terça-feira, 14 de março de 2017

Fotos campeãs, maravilhosas, dá gosto de ver.

Richard Jakubaszko 
O amigo e engenheiro agrônomo Hélio Casale vai se tornando fornecedor de primeira linha deste blog, especialmente em fotos fantásticas, que ele qualifica dizendo "dá gosto de ver essas fotos*"; vejam abaixo e concordem ou discordem:
 * Fotos ganhadoras de concursos de fotografia na Europa.
Achim Koepf - Antárctica

Alex Varani - Nap at work

Alexander Stewart - Bluebells in the Mist
Ali Al-Zaidi - Welcome to bajau
Angiolo Manetti - Ray of light
Dinh Hoa Ngo - People and sea

Enrique Lopez - Tapia Rain
Fiorenzo Carozzi - Nebbie mattutine
Germano  Miele - Eyes that you enter as arrows in the heart
Giuseppe Bonali - Specchio specchio
Juan Pixelecta Garca Lucas - Trees in love
Mamdooh Alsaleh - Motherhood
Mamdooh Alsaleh - Tom Sawyer
Marco Bartolini - Coraggio
Marco Tagliarino - ll riposo del cammelliere
Massimo Della Latta - Tappeti
Massimo Lanteri - The sisters
Nature Lake Bogoria by Franco Cappellari
Nature winner Showtime by Hasan Baglar
Noor Ahmed Gelal - Living in harmony
Open colour Braving the storm by Joseph Tam
Open colour winner Cappadocia balloon by Giulio Montini
Rucsandra Calin - For you
Saswati Chakraborty - Escape velocity
Tibor Kercz - Spring snack
Travel At prayer in Bagan Myanmar by Lim Chee Keong
Travel Coming to get salt by Jørgen Johanson
Travel Summer day on the French Riviera by Sebastien Nogier
Travel Sunrise at the Great Wall of China by Joseph Tam
Travel winner Jumping over the train Gazipur Bangladesh by Noor Ahmed Gelal
Yury Pustovoy - Sahara
On the river, by Vladimir Proshin
Simone Chierici - Snail reflection
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segunda-feira, 13 de março de 2017

É o Lula?


Publicado no Tijolaço: https://www.conversaafiada.com.br/politica/moro-e-o-lula

Lula recebeu 23 milhões na Suíça da Odebrecht?
Não, esse foi o Serra. Mais conhecido pelo codinome de "Careca", na lista de alcunhas da Odebrecht

Lula estava pagando pensão de um filho fora do casamento com dinheiro de instituição mencionada em operações de lavagem?
Não. Esse era o FHC.

Lula recebeu um milhão de reais em dinheiro vivo dentro de uma garagem?
Não. Esse é mais parecido com o relator do impeachment (farsa), Antônio Anastasia.

Lula é o cara chato que cobrava propina da UTC?
Não. Esse é parecido com o Aécio.

Lula recebia 1/3 da propina de Furnas?
Não. Esse é mais parecido com o Aécio também.

Lula recebeu 3% das obras da cidade administrativa de MG quando era governador, totalizando mais de R$ 30 milhões em propina?
Não. Esse também é mais parecido com o Aécio.

O helicóptero com 450 kg de cocaína era do amigo do Lula?
Não. Era do amigo do Aécio.

Lula comandava o Estado que roubou 1 bilhão do Metrô e da CPTM?
Não. Esses são o Serra, o Careca; e o Santo, o Alckmin.

Lula tá envolvido no roubo de 2 bilhões da merenda en São Paulo?
Não. Parece que foram o Santo e um tal de Fernando Capaz.

Lula pegou emprestado o jatinho do Youssef?
Não. Esse era o Álvaro Dias.

Lula foi o cara que montou o esquema Petrobras com Cerveró, Paulo Roberto Costa e Delcídio?
Não. Esse era o FHC.

Lula nomeou o genro presidente da Agência que mandava na Petrobras?
Não. Foi o FHC também.

Lula é o compadre do banqueiro André Esteves?
Não. Esse era o Aécio, de novo, que passou a lua de mel no hotel Waldorf Astoria, em NY, por conta do André Esteves.

Lula é meio-primo de Gregório Marin Preciado, aquele que levou US$15 milhões na venda de Pasadena?
Não. Esse é o Serra (aquele que a Lava a Jato apresenta com tarja preta para a imprensa).

Lula construiu aeroportos em terras particulares de parentes com dinheiro público?
Não. Esse foi o Aécio, conhecido pelo codinome Mineirinho.

Lula foi descoberto com uma dezena de contas no exterior, ameaçou testemunhas, prejudicou alguma investigação?
Não. Esse é o Cunha, sócio do Temer nos jabutis das Medidas Provisórias, segundo o Ciro.

Lula levou grana da Companhia Docas de Santos?
Não. Esse é o Temer, conhecido na lista de alcunhas da Lava Jato como MT.

Lula recebeu uma grana na salinha da Base Aérea de Brasília?
Não. Esse foi MT, segundo o Sergio Machado.

Lula ameaçou empresários, exigiu 5 milhões de dólares, só de um deles?
Não. Esse também é o Cunha, o homem da farsa do impeachment.

O filho do Lula aparece numa roubalheira na Petrobras?
Não. Esse foi o filhinho do FHC.

