturais. Boa comprovação disso se encontra na pecuária brasileira. O volume de carne produzido hoje no Brasil exigiria, se mantido o nível de tecnologia de 30 anos atrás, um assustador acréscimo de 535 milhões de hectares nas pastagens. Economizou-se uma Amazônia.

No patamar de conhecimento atual, estima-se que as áreas já exploradas do território nacional seriam suficientes para atender à demanda de mercado por alimentos e matérias-primas. Ou seja, após séculos de expansão sobre os biomas naturais, vislumbra-se um ponto de equilíbrio entre derrubar e produzir. Mais que utopia, o desmatamento zero torna-se uma possibilidade real.

Seu José Batistela, agricultor da velha guarda, tem dificuldade para entender esse assunto da "pegada ecológica" da humanidade. Mas concorda com a punição dos picaretas que, na Amazônia ou onde mais, zunem a motosserra afrontando conscientemente a lei florestal. Sabe que os tempos mudaram.

Aqui está o xis da questão: como consolidar, e regularizar, as áreas produtivas da agropecuária nacional sem facilitar a vida para os bandidos da floresta. Infelizmente, no debate polarizado sobre o novo Código Florestal, tudo virou um só dilema: anistiar, ou não, os desmatadores, colocando todos no mesmo saco. Desserviço à inteligência.

Chegou a hora de passar a limpo essa encrenca entre ruralistas e ambientalistas. Má interpretação, exageros, preconceitos confundiram a opinião pública, até no exterior. Na Europa, especialmente, ecoterroristas venderam a ideia de que o Código Florestal acabaria com a Amazônia. Mentira deslavada. Abaixada a bola com a (correta) promulgação da Lei 12.651/2012, com vetos, seguida da imediata publicação da Medida Provisória 571, há que retomar a capacidade de interlocução.

Doravante valeria a pena ouvir a voz da sensatez. Recuperar a biodiversidade não se sobrepõe à proteção humana. Não faz nenhum sentido regredir, salvo o imprescindível nas matas ciliares, o território produtivo do País. Muito menos facilitar os desmatamentos.

Código Florestal, o Retorno. Assim se poderia chamar o filme. Só que, nesse novo enredo, José Batistela ocupará um papel honrado. Xico Graziano

* Ex-Secretário Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, é engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Administração.


CONTRAPONTO
São Paulo, 4 de junho de 2012
Carta aberta
Nossos avós não são criminosos ambientais
Prezado colega  Xico Graziano:
Venho parabenizá-lo por sua crônica de 29 de Maio (OESP,A2) fazendo justiça aos pioneiros do século 19 e parte do século 20 que abriram o sertão para plantar café.

Nesta fase ingrata da mídia avassaladora, mistificando por vezes a opinião pública, principalmente dos urbanitas, é confortante, pela franqueza e realismo, ler no OESP (29/5,A2), um dos principais jornais do país:
“... cometeram uma tremenda injustiça com os nossos antepassados, equiparando-os aos criminosos da floresta. Nossos avós, definitivamente, não são criminosos ambientais, tampouco criaram “passivos’ a serem recuperados.  Ao contrário, eles geraram ativos produtivos para a civilização. Como se teriam erguido, e abastecido, as cidades sem a lavra do solo virgem? Impossível.  Derrubar árvores, drenar várzeas, combater peçonha foram exigências do progresso material”.

Mais adiante V. pode confundir seriamente os leitores ao fazer média com os ambientalistas caçadores de manchetes, repetindo seus chavões monótonos e cansativos ou perseguindo bruxas, ora interpretadas por “picaretas que zunem a motosserra, ...criminosos ambientais,... bandidos da floresta.”
A generalização cria um dilema par os leitores. Porque seriam hoje picaretas, criminosos e bandidos se não o eram antes? São pessoas que continuam assumindo riscos e desconforto, no afã de produzir carne vermelha, cereais e outros produtos agrícolas. Os picaretas perambulam pelas metrópoles, jamais labutam nas florestas.

