sexta-feira, 23 de julho de 2010

A gaitinha


Marcella de Castro *
A primeira vez que vi um pen drive, pensei que era uma mini gaita e assoprei...
Meus filhos assistiram à cena, estarrecidos, e até hoje brincam com a história. E isso faz muitos anos.

A confusão se deu porque ainda não se vendia o produto aqui no Brasil, como se vende hoje em qualquer canto, com tamanho e cores mil.

O pen drive que ganhamos – era uso coletivo da família, tamanha a raridade – chegou lá em casa num momento em que eu não estava e foi deixado sobre a mesa para posterior apresentação, presumo.

Era prateado e do tamanho daquelas gaitinhas-chaveiros que me acompanharam na infância fazendo-me sentir bastante feliz musicalmente, embora eu não tocasse nada com nada. Só barulho...

Achava o máximo um instrumento tão pequenininho obedecer ao sopro e a aspiração. Dava para tocar, portanto, mesmo quando o fôlego acabava – era só aspirar pela boca e produzir mais um acorde. Fantástico, sem interrupções.

Pois bem, na época que babei no pen drive os computadores nem tinham a entrada ubs, ou é usb? – sopa de letrinhas infernal – e em casa, só o computador de meu marido, que também havia sido trazido do exterior, comportava o tal acoplamento.

Lembro que fiquei bastante frustrada porque não era uma gaitinha de infância me visitando e porque se podia guardar informações naquele trequinho... Podia-se transportar tudo ali, compactado, mas para onde? Não se encaixava em lugar algum. Não me valia de nada...

Hoje de manhã, meu atual pen drive, azulzinho, pequeninho, tão bonitinho que, com santa paciência, guarda e zela pelos meus textos, desmanchou-se...

Fiquei com uma plaquinha na mão. O invólucro de plástico despedaçou-se e aquelas minúsculas pecinhas que me lembram chicletinhos de antigamente me disseram “Oi” na cara dura...

Primeira reação: pânico! Não ousei mexer no que restou e que ainda estava encaixado no meu notebook.

Saí correndo atrás do meu marido, oriental – pois aqueles olhinhos puxados tinham de valer alguma coisa numa hora dessas: já que não é pasteleiro, nem verdureiro... É engenheiro! Foi a gozação que mais ouvi no tempo da faculdade... Engenheiro eletrônico, elétrico e mais alguma coisa do tipo!

Socorro! Todos meus textos estão aí! Tira pra mim, sem destruir, vai!

Ele examina a pecinha e aperta mais os olhos, o que me preocupa porque já são tão pequenos – começo a achar que dancei na história.

Todas as minhas reflexões, expurgos, pensamentos tresloucados, não importa, estão ali naquele pen drive!!!! Gravadinhos, em letrinhas combinadinhas, em formato binário. Como podem, de uma hora para outra se transformar em silício, plástico e metal, ou sei lá o que, sem aviso prévio?

Levei uma dura do filho, porque nunca faço back up. Cruzes!! Ensinei esse cara a falar, mas não me lembro de ter ensinado “back up”!!!

Levei outra dura do marido pelo mesmo motivo – e pior, porque ele já me deu mais uma gaitinha, digo, pen drive, que guardei – talvez na esperança de assoprá-la escondidinha, num momento de saudosismo!!

Enfim, aquela partinha tão pequenina que sobrou, ainda funciona e, depois de um remendo que me lembrou um criativo origami cheio de fitas adesivas, num consistente esparadrapo, tenho uma simpática carcaça de pen drive funcionando e me acompanhando novamente!

Aff! Foi só um susto! E vamos ao back up, sem falta!!

* jornalista
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