Lula comprou um apartamentaço em Higienópolis numa operação com o banqueiro Safidie que o MP de São Paulo procura e nunca vai achar? Lula passa as ferias no apartamentinho do Jovelino na Avenue Foche, em Paris?
Não. Esse é o FHC.

Quando saiu do Governo, Lula tinha uma fazendola em Minas, comprada com o amigão Serjão?
Não. Esse é o FHC, o melhor amigo do Serjão.

O filho do Lula aparece na revista de milionários Forbes?
Não. É a filha do Serra...

Lula deixou prescrever o escândalo da corrupção do Banestado, onde só tinha tucano?
Não, esse é o juiz Moro.

Isso é para quem acha que Moro e sua turma querem combater a corrupção.

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domingo, 12 de março de 2017

O nada e o ódio

Eliane Brum *

As mortes de Maria e de Marisa expõem a tragédia de ontem e a de hoje
Acaba de completar um mês da morte de Marisa Letícia Lula da Silva. E na sexta-feira, 3 de março, sua memória era objeto de disputa: o juiz Sérgio Moro arquivou as acusações contra ela na ação penal da Lava Jato que envolve o triplex de Guarujá, como determina a lei em caso de falecimento, mas decretou apenas “a extinção de punibilidade”. A defesa afirmou que vai questionar a decisão porque o juiz deveria ter decretado também a “absolvição sumária”. A disputa não é apenas semântica ou jurídica, mas política. A morte de Marisa, esta que se tornou exposta, revela muito do que se tornou o Brasil. Tanto quanto, mais de 40 anos atrás, a morte de Maria de Lourdes, a primeira mulher do ex-presidente, revelava pelo avesso o que éramos e ainda somos. Há algo que une essas duas mortes para além de Lula. Algo que fala de corpos objetificados e de invisibilidades.

A morte de Maria de Lourdes Ribeiro da Silva só ganhou existência fora das estatísticas como citação na biografia do marido depois que ele ficou famoso. Ela morreu 15 minutos depois de o bebê de sete meses ser arrancado a fórceps do seu corpo. No atestado de óbito constava “coma hepático, provável hepatite”. No do menino, “morte intrauterina”. Maria de Lourdes morreu só, no Hospital Modelo, em São Paulo. “Estou morrendo. Eles vão me deixar morrer. Não me deixa sozinha”, ela disse à Soledade, sua cunhada, a última pessoa da família a vê-la com vida. Mas os médicos não permitiram que nenhum familiar permanecesse com ela. Maria, a irmã mais velha de Lula, foi quem a vestiu para o velório. Encontrou-a “ensanguentada e cortada”, ao lado do bebê morto. Quando Lula chegou, com a mala de roupinhas da criança, foi informado: “Sua mulher está morta. Seu filho também”.

Em 2003, procurei os médicos que a atenderam para uma reportagem. Um deles, Sérgio Belmiro Acquesta, gerente do departamento médico da Villares, metalúrgica onde Lula trabalhava, já tinha morrido. Ele também era legista do Instituto Médico Legal de São Paulo e chegou a ser acusado de assinar dois laudos falsos para a ditadura. O outro médico da Villares, que fez o pré-natal de Maria de Lourdes e cuidou de sua internação, disse não se lembrar dela: “Eu atendia 30 mulheres todo dia no ambulatório, mais outro tanto no hospital. Tudo isso em quatro horas”. O médico do bairro também afirmou não recordar de nada: “Atendo 30 pessoas por dia e só guardo as fichas por cinco anos”. A chefe do berçário do hospital naquele período afirmou só lembrar “de um feto morto e de uma mulher com infecção de qualquer coisa”. E explicou o porquê: “Todas elas gritam na maternidade, isso não chamava atenção. Lula não era famoso, a gente lembra do pessoal mais classificado. Pobre, sabe como é, a gente trata bem mas não tem aquela recomendação exagerada”.

Nas semanas antes de morrer, Maria de Lourdes procurou os médicos da Villares e do bairro várias vezes, queixando-se que tinha “uma fogueira no estômago”. Vomitava tudo o que comia. Ouvia deles que gravidez era assim, “dava enjoo”. Sua mãe contou que mandavam que ela caminhasse e comesse gelatina. Quando finalmente foi internada, a mãe pediu ajuda a um dos médicos, porque Maria de Lourdes estava desesperada de dor. Ele respondeu: “A senhora nunca teve um filho? Ela está com dor de parto, é normal. Está no isolamento por causa da hepatite, mas a dor é normal”. Em entrevista para a biografia Lula, o filho do Brasil, escrita por Denise Paraná, Lula disse: “Ninguém me tira da cabeça que ela morreu por negligência. Como ela morrem milhões sem atendimento neste país”.

Maria de Lourdes era então só mais uma Maria. Que, como tantas Marias, gritava de dor. E não pertencia ao “pessoal mais classificado”. O que os relatos contam é que sua dor não seria dela, mas das mulheres, estas que têm por característica sofrer na gravidez e no parto. Uma dor tão naturalizada que a doença que a levou ao coma hepático sequer foi investigada. A ideia de que todo sofrimento é natural apagou a singularidade da sua dor e liberou os médicos de escutá-la. “Todas elas gritam” é uma frase profunda, que conta de uma história de opressão. No Ocidente, atravessada pela moral cristã que coloca na mulher o pecado original e a dor do parto como uma de suas punições, do mesmo modo que idealiza a maternidade como a vocação maior de uma mulher e a sua realização máxima. A dor de Maria de Lourdes era invisível, sua voz era inaudível. E assim ela morreu aos 22 anos. E morreu como objeto.