Pena que o crédito aberto aos pioneiros do século 19 não tenha sido estendido a seus semelhantes do século 20, que nos anos 1970 a 1990 abriram mais de 20 milhões de ha de vegetação primária, com motosserra para plantar capim na mata pesada, com correntão  para semear cereais no cerrado mais leve.
Esses desbravadores, tanto quanto nossos avós, são os responsáveis pela extraordinária expansão da agropecuária de que tanto nos orgulhamos. São ainda os fundadores e autores de uma série de cidades com IDH médio de 0,80, de que nos blasonamos.

Nesses dois séculos nada teria sido feito sem as aberturas da vegetação nativa. A remoção do dossel arbóreo para possibilitar a incidência da luz solar sobre o solo é um procedimento sem alternativa no processo da fotossíntese inibido pela sombra.

Eles, os pioneiros desbravadores, removeram a sombra para produzir milhões de t de alimentos e para implantar cidades do mais alto nível. E essa produção serve para suprir as necessidades da população brasileira - crescentemente urbanizada (hoje são 85% do total) – e ainda gerar excedentes exportáveis que trazem bilhões de dólares para a nossa economia.

E não foram irresponsáveis, em relação ao interesse de seus sucessores, tornando desfavorável o ambiente da produção. O ambiente solo-água-ar se mantem em alto nível e plenamente sustentável graças às tecnologias praticadas. Muito pelo contrário, criaram em milhões de hectares uma fertilidade antes inexistente nas terras fracas de origem.

A abertura de muitos milhões de ha não comprometeu o clima local, que permanece adequado até nossos dias, nem a disponibilidade de água, ora disputada por uma população crescente. As regiões abertas no citado período abrigam hoje milhões de habitantes com elevado nível de vida.

Além do mais, o engenho humano tem possibilitado uma produção crescente de alimentos, de fibras e de bioenergia com mais eficiência do que antes por unidade de área utilizada e por unidade de trabalhador empregado.

Essas considerações nos deixam perplexos.  Muito mais perplexa fica a faixa da população menos doutorada, imersa nesse mar de contradições, de sofismas e de demagogia, ora exaltada pela mídia que nos envolve e nos avassala.
Cordial abraço esalqueano
Fernando Penteado Cardoso **

** Engenheiro Agrônomo Sênior, ESALQ, turma de 1936.
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terça-feira, 5 de junho de 2012

Os jornalistas e as redes sociais

Richard Jakubaszko
Participei como convidado de um debate na Faculdade São Judas, em São Paulo, no final de 2011, a convite de um professor, o jornalista Paulo Sérgio Pires. O debate foi gravado em vídeo, como forma de aula prática aos alunos, para experiências com a mídia televisão. 
O tema escolhido para o debate foi a "Imprensa e as redes sociais", especialmente o Twitter e Facebook.
O debate que se desenrolou foi interessante e está registrado no vídeo abaixo.
Declarei-me como usuário de uma única rede social, a Rede Peabirus ( www.peabirus.com.br ), além de ser blogueiro e jornalista atuante na mídia impressa, como editor da revista DBO Agrotecnologia. Na edição do programa acabei sendo apresentado como "criador" da rede Peabirus, o que não é fato, sou somente usuário.

domingo, 3 de junho de 2012

Os 10 países que comandarão o comércio mundial em 2050

Richard Jakubaszko
O Brasil já é a 6ª economia do mundo, e estamos na reta para chegar ao 5º lugar, dentro de 4 ou 5 anos. Mas como estará o Brasil em 2050? Pelas previsões de economistas do City Group a posição brasileira não terá fôlego para acompanhar outras economias, pelo menos no comércio internacional. Vejam a situação da análise do City Group, enviada ao blog por por Gerson Machado.

Os 10 países que comandarão o comércio mundial em 2050

Os economistas ainda não chegaram a um consenso sobre o que é reservado para a economia mundial no próximo ano. A Europa está em crise, a China parece abrandar sua velocidade de crescimento, e o sistema político americano é uma bagunça generalizada, em ano de eleger (ou reeleger) presidente.

Não há esperança de que a incerteza de curto prazo será apenas um ruído na imagem e que a situação retornará a alguma tendência de longo prazo.

A equipe de pesquisa do Citigroup, liderada pelo economista-chefe Willem Buiter publicou suas previsões para o comércio global em 2050. Em um relatório intitulado comércio transformado: The Emerging, novos corredores de comércio Power, economistas do projeto world trade (isto é, a soma das importações e exportações), em termos reais, é definido como saltar de US $37 trilhões de dólares em 2010 para US $287 trilhões em 2050.