E Marisa, esta que morreu um mês atrás na arena pública? À primeira vista, pode-se pensar que ela foi visível. E visível até demais. Mas o excesso de exposição pode ser uma forma mais sofisticada de invisibilidade. Ao contrário de Maria de Lourdes, Marisa foi tratada num dos melhores hospitais privados do Brasil, o Sírio-Libanês, em São Paulo. E chegou até lá com esse título bastante controverso, de “ex-primeira-dama”. Primeira dama do presidente mais popular da história recente do Brasil, hoje réu da Lava Jato e alvo de ódio de uma parcela da população. Nesta condição, Marisa, que aos 66 anos sofreu um AVC e recebeu o melhor tratamento disponível, do ponto de vista técnico, também foi reduzida a objeto.

É importante lembrar. Uma médica do hospital, que depois seria demitida, vazou dados do prontuário de Marisa num grupo de médicos no WhatsApp. Ao comentar que ela ainda não tinha sido levada para a UTI, um residente em urologia de outro hospital comentou: “Ainda bem!”. E a médica respondeu com risadas. Outro médico, este neurocirurgião, escreveu: “Esses fdp vão embolizar ainda por cima”. Ele referia-se ao procedimento de provocar o fechamento de um vaso sanguíneo para diminuir o fluxo de sangue num local determinado. O médico então completou: “Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”.

Marisa ali não era uma pessoa em processo de morte. Mas um objeto de transferência, um repositório do ódio a Lula. E seguiria sendo mesmo após a sua morte. Os falsários de notícias disseminaram pela internet a “denúncia” de que ela não havia morrido, mas sim fugido para o exterior para não responder às acusações da Lava Jato. A morte, segundo uma das mentiras circulantes, seria uma encenação para que ela pudesse ficar impune. Apesar de toda visibilidade que o velório teve na mídia, sites de notícias falsas sustentaram que o caixão estava lacrado e chegaram a publicar uma foto de Marisa na Itália, feita em 2005, como se ela tivesse sido flagrada naquele momento. Outra variante eram as mensagens nas redes sociais que pediam a intervenção das Forças Armadas para fazer um exame de DNA no corpo. Tratava-se ali de interditar a possibilidade de identificação com Lula num momento de dor. Marisa era coisa. E, como coisa, não tinha vida nem morte. Podia ser colocada onde fosse mais conveniente. Animada artificialmente.

É preciso lembrar destas duas mulheres porque a melhor maneira de arrancar pessoas do lugar de objeto é lhes devolvendo a história. Se elas ganharam uma dimensão pública por conta da excepcionalidade do homem com quem se casaram, elas nasceram e viveram e criaram uma vida bem antes de conhecê-lo. E a complexidade do que foram impactou o homem público que Lula se tornou para muito além do que é dito e reconhecido. E, no caso de Marisa, impactou capítulos recentes da vida do Brasil, na qual ela possivelmente foi bem mais do que uma personagem secundária. Mas, quando essa narrativa está numa disputa tão feroz como a de agora, com simplificações de parte a parte na qual se busca o que melhor sirva a um propósito, a complexidade se perde. E assim perdemos todos.

Há algo de trágico na morte de Maria e de Marisa, mas esta tragédia diz respeito menos a elas e mais ao que somos e ao que nos tornamos como sociedade. É preciso lembrar antes que nossa vida de espasmo em espasmo apague a extrema gravidade do que foi exposto. E do que segue em vigor. É preciso fazer memória para resistir ao apagamento. E resistir à normalização do ódio.

Maria de Lourdes pertencia ao vasto grupo dos morríveis – e dos matáveis. Seu sofrimento não produzia escuta, sua morte era um nada. Para além da dor daqueles que a amavam, uma mulher de 22 anos morrer por “provável hepatite” quando estava grávida não produzia espanto, só indiferença. Sua morte não produziu nem mesmo uma marca na memória dos que dela deveriam ter cuidado.

Já Marisa, com a ascensão política de Lula, deixou o grupo dos que podem morrer sem causar alarde, mas as mensagens nas redes sociais mostram que para muitos ela não deveria estar no Sírio-Libanês. O hospital dos mais ricos não era o lugar dela. Enquanto a morte de Maria nada move, porque ela morreu “no seu lugar”, o tratamento de ponta dispensado à Marisa gera ódio, porque ela ousou mudar de lugar. Colocou-se no lugar do “pessoal mais classificado”, lembrando as palavras que a enfermeira usou para explicar por que as mulheres pobres não recebiam uma “recomendação exagerada”. Ao fazê-lo, quebrou a hierarquia de classes. E foi vítima de ódio.

Mas até mesmo no ódio Marisa é objetificada. Porque o ódio é para ele, e não para ela. Seu corpo que morre é apenas o objeto transferencial do ódio destinado ao seu marido. O que médicos fizeram no WhatsApp e o que os falsários de notícias fizeram na internet são uma demonstração de que todos os limites foram rompidos. Se resta algo do que se pode chamar, na falta de palavra melhor, de pacto civilizatório, é talvez uma última trama bem esgarçada. Somos uma sociedade de linchadores, movida pela vontade de destruição do outro. Não há mais espaço para adversários, só existem inimigos.

Aqueles que gozam com a desumanização do outro – distorcem, mentem, manipulam – talvez não tenham entendido que na barbárie não se salva ninguém. Acreditam estar apenas jogando seus jogos pueris, exibindo-se para a turma, como os médicos no WhatsApp, mas não compreenderam que o fio sobre o qual se equilibram se desfaz. Quando se presta atenção ao discurso dessas mensagens, neste e em outros casos, percebe-se que contêm uma crueldade, sim, mas infantilizada. São adultos infantilizados. E isso também é bastante perigoso, porque neste lugar não há responsabilização.

Maria e Marisa viveram existências duras, vidas de mulheres pobres. Maria de Lourdes migrou de Minas Gerais com a família. O pai era um agricultor doente dos pulmões. Seu primeiro sapato foi comprado pouco antes de pegarem o trem para São Paulo. Na primeira noite na cidade, ela teve febre. A família conta que o pai colocou os filhos nas filas que encontrou na Estação da Luz, pensando que era comida. Mas era vacina, e o braço da pequena Maria, com três anos, inchou.

Anos depois, as famílias dela e de Lula seriam vizinhas, e ela dizia ter pena “do moço que tinha perdido um dedo”. Desde os 16 anos, Maria de Lourdes trabalhava como operária numa tecelagem. Levou uma semana para aceitar o pedido de namoro feito num bailinho. Quando pouco antes de se casarem Lula anunciou que pensava em participar da chapa do sindicato, ela foi se aconselhar com os patrões. Ouviu deles que era perigoso, “encrenca certa com a polícia”. Lula discordou.

Filha de um agricultor e de uma benzedeira, Marisa começou a trabalhar aos 9 anos como babá. Aos 13, embalava bombons numa fábrica. Seu primeiro marido dirigia um táxi quando foi assassinado num assalto. Marisa estava grávida do primeiro filho. Quando conheceu Lula, ela vivia um momento de extrema dificuldade. O episódio é romantizado porque virou uma história de amor, mas ele revela bastante sobre o machismo vigente e generalizado do movimento sindical da época. Lula havia deixado a ordem de que, quando aparecesse uma “viuvinha nova, bonita”, que o chamassem. Marisa precisava “pegar o carimbo” para poder liberar a pensão do marido. Mas como Lula queria sair com ela, fez com que voltasse ao sindicato várias vezes alegando que a lei tinha mudado. Depois, chantageou-a para conseguir seu telefone.

Marisa tinha personalidade forte e muita influência sobre Lula. Não era de medir palavras. Mas na campanha de 2002 e, durante todo o seu período como primeira-dama, foi blindada. Dela, quase nada se sabe além do que se considerou conveniente falar sobre sua vida. Na quarta campanha presidencial, a que Lula finalmente venceu pela primeira vez, ela cumpria os compromissos públicos com as mãos visivelmente trêmulas e enorme timidez. Em geral acompanhada pelo filho Fábio Luís, o Lulinha. Tinha então uma explicação recorrente, talvez orientada por um marqueteiro: “Não estou nervosa, estou emocionada”.

Dela se contava uma história que ecoa a do triplex do Guarujá, esta última ainda sem conclusão. Em 1989, quando Lula disputou sua primeira eleição para presidente, foram plantados vários boatos de que ele tinha uma mansão no Morumbi, então o bairro que mais representava uma ostentação emergente. Marisa teria pegado um táxi e ouvido essa história do motorista. Pediu então que ele a levasse até a casa chique de Lula. O motorista recuou. Ela então teria dito: “Ah, que pena. Eu sou a mulher do Lula e queria tomar posse do que é meu”. Quando conheceu Brasília, em 1980, e botou os olhos nas mansões do Lago Paranoá, Marisa vaticinou: “Esses caras não vão deixar você chegar ao poder nunca. Fazem qualquer coisa, mas não abandonam essa vida”.

Enquanto crescia a expressão pública de Lula, Marisa foi se tornando para o público a mulher muda. Aquela que só falava da porta da casa (ou do Alvorada) para dentro, a que reinava no mundo doméstico, aquele que seria invadido pela Polícia Federal um ano atrás para a “condução coercitiva” de Lula. O momento em que o Brasil mais ouviu a sua voz foi justamente num episódio de violação de seus direitos, quando uma conversa grampeada pela Polícia Federal vazou. Marisa conversava com o filho Fábio Luís sobre um panelaço contra o PT e desabafou: “Deviam enfiar essas panelas no cu!”. A frase ganhou chamadas na imprensa, o áudio foi para o YouTube. Seria interessante saber daqueles que se escandalizaram quantos não disseram algo semelhante numa conversa privada. E como se sentiriam se suas conversas privadas com familiares fossem expostas publicamente.

Quando Marisa morreu, seu obituário foi composto por fragmentos pinçados da vida de uma mulher lançada na arena pública, mas que o público pouco conhece de fato. “Costurou a estrela da primeira bandeira do PT”, “primeira-dama de perfil discreto”, “foi criticada quando plantou um canteiro de flores vermelhas em formato de estrela no jardim do Alvorada”. Neste momento de intensa disputa, só se conhece de Marisa o que convém de um lado e outro. E com isso se perde sua complexidade, mas também o pedaço da história que ela testemunhou, assim como o seu real papel nela.