Especificamente, o comércio é definido como transformar com maior crescimento, vindo de mercados emergentes. A China deverá ultrapassar os EUA como líder mundial no comércio mais cedo, previsto para 2015.

Estes 10 países comandarão o comércio mundial em 2050
O desenvolvimento de Ásia deverá se tornar o maior corredor de comércio regional do mundo no mesmo período. Além disso, prevê os orientais como responsáveis por 38% da atividade de comércio do mundo em 2050. Estas projeções são, contudo, previstas pelas medidas contingenciais do crescimento do PIB, e dependem de como melhorar a produtividade, os rendimentos crescentes e um mercado menos protecionista.

O Brasil não aparece na lista, apesar de sermos hoje a 6ª economia mundial, e no referido relatório não houve explicações.

10 - REINO UNIDO
O comércio de 2050: 6.02 trilhões de dólares
% do comércio mundial: 2.1%
Comércio do Reino Unido é definido com o aumento de US $1,77 trilhão em 2015, para US $3,2 trilhões em 2030 e conta com 2,6% do comércio mundial.

9 - Cingapura

O comércio de 2050: 6,8 trilhões de dólares
% do comércio mundial: 2,4%
Singapura será responsável por 2,7% do comércio mundial em 2030 e seu comércio totalizará US $3,2 trilhões em 2030


8 - Japão

O comércio de 2050: 7,6 trilhões de dólares
% do comércio mundial: 2.7%
Japão que, com 1,78 trilhões de dólares, representava 4,8% do comércio mundial em 2010, é esperado para cair no ranking. Até 2030, representará apenas 3,5% do comércio mundial.
7 - Hong Kong

O comércio de 2050: US $8,5 trilhões
% do comércio mundial: 2.3%
Hong Kong, que não estava na lista top 10 em 2010, é esperado para saltar para o sétimo lugar em 2030 com 3,8 trilhões de dólares no comércio.
6 - Indonésia

O comércio de 2050: US $8,8 trilhões
% do comércio mundial: 3,1%
Indonésia faz presença na lista pela primeira vez em 2050, impulsionado pelo comércio com a China, Japão e a União Europeia.



5 - Coreia do Sul
O comércio de 2050: 9,7 trilhões de dólares
% do comércio mundial: 3,4%
A Coréia de 1,05 trilhão dólares representava 2,8% do comércio mundial em 2010. Até 2030, este valor é definido como subindo para US $4,7 trilhões e 3,8% do comércio mundial.




4 - Alemanha
O comércio de 2050: 9,9 trilhões de dólares
% do comércio mundial: 3,5%
A Alemanha de 2,86 trilhões de dólares contabilizava 7,6% do comércio mundial em 2010. Enquanto o comércio deverá para aumentar para US $5,8 trilhões em 2030, ela representará apenas 4,7% do comércio mundial.
3 - EUA
O comércio de 2050: 19,1 trilhões de dólares
% do comércio mundial: 6,6%
Os EUA, que é o atual líder global no comércio, representando um enorme 10,7% do comércio mundial, é definido como conta de apenas 8,2% do comércio mundial em 2030. Os EUA tem a perspectiva de perder terreno para a Índia e a China.
2 - Índia
O comércio de 2050: 25,7 trilhões de dólares
% do comércio mundial: 9%
A Índia, que não está no top 10 dos países líderes do comércio em 2010, é definida como conta de 2,8% do comércio mundial em 2015 e 5,6% em 2030.
1 - China
O comércio de 2050: 52,2 trilhões de dólares
% do comércio mundial: 18,2%
A China, que atualmente representa 9,5% do comércio mundial, com US $3,6 trilhões ultrapassará os Estados Unidos em 2015. Em 2030, com US $21,3 trilhões, ela representará 17,4% do comércio mundial.

Fonte: Citigroup (Nota: o relatório do Citigroup foi publicado originalmente em 18/10/2011)
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sexta-feira, 1 de junho de 2012

ILPf e Código Florestal no Fórum da ABAG, em Maringá.