Maria e Marisa tiveram despedidas muito diferentes. Maria de Lourdes foi velada em casa. A certa altura sua mãe passou mal. O médico do bairro foi chamado. Ela rasgou a camisa dele com as unhas em desespero. Era uma casa pobre, precária, em reformas para abrigar o quarto do bebê que chegaria em breve. Numa daquelas cenas em que a realidade supera a ficção, o peso do caixão fez com que o assoalho afundasse. Parecia realismo mágico, mas era vida.

Marisa teve um caixão vistoso, reverenciado por milhares no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo. Na parede, uma ampliação gigante de uma fotografia dela com Lula. Havia pessoas ilustres e discursos inflamados. Enquanto isso, na internet, os falsários de notícias espalhavam que ela estava na Europa. O ódio era tanto que era preciso transformá-la numa morta viva para que pudessem continuar destruindo-a. E assim forjou-se uma cena em que a realidade supera a ficção, mas de uma forma perversa, já que se cria uma mentira (o que é bem diferente da ficção) para colocar no lugar da realidade.

São despedidas tão diferentes, a de Maria e Marisa. Mas ambas seguem invisíveis. A tragédia maior, a que vai muito além destas duas mulheres, é que a indiferença reservada à Maria, o nada de sua morte, segue em vigor. E o ódio reservado à Marisa mostra que pioramos.

É importante perceber onde hoje existe potência. E especialmente a potência de criar pactos que permitam recriar os laços sociais. Prepara-se para esta quarta-feira, 8 de Março, uma greve internacional de mulheres, organizada por ativistas de mais de 40 países. O movimento surgiu a partir das greves feitas na Polônia e na Argentina no ano passado (escrevo sobre elas aqui) e também a partir da marcha das mulheres contra Trump, nos Estados Unidos, assim como outras manifestações pelo mundo. Os manifestos e convocatórias propõem um novo ciclo do feminismo, capaz de articular várias lutas. Esta agenda expandida é a parte mais interessante: as mulheres na produção, no trabalho remunerado, reivindicando melhores condições de trabalho e salários equivalentes, mas as mulheres também no trabalho não remunerado dentro de casa e no trabalho da reprodução, reivindicando direitos reprodutivos; as mulheres contra o feminicídio, contra a violência doméstica, contra o estupro e outras violências de gênero, mas também um feminismo contra o racismo, a xenofobia, a homofobia e a transfobia. É também uma posição contra “o ataque neoliberal em curso sobre os direitos sociais e trabalhistas”, como diz o manifesto assinado por intelectuais americanas, entre elas Angela Davis. A internacionalização da greve é geográfica, mas também simbólica: ela supera as fronteiras ao propor um feminismo atravessado por todas as questões cruciais deste tempo. Assim, as convocatórias estão chamando todas as mulheres, o que significa incluir também as mulheres trans. No Brasil, onde há articulações significativas em algumas cidades e quase inexistentes em outras, é forte a oposição à reforma da previdência proposta pelo governo Temer, já que ela poderá ter grande impacto sobre todos e especialmente sobre as mulheres mais pobres, a maioria delas negras. Mas, como qualquer movimento que pretenda ganhar as ruas, o que de fato acontecerá neste 8 de março é uma incógnita. Ni Una Menos, o mote da greve argentina, se expandiu pelo mundo. Nem uma a menos é um pacto de vida. É também um pacto contra o ódio.

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A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie escreveu um pequeno livro-manifesto chamado Para educar crianças feministas (Companhia das Letras). O livro, que chega nesta terça-feira (7/3) às livrarias do Brasil e do mundo, é escrito na forma de uma carta a uma amiga, mãe de uma menina, mas tudo o que ela diz obviamente vale para crianças de qualquer gênero. A escritora deixa claro o que entende por feminismo: “Ser feminista é como estar grávida. Ou se é ou não se é. Ou você acredita na plena igualdade entre homens e mulheres. Ou não”. Ela dá 15 sugestões para criar uma criança feminista. E talvez a mais transgressora delas, nestes tempos em que a ignorância se tornou popular, seja a quinta: “Ensine-lhe o gosto pelos livros. (...) Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo o que ela quiser ser”.

* Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum 


Publicado originalmente no site do El País: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/06/opinion/1488822564_205808.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM
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sexta-feira, 10 de março de 2017

Xadrez: a imortal partida com oferta da Rainha

Richard Jakubaszko 
Algumas partidas de xadrez são eternas. A disputa do game,
feita nos anos 1920, exibida no vídeo abaixo, e comentada por um veterano especialista, é exemplo disso, nos EUA, entre Adams x Torre, e mostra a "oferta insistente e desinteressada" da Rainha branca ao player das pretas. A fuga das pretas para evitar comer a Rainha é hilária... Até que o inevitável xeque-mate acabou acontecendo...

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quinta-feira, 9 de março de 2017

Fiz o Brasil desmanchar e vou me aposentar. É o barbeta da Lava Jato

Fernando Brito *


O procurador Carlos Fernando de Souza, mentor e decano da garotada da Lava Jato, volta a deitar falação aos jornais, do alto de sua cátedra de “ciência política”, para dizer que o problema brasileiro é “um sistema político disfuncional”.