Richard Jakubaszko
A ILPf, Integração Lavoura, Pecuária e Floresta, poderá criar a nova revolução agrícola, e foi debatida em Maringá, durante o XXIII Fórum Nacional da Abag, dia 18 de maio último, ante os olhares de mais de duas centenas de produtores rurais e também dos técnicos da extensão rural e assistência técnica da
Cocamar - Cooperativa Agroindustrial, sob a liderança de seu presidente, Luiz Lourenço.

(OBS. AO FINAL DESTE POST HÁ O INÍCIO DE UM DEBATE SOBRE OS BENEFÍCIOS DA ILPf, E ESPERO QUE TENHA CONTINUIDADE ENTRE OS LEITORES DESTE BLOG. UM DEBATE CRÍTICO E CONSTRUTIVO SÓ NOS FAZ CRESCER E COMPREENDER MELHOR AS QUESTÕES DA VIDA).

Estive por lá, a convite da Abag, junto com algumas dezenas de jornalistas, ciceroneados por Enio Campoi, da Mecânica de Comunicações. Posso antecipar, sem medo de errar, que foi o melhor, senão um dos melhores fóruns de todos os 23 já organizados pela Abag, e dos quais participei da maioria, desde o início.

Luiz Lourenço, enfatizou a todos para que “se unam em grande esforço” para difundir a ILPf – sistema que, apesar de preconizado pela Embrapa há quase duas décadas, e já praticado em algumas regiões, é ainda quase desconhecido da grande maioria dos produtores do Sul e Sudeste do País.


Conforme Lourenço, a região noroeste do Paraná (conhecida como Arenito) possui pelo menos 2,7 milhões de hectares de pastagens degradadas, de baixo retorno econômico, mas com potencial para sediar projetos de ILPf– o que significa cultivar soja no verão e, na mesma área, manter pecuária durante o inverno, usando como pasto o capim braquiária. É a braquiária que, ao ser dessecada semanas antes do cultivo da soja, proporciona palha e cobertura ao solo para o plantio direto, melhorando a qualidade do solo, não apenas nessa região do Noroeste do Paraná.


No Paraná, baseada em pesquisas do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), segundo o pesquisador Sérgio José Alves, há pelo menos 300 mil ha onde essa técnica regeneradora já é desenvolvida, mas que ele considera uma área ainda pequena. De acordo com o pesquisador, a tecnologia específica para a integração já está consolidada. “Mesmo em ano de clima ruim se ganha dinheiro com a ILPf”, incentiva Alves. A média de produtividade de soja, nos últimos anos, tem sido de 46 sacas por ha, com aumento do número de unidades animal (UA) de 1 para 2,5 no verão e de até 8 no inverno.

Na verdade, a única coisa que discordo é chamar de ILPf, pois deveria chamar-se o sistema de ILPs, com "s" de silvicultura, pois não se cultiva "floresta", na verdadeira acepção do termo. Fora a semântica, assino embaixo de tudo o que se falou por lá. Adicionalmente, acho que deveria haver créditos para investimentos específicos (máquinas, em especial) para se implementar a ILPf. O que se deveria ter em mente é que são os agricultores quem mais estão aderindo à ILPf, enquanto os pecuaristas são minoria na adesão, e estes não possuem as máquinas (tratores, arados, grades e plantadeiras-adubadeiras) para a ILPf.


O produtor  rural César Formighieri, da cidade de Maria Helena, foi um dos palestrantes do fórum. Considerado produtor modelo em integração no Paraná, possui 500 hectares onde cultiva soja há 10 anos, e mantém pecuária de corte, investe no leite e no plantio de eucalipto. De acordo com ele, as pastagens eram totalmente degradadas e hoje estão recuperadas, com a produção rentável. “O solo recuperado é garantia de sucesso na agricultura e pecuária”, disse ele, pois "a soja recupera o solo melhor que a gramínea".


No Brasil, conforme o pesquisador João Kluthcouski, da Embrapa, há 2 milhões de ha onde é feita alguma forma de integração. Ele apresentou, no evento, um estudo sobre a Fazenda Santa Brígida, de Ipameri (GO), onde a própria Embrapa vem acompanhando, desde 2006, um amplo programa de ILPf. Hoje, essa área é considerada referência no país, com produção de soja, carne e eucalipto onde, além da madeira, se aproveita o sombreamento para o bem-estar animal. “Nosso grande negócio é fazer pecuária verde. Nós somos um país quase continental e ainda com pelo menos 100 milhões de ha de pastagens ruins, que são vistos como uma oportunidade”.