Jogue-se fora todas as décadas de estudo sobre economia e sociologia, o problema estrutural do Brasil é a corrupção, não a dependência, o atraso, a marginalização das massas, a drenagem dos recursos naturais, o talhe excludente de uma sociedade de castas, sem mobilidade social – exceto para a microparcela que ascende pelo marajanato estatal – e nada disso.

Há uma nova corrente de política econômica propondo um milagre para salvar o Brasil.

“Precisamos resolver isso. É possível manter um bom desempenho econômico por um, dois, cinco anos por conta de commodities, boom no exterior, entrada de dólares. Mas basta uma queda, e o sistema político disfuncional vai se revelar e desestabilizar a situação.”

Donde precisa menos mesmo é de uma “revolução dos puros” onde os homens “honestos” devam ter, como recomendou a Ministra Cármem Lúcia, a ousadia dos canalhas. E, acrescente-se, a indiferença dos cínicos.

À testa dela, o um homem implacável, onde a condenação precede i julgamento e a convicção dispensa a prova, Sérgio Stálin Moro, que mandará os “disfuncionais” para a cadeia até que se verguem à lógica de que Moro é o Senhor e a salvação, o caminho a verdade e a vida.

Em nome desse fundamentalismo, exponenciou-se a dificuldade da economia brasileira: centenas de milhares de desempregados, setores industriais (como o naval) arruinados, um impacto negativo que em 2015 já se calculava em 3,5% do PIB – imagine-se hoje! – e agora, o nosso “cavaleiro do Apocalipse”, com o país arruinado, mas muito bem remunerado e com a garantia vitalícia de seus polpudos vencimentos funcionais (ou disfuncionais?), aos 52 anos, anuncia que está prestes a se aposentar, certamente para tocar uma banca de advocacia bem sucedida, porque “o herói da Lava Jato” cai muitíssimo bem no cartão de visitas.

É uma versão político-jurídica do clássico de Neville D’Almeida: “Matou a família e foi ao cinema”.

Se o doutor Carlos Francisco quiser saber como é a história, pode perguntar ao jurisconsulto Alexandre Frota, fã da Lava Jato, que trabalhou no filme.

* o autor é jornalista, editor do blog Tijolaço.

Publicado originalmente em http://www.tijolaco.com.br/blog/fiz-o-brasil-desmanchar-e-vou-me-aposentar-e-o-barbeta-da-lava-jato/

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quarta-feira, 8 de março de 2017

Agro DBO: a supersafra pode ir por água abaixo?

Richard Jakubaszko

A supersafra está a caminho, ou pode ir por água abaixo? É uma das questões abordadas no vídeo abaixo, sobre a revista Agro DBO que trata do tema em matéria de capa autoria do jornalista Ariosto Mesquita.

O ministro Blairo Maggi, a quem entrevistamos, dá seus pitacos sobre venda de terras a estrangeiros, diversificação da produção agrícola na pauta de exportações, e especialmente sobre o seguro de renda, que pode vir já com o próximo Plano Safra. O ex-ministro Paolinelli, também entrevistado, explica como seriam os mecanismos do seguro de renda.


Na edição, ainda, artigo do polêmico engenheiro agrônomo T. Yamada, no segundo texto da trilogia "Síndrome das raízes atrofiadas", que baixa a produtividade da soja, porque causa a toxidez dos solos pelo alumínio.

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terça-feira, 7 de março de 2017

O domínio do fato vem aí, de novo...

Richard Jakubaszko 
Conforme Bob Fernandes, no vídeo abaixo, publicado ontem na TV Gazeta, a Justiça brasileira e seus vazamentos seletivos trabalha para ajustar o pente fino de seus julgamentos e apontar quem teve propinas ilegais e quem recebeu doações diretas da sacristia.
Uma pândega! Será que teremos outra decisão na base do "tinha que saber"?


Parece que o domínio do fato vem aí de novo...

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segunda-feira, 6 de março de 2017

Solta o cano que não cai...

Richard Jakubaszko 
Hilária e realista a marchinha carnavalesca do vídeo abaixo, homenagem aos tucanos paulistas.

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domingo, 5 de março de 2017

Sermão da terceira quarta-feira da Quaresma

Evaristo Eduardo de Miranda *
Um trecho do "imperador da língua portuguesa". Próximo de como ele o escreveu. Para ler lentamente, relendo. Quaresmal.


Sermão da terceira quarta-feira da Quaresma
Padre Antônio Vieira

“Ou mereceis os prêmios, que vos faltam, e com que vos faltam, ou não: se os não mereceis. não tendes de que vos queixar: se os mereceis, muito menos. Ainda não sabíeis que não há virtude, nem merecimento, sem prêmio? Assim como o vício é o castigo, assim a virtude é o prêmio de si mesma. O maior prêmio das ações heroicas é fazê-las. Com melhores palavras o disse Séneca, porque falava em melhor língua: Quid consequar (inquis) si hoc fortiter, si hoc grate fecero? Quod feceris: Se me perguntas que hás de conseguir pelo que fizeste. Ou forte, ou gênero prêmio aumente, respondo-te que tê-lo feito. Rerum honestarum pretium in ipsis est. O prêmio das ações honradas, elas o têm em si, e o levam logo consigo; nem tarda, nem espera requerimentos, nem depende de outrem: são satisfação de si mesmas. No dia em que as fizestes, vos satisfizestes.