O XXIII Fórum da Abag contou também com a participação de duas personalidades que são a própria história do plantio direto no Brasil: os mitos Herbert Bartz, de Rolândia, e Frank Dijkstra, de Carambeí, PR. Eles falaram sobre o desenvolvimento do PD, que hoje contabiliza mais de 25 milhões de ha no Brasil, preservando os solos. Fazia algum tempo que eu não me encontrava com esta dupla de pioneiros. Além das evidências do tempo, que passa para todos, constatei que o português do holandês Dijkstra está cada vez melhor, enquanto que o sotaque holando-caboclo do brasileiro Bartz se acentuou.

Já o vice-presidente de agronegócios do Banco do Brasil, Osmar Dias, abordou a perspectiva de crescimento da demanda internacional por alimentos nos próximos anos para justificar a oportunidade que os produtores brasileiros têm de investir em novas técnicas. Nos próximos dez anos, segundo ele, vai haver necessidade de 20% a mais de alimentos, por causa do crescimento da população, e 40% desse volume terá que sair do Brasil, segundo a FAO. Dias informou que o programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC) do governo federal está disponível a juros de 6,75% ao ano, com 8 a 12 anos para quitação. “O agricultor que não fizer integração terá dificuldades para sobreviver, pois ele precisa investir na eficácia produtiva”, disse.


Osmar Dias revelou à plateia ter encaminhado para a Presidência da República uma sugestão sobre as APPs em beiras de rios, mas a sugestão, pelo jeito, não pegou. É tão simples e cabocla, quanto inteligente. A questão da metragem seria assim, sempre pela largura do rio: se o rio tiver 10 metros de largura, teria 5 metros de APP em cada margem, é meio a meio. Se tiver 50 metros, 25 de APP para cada lado, até atingir 100 m de APP, para rios com 200 ou mais metros de largura. Não vingou, como vimos, pois o emocional predominou, fosse na votação no Congresso como nos vetos da Presidência.

No XXIII Fórum da Abag a plateia esteve recheada de empresários e líderes do agronegócio, a destacar-se a presença de Paulo Herrmann, diretor de Vendas América Latina da John Deere, e Laércio Giampani, presidente da Syngenta CropScience, que são líderes hoje, em parceria com a Embrapa, da Rede de Fomento, uma ideia-conceito que ainda vai dar o que falar. Anotei, ainda, a presença no fórum, de José Cassiano Gomes dos Reis Jr, superintendente da SRB, Fabrício Morais, presidente da Jumil, de Marize Porto Costa, proprietária da Fazenda Santa Brígida, de Maria Iraclézia de Araújo, presidente da Sociedade Rural de Maringá, Francisco Matturro, José Roberto R. Peres, chefe geral da Embrapa Cerrados, entre muitos outros.

O presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), Luiz Carlos Corrêa de Carvalho, mais conhecido como Caio, ressaltou a importância da realização de fóruns como esse para difundir informação e conhecimento aos produtores. “Este é o modelo sustentável que o Brasil vai apresentar na Rio+20 (a conferência mundial sobre o clima, a realizar-se neste mês de junho no Rio de Janeiro). O protagonismo do país é a grande discussão da sociedade brasileira este ano. Mas a integração é muito mais que isto: ela tem o poder de transformar economicamente uma região”, finalizou.


DEBATE:

Caro Richard:
Com relação à postagem acima sobre o encontro em Maringá, com destaque para a ILPF, submeto excerto de carta a eng agr. alto funcionário do MAPA, bem como crônica de minha autoria analisando a matéria.
Grande abraço,
Fernando Penteado Cardoso

Excerto:
“Mas não é só isso: acho que a EMBRAPA está se arriscando muito com a pastagem sombreada antes de ter observações quantificadas.
Por enquanto é apenas uma tecnologia desiderativa, relegando dados preliminares obtidos em Sete Lagoas na Embrapa-Milho e Sorgo, segundo ouvi dizer.
Uma pena, pois pode vir a comprometer o renome da instituição e, por tabela, o conceito de nossa classe...
Mas, para compensar, temos o conforto da gauchada valente que vem progredindo e construindo graças às “leis que não pegam”.

INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA-FLORESTA
Fernando Penteado Cardoso*
Estão na moda os palavreados ambiciosos “lavoura-pecuária-floresta-ILPF” ou “agro-silvo-pastoril”. O que significam ou o que podem significar?

Tudo começou alguns anos atrás com a expressão “integração lavoura pecuária-ILP” que foi definida como a sucessão alternada de atividades agrícolas e pecuárias na mesma área.
Importante ser na mesma área, pois se uma fazenda se dedica a lavouras e a criações em áreas separadas, ela tem essas atividades paralelas, mas não integradas.
A integração acontece quando as duas atividades - agrícola e pecuária - se alternam, se sucedem, se interagem, se integram e se completam em uma mesma área.

Um exemplo de ILP bem sucedido é o do produtor Ake van der Vinne, em Maracajú/MS, onde no verão a sucessão anual é soja>soja>milho>pasto e no inverno pasto>pasto>pasto>pasto. Nesse sistema, a cada 4 anos um hectare em rotação produz  em média 120 sc de soja (2 safras), 100 sc de milho e 1.000 kg de ganho de peso vivo-GPV.
Outra aferição bem sucedida foi relatada pela Granja JAE, St. Inácio/PR, onde, por 6 anos consecutivos, foi comprovada a produção anual de 2.000 litros de leite ou de 300 kg de GPV por hectare durante o inverno, no intervalo entre  culturas de soja de verão.
Nesses dois exemplos, o sistema assegura ainda um volume satisfatório de fitomassa para o plantio direto subsequente. Nos dois casos, pecuária e lavoura se alternam na mesma área.

De uns anos para cá a EMBRAPA vem incentivando o plantio de renques de 2 a 3 linhas de eucalipto ou outra espécie arbórea separadas de 25 a 27 m. Nos primeiros 2 anos cultiva-se soja ou outro cereal no intervalo entre os renques. No final do 2º ano semeia-se capim, geralmente uma Brachiaria, iniciando-se então um sistema permanente de pasto sombreado.
Não se trata de uma integração por falta de rotatividade e de alternância. Poderá, quando muito, ser classificada de silvo-pastoril, sem que a lavoura faça parte do sistema.

Os pastos sombreados não constituem novidade. Anos atrás a CMM do grupo Votorantim patrocinou experimentos e observações em Vazante, no NO de Minas Gerais, mas o trabalho foi descontinuado antes de concluído. Outras descrições em Paragominas/PA e no Estado de MS são pouco conclusivas quanto aos resultados anuais de ganho de peso, embora apresentem simulações e estimativas favoráveis.

Nos anos 1990 diversos criadores na região de Dourados/MS iniciaram o plantio de renques de Leucaena ocupando cerca de 50% da área de piquetes em rotação, com sombreamento intenso na área arbustiva rebrotada. Os intervalos entre os renques eram semeados com capim, permitindo que os animais pastoreassem a gramínea e os brotos e folhas da leguminosa. Inicialmente houve grande entusiasmo dos criadores, mas, pouco a pouco o sistema foi relegado, seja por dificuldades de manejo, seja por não compensar economicamente.

A forragem à sombra é menos palatável nas águas, o capim é mais tenro e bem aceito na seca e a faixa lindeira aos bosques é prejudicada pela forte competição até uma largura de 10 a 15 m. Estas observações são de conhecimento geral dos que convivem com o ambiente rural.

Seja pelo sombreamento, seja pela competição por nutrientes e água, a produção de fitomassa forrageira à sombra pode vir a ser limitada, desconhecendo-se pelo momento o GPV  anual por unidade de área. Os custos de implantação são, por sua vez, muito variáveis, dependendo de inúmeros fatores locais, inclusive da infestação inços e de formigas cortadeiras.

A redução da produção animal é até certo ponto compensada pelo crescimento de fustes com valor comercial para celulose, carvão ou madeira, mas o resultado econômico por hectare entre produção animal e vegetal não foi ainda determinado.

O que deve ficar bem claro é que a integração lavoura/pecuária está bem comprovada e dimensionada, mas ao se introduzir árvores permanentes o sistema torna-se mal conhecido, em que pese o entusiasmo desiderativo dos que o apregoam antes de ter aferições convincentes.

Dias de Campo festivos divulgam as iniciativas ditas agro-silvo-pastoris enquanto satisfazem a curiosidade dos interessados e envaidecem tanto os técnicos promotores, como os proprietários gratificados.

Vale aqui lembrar o preceito de Lord Kelvin enunciado no século 19: “A menos que você possa medir alguma coisa e descreve-la com números, você está apenas começando a compreendê-la”.

É admissível a hipótese de que ao final de alguns anos os agropecuaristas cheguem à conclusão de que seria melhor ter pastagem e reflorestamento em separado. O futuro dirá.

* Eng. Agr. Sênior-ESALQ-USP 1936- Fundador e ex-presidente da Manah S.A. e da Fundação Agrisus. Produtor rural em Mogi Mirim/SP.

COMENTÁRIOS DO BLOGUEIRO:
Dr. Fernando Penteado Cardoso, muito obrigado por seus comentários, sempre relevantes, diretos e objetivos. Sua presença neste blog, em forma de comentários, muito me honra. 
Especificamente no caso da ILPf tenho a colocar algumas premissas, talvez diferentes de sua ótica e objetividade prática, para incentivar um debate positivo nessa questão.
Tenho a ILPf como regeneradora de solos (e pastagens) degradados. A ILPf é um conceito, mas de uso prático, que permite recuperar esses pastos, com investimentos moderados, melhorando a produtividade desses solos degradados e compactados. Não vejo a ILPf como solução prática para áreas de plantio de lavouras já produtivas, e nem tampouco para substituir pastos bem conduzidos. A região do Arenito, no Noroeste do PR, é um bom exemplo, onde pastos mal manejados diante das condições edafo-climáticas aceleraram a degradação. As tentativas de se plantar mandioca naqueles solos arenosos levaram a uma degradação ainda maior, provocando vossorocas quase impossíveis de serem recuperadas, pelo menos quanto à realidade econômica, no sentido de proporcionar lucros aos investimentos necessários, em curto ou médio prazos.


Nesse sentido a ILPf é, em minha modesta opinião, a salvação da lavoura, e dos pastos, para pelo menos 100 milhões de ha calculados pelos estatísticos, e que estão espalhados Brasil adentro. E estes têm sido ocupados por agricultores, em sua maioria, e não por pecuaristas, a quem falta a cultura e tradição de trabalhar a terra preservando-a para as gerações futuras.


Tratar a ILPf com um sentido prático e objetivo de lucros a curto prazo poderia, sem dúvida, colocar essa técnica como duvidosa.

Confesso que tinha dúvidas, em relação à ILPf, conforme seus argumentos, sobre o sombreamento. Seria, de acordo com suas palavras, em texto que já publiquei na DBO Agrotecnologia, "a descoberta da agricultura sem fotossíntese". Mudei de ideia ao analisar o argumento apresentado pelos especialistas, em especial dos agrônomos José Luís Coelho, da John Deere, e João Kluthcouski, da Embrapa, de que as árvores sejam plantadas em duas ou três linhas no sentido Leste-Oeste, o que reduz o sombreamento sobre pastos e lavouras, e traz conforto aos animais.

Tenho ainda uma questão em relação à "perenidade" do sistema ILPf, e que não me convenceu. Ou seja, depois de implantada, é difícil o retorno aos sistemas tradicionais de manejo do solo, seja em lavouras ou em pastos, pois os tocos remanescentes por lá (após os cortes de madeira) permaneceriam irretiráveis, no mínimo por 10 ou 15 anos. Nesse sentido a ILPf pode até recuperar solos degradados, mas obriga a sua continuidade e permanência. Daí a minha pergunta: o que é melhor? Recuperar os solos degradados ou continuar como está?


Este blog permenece com espaço em aberto para a continuidade do debate, pois não entendo como definitivas as colocações do Dr. Fernando Penteado Cardoso, muito menos as minhas.
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