E se fora de vós mesmos esperáveis outro prêmio, contentai-vos com o da opinião, e da honra. Se vossos serviços são mal premiados. baste-vos saber que são bem conhecidos. Este prêmio mental assentado no juízo das gentes. Ninguém vo-lo pode tirar, nem diminuir. Que importa que subais mal consultado dos ministros, se estais bem julgado da fama? Que importa que saísseis escusado do tribunal, se o tribunal fica acusado? Passai pela chancelaria este despacho, deixai-o por brasão a vossos descendentes, e sereis duas vezes glorioso. Só vos dou licença que vos arrependais de ter pretendido. Pouco fez, ou baixamente avalia suas ações quem cuida que lhas podiam pagar os homens.

Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma. Mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia? Quando fizestes o que devíeis então vos pagastes. Ouvi ao Mestre Divino, que nos ensinou. Dizia Cristo a Seus soldados, a quem encarregou não menos que a conquista do mundo, em que todos deram a vida: Cum feceritis omnia, dicite: servi inutiles sumus: Quando fizerdes tudo, dizei que sois servos inúteis. Notável sentença! O servo inútil é aquele que não faz nada; mas o que faz muito, e muito mais o que faz tudo, há de cuidar, e dizer que é servo inútil? Si.”

* engenheiro agrônomo, doutor em ecologia.

sábado, 4 de março de 2017

Lawfare contra Lula: o que é isso?

Richard Jakubaszko
Recebi o aviso do vídeo abaixo pelo amigo Gerson Machado, mineiro que vive mais na Inglaterra do que no Brasil. Gerson questiona se a campanha de lawfare que vemos na mídia contra Lula foi igual ou pior do que aquela feita a Getúlio Vargas em 1954, quando este suicidou-se, e "saiu da vida política para entrar na história".

Assista ao vídeo, a perseguição política a Lula é diferente do que aquela feita a Mandela, a quem prenderam e mantiveram preso por mais de 20 anos? Por que ainda não prenderam Lula, depois de quase 3 anos de investigação? Por que ainda não existe nenhuma prova contra Lula, apesar das intensas investigações dos procuradores do Ministério Público e da Polícia Federal, com ajuda do FBI? Ou as "provas" são apenas as notícias do lawfare vazadas seletivamente para a mídia? E as evidências de manifestação da riqueza de Lula são um caiaque de lata e dois prosaicos pedalinhos?

Em tempos de internet e descobertas de contas correntes numeradas em paraísos fiscais, e até na Suíça, que provas conseguiram contra Lula? Nenhuma? Não dá pra acreditar em tanta ineficiência. Ou é tudo de mentirinha?
Não será a mídia que está julgando Lula?
Cadê as provas?
E você? Acredita nisso?

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sexta-feira, 3 de março de 2017

Fraldas, fraude e milhões para Alberto Youssef

Fernando Brito *

A Folha publicou durante o Carnaval uma matéria onde compara as penas dadas pela Justiça aos delatores de Curitiba e as de pessoas humildes, que cometerem furtos que, a rigor, não deveriam ficar fora do princípio da insignificância, o que retira do Estado a pretensão de punir com pena condutas cujo prejuízo é insignificante.

O jornal compara os sete anos de meio de prisão dados a Alexandrino de Alencar, ex-diretor da Odebrecht Infraestrutura, e Keli Gomes da Silva, analfabeta e manicure. Keli furtou quatro pacotes de fralda de um supermercado na periferia de São Paulo. Ele, um dos altos executivos da empreiteira se tornou um delator premiado da Operação Lava Jato, por corrupção de milhões de reais.

Mas é ainda pior do que a comparação chocante esta forma de processo judicial que se tornou incriticável em nosso país.

Outra reportagem, do El País, registra o que é desconhecido da maioria das pessoas. Desconhecido não por acaso, porque é revelador do caráter torpe que este processo de barganha judicial se tornou.

O doleiro Alberto Youssef tem um contrato firmado por seus advogados com o MPF com uma cláusula de performance: ele poderá ficar 2% de todo o dinheiro que ajudar a recuperar, o que pode chegar a até 20 milhões de reais. Detalhe, Youssef é delator recorrente e já traiu seu primeiro acordo, feito no caso Banestado.

Paulo Roberto Costa vive num luxuoso condomínio. Fernando Baiano, numa latifundiária cobertura na Barra. Os delatores da Odebrecht que não foram demitidos com polpudas indenizações seguem na empresa com salários igualmente obesos.

Já a manicure Keli deve ter perdido, além da liberdade, sua clientela de unhas e cutículas: vai viver na miséria com a criança para a qual furtou as fraldas, depois de ter furtado por pobreza.

O advogado Walter Bittar, autor de um livro sobre delações, diz que “no final das contas ainda está compensando cometer os crimes e delatar”.

É terrível que, em nome da “moral” se leve a Justiça – ou aquilo que deveria ser Justiça – a agir com imoralidade.

* jornalista, editor do blog Tijolaço.

Publicado originalmente no Tijolaço: http://www.tijolaco.com.br/blog/fraldas-fraude-e-milhoes-para-alberto-youssef/

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quinta-feira, 2 de março de 2017

Jornais mentem sobre delações Odebrecht ao TSE

Richard Jakubaszko
Uma vergonha para o jornalismo o que os jornais noticiam hoje sobre as delações da Odebrecht. As ditas delações falam sobre doações de R$ 10 milhões a Padilha - Temer (PMBD) em 2014, parte do dinheiro entregue em envelope "santificado" e misterioso no escritório de Yunes, o primeiro amigo. Não informam que foi para financiar o PMDB a comprar deputados para derrubar Dilma, isso em 2014, em plena campanha presidencial.

O Globo de hoje (2/3/2017) noticia falsamente que Marcelo Odebrecht delatou ontem que doou dinheiro para a campanha Dilma, acertada em pleno Jaburu, em jantar com Temer e Padilha, mas o dinheiro era para a campanha de Dilma...
Mentirinha...
Pergunto: se o dinheiro era para Dilma, ou o PT, e não para Temer, como explicar porque Dilma demitiu os diretores da Petrobras em 2012 (ver abaixo), fato que revoltou os do PMDB?
Mais abaixo: como explicar que Dilma mandou Graça Foster cortar verba da Odebrecht em 2013? Veja nas duas notícias abaixo, publicadas pelo Estadão, em 2012, e, depois, em 2013...
Não é uma farsa dantesca o que estamos vivendo?
 
Ver data: em 2012 Dilma demitiu os diretores, fato que revoltou o PMDB
 
Ver data: Dilma mandou cortar contratos da Odebrecht, em 2013...

Dilma cortou verba da Odebrecht em 2013, mas Odebrecht doou para Dilma em 2014...   
Quem mente mais? Os jornais? A Odebrecht? Ou os procuradores da Lava Jato?
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quarta-feira, 1 de março de 2017

Manual do perfeito midiota: O governo Temer não tem onde ir

Luciano Martins Costa
Suruba é um dos temas preferidos de Jucá, nem poderia ser diferente.
Os integrantes e associados do governo enterino já receberam cópias do conteúdo das delações da Odebrecht.

A conclusão é dos advogados que editam o site e boletim Migalhas, especializado em questões jurídicas.

Para quem estranhava a súbita renúncia do ex-ministro das Relações Exteriores José Serra, eis aí uma boa pista.

Sob o título “Ai que dó”, a nota observa que o advogado José Yunes acaba fazendo a revelação ao se complicar nas explicações sobre como recebeu um pacote de dinheiro do doleiro Lúcio Funaro: ele confessou ter atuado como “mula” do agora ministro Eliseu Padilha, da Casa Civil.

Deve o autor, evidentemente, se desculpar publicamente com a nobre estirpe dos muares.

“Ai que dó” é como o Migalhas se refere à alegação de Yunes, de que não sabia que o pacote entregue por Funaro continha dólares.

“A informação de Yunes revela que ‘eles’ já tiveram acesso à delação da Odebrecht. E estão, todos, montando suas versões”, diz o boletim.

O fato é muito grave e coloca uma pá de cal sobre a credibilidade da força-tarefa que conduz a operação Lava-Jato: o conteúdo da delação de Claudio Mello Filho, da Odebrecht, nunca foi revelado, o que significa que a equipe liderada pelo juiz Sergio Moro vazou para os acusados o teor das acusações, para que eles possam planejar suas defesas.

O presidente-tampax vê se desmoralizar ainda mais seu gabinete quando o ministro Serra deixa abruptamente o cargo e alega um problema de coluna, ou, como se apressou a divulgar a mensageira Eliane Cantanhede (Grupo Globo e Estado de S. Paulo), Serra estava “tristinho” no cargo de ministro das Relações Exteriores.

Serra saiu para tentar se desviar da enxurrada de esterco que a Lava-Jato procura esconder.

Esse é o episódio que irá marcar definitivamente as biografias dos integrantes do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça.

A evidência de favorecimento, por parte dos personagens que são tidos pelos midiotas como heróis da moralidade pública, a integrantes da quadrilha abrigados no poder federal, não admite omissão: cumpre ao CNJ agir, cumpre ao STF dar aos brasileiros um sinal de que nem tudo é esculhambação.

Nem se deve, a esta altura, cobrar alguma responsabilidade da imprensa hegemônica, porque de onde nada se espera é que nada sai, mesmo.

Mas pode-se apostar que pelo menos a Folha de S. Paulo, o jornal que atua como uma espécie de agência privada do ex-ministro Serra, venha a trazer alguma informação nova enquanto repinicam os tamborins.

Os midiotas, atordoados pela comprovação de que o impeachment de Dilma Rousseff instalou as raposas no galinheiro, não têm mais como ficar repetindo que o mandato do sr. Temer é transitório, porque a transição significa que se sai de um lugar para outro, e ele demonstra não saber onde está.

Faltava ao inquilino do Planalto legitimidade. Depois se constatou que faltava estofo e carisma para conduzir o que, segundo seus acólitos, seria a transição para fora da crise econômica; agora não há como esconder que falta honestidade, falta estratégia, falta respaldo popular, falta competência.

O governo enterino não tem para onde ir.

Aliás, alguns de seus integrantes e ex-integrantes têm, sim: o presídio da Papuda.

Publicado no http://brasileiros.com.br/2017/02/manual-perfeito-midiota-o-governo-temer-nao-tem-onde-ir/
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