sexta-feira, 9 de julho de 2010

Os gargalos do celeiro do mundo

Richard Jakubaszko

Publicado hoje no site do jornalista Luis Nassif, sex, 09/07/2010 - 14:00
Ao final do artigo este blogueiro comenta algumas questões sobre o tema.

Os gargalos do "celeiro do mundo" no século 21 - Nilder Costa
Segundo o relatório "Perspectivas Agrícolas 2010-2019", emitido em conjunto pela Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os países em desenvolvimento vão ser a grande força do crescimento da produção, do consumo e do comércio agrícola nos próximos dez anos, e o Brasil deve ser uma das estrelas do processo: "É no Brasil que a alta da produção agrícola será, de longe, a mais rápida", diz o documento. [1]

A demanda dos países em desenvolvimento é impulsionada pelo aumento da renda per capita e pela urbanização, reforçada pelo crescimento populacional que é duas vezes maior do que nos países desenvolvidos. A tendência é de um aumento no consumo de produtos como carnes e alimentos processados, o que deve favorecer os produtores de bovinos e frangos. Além disso, com uma classe média em expansão, o consumo de alimentos nos países em desenvolvimento deve depender menos de mudanças no preço e na renda.

Em relação à produção, a FAO e a OCDE estimam que a maior parte da expansão da oferta mundial de oleaginosas, como soja, estará concentrada no Brasil, Estados Unidos e Argentina. Os EUA devem continuar a ser o maior produtor global, mas quase 70% do aumento das exportações virá do Brasil, elevando de 26% para 35% sua fatia no comércio mundial até 2019. Nesse ritmo, o país poderá se tornar o maior exportador mundial de oleaginosas em 2018, superando os EUA.

Outro segmento em que o Brasil pode aumentar sua presença é nas exportações de lácteos, diz o documento. A produção de leite deve crescer 2,3% ao ano, em razão do incremento da produtividade e investimentos.
Por outro lado, o relatório mostra que os países desenvolvidos continuarão a dominar as exportações de trigo (52% do total mundial), grãos forrageiros (59%), carne suína (80%), queijo (63%) e leite em pó (66%).
Um outro aspecto importante abordado pelo relatório são os subsídios agrícolas, cujos níveis nos países emergentes tendem a aumentar, mas continuam muito abaixo das bilionárias subvenções praticadas na maioria dos países ricos. Em 2008, por exemplo, essa "ajuda" vinculada ao tamanho da produção alcançou US$ 250 bilhões nos países ricos, derrubando preços internacionais e gerando concorrência desleal. Os campeões de subsídios são os EUA e a União Europeia, com 30% e 40% do total respectivamente, o que resulta em acúmulo de oferta e derrubada dos preços mundiais. No Japão e na Coreia do Sul, 90% da subvenção são também vinculados à produção. [2]

A constatação do relatório FAO/OCDE sobre a proeminência do Brasil na produção agrícola vindoura vem apenas confirmar o que muitos, a começar pelo Nobel da Paz (e recentemente falecido) Norman Borlaug, já apontavam como o "celeiro do mundo" no século 21. Contudo, além dos conhecidos gargalos que constrangem a produção agrícola brasileira, dentre os quais a clamorosa dependência externa com fertilizantes e a persistente vulnerabilidade logística, há que se considerar a necessidade de o País aumentar, de forma progressiva e planejada, a exportação não apenas de commodities agrícolas, mas de alimentos processados. Porém, para que essa meta seja atingida, há que se remover um outro "gargalo", o excessivo domínio que cartéis mundiais de commodities exercem sobre boa parte da cadeia produtiva de bens agrícolas nacionais. Por aqui, ainda falta uma espécie de "Petrobras" no setor agroindustrial.

Notas:
[1] Brasil terá maior crescimento agrícola do mundo até 2019, BBC, 15/06/2010
[2] Emergentes embalam avanço agrícola, Valor, 14/06/2010


Comentários de Richard Jakubaszko
São obviedades de senso comum as constatações acima sobre o relatório da FAO/OCDE, e não são novas as ações e dificuldades impostas pelos EUA e Europa para frear o desenvolvimento brasileiro na produção de alimentos, onde eles não desejavam perder espaço, mas perderam, e vão perder mais ainda.

Nos anos 1980 e até início dos anos 1990 os países desenvolvidos determinaram normas ao Brasil para que a gente colocasse um fim aos subsídios agrícolas, que existia na forma de crédito mais barato para o custeio do plantio. Eles projetaram nosso crescimento e verificaram que perderiam a liderança ainda no final do século XX, o que os obrigaria a aumentar as bilionárias despesas com os subsídios gigantescos que sempre tiveram. A forma e pressão que usaram, para que cumpríssemos essa determinação, eram as cláusulas dos empréstimos concedidos via FMI, pois vivíamos endividados e com o chapéu na mão. O Brasil acabou com os subsídios agrícolas no início dos anos 1990. Com essa estratégia os países desenvolvidos seguravam o crescimento brasileiro e ainda recebiam os juros.

Já no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, depois de perceberem que continuávamos competitivos, e que ainda crescíamos, apesar da dependência externa dos fertilizantes e de outras tecnologias, apesar da falta de poupança interna, apesar da falta de infraestrutura e de logística, iniciaram o movimento ambientalista, via ONGs e imprensa, para impedir o avanço da produção de alimentos (carnes e grãos), pois o Brasil iria superar , como superou, todos os obstáculos, até mesmo a nossa internacionalmente conhecida incompetência.
Assim, a partir de 2005 o Brasil assumiu a liderança nas exportações de carne bovina, e não deixou mais esse posto. Eles perceberam ainda que, a partir do final dos anos 2010, seremos os líderes das exportações em soja, apesar das novas limitações ambientais impostas para o plantio, seja em áreas de cerrado, seja em áreas que já estavam estabelecidas.
Que não se permita essa nova atrocidade no novo Código Florestal, como querem os ambientalistas e os ruralistas americanos e europeus, e que se poderia chamar de "confisco de terras produtivas", através de APPs e áreas de reserva, evento sem paralelo na história humana, a não ser em termos político-econômico-ideológico na revolução bolchevique, que confiscou as terras não cobertas por gelo na Rússia de 1917.
Tudo isso o setor rural brasileiro já sabia, não há nenhuma novidade, no front, aliás, se há novidade, é que apenas agora os países desenvolvidos, mais a FAO e OCDE, reconhecem publicamente isso.

Ou será que eles ainda acreditam que poderão limitar nosso futuro crescimento via questões e pendengas ambientais, em nome da insuspeita sustentabilidade?



A conferir no futuro breve, pois do FMI somos credores nesses novos tempos, não há mais como usar essa arma contra os brasileiros.
_

8 comentários:

  1. Não acredito que se possa elevar a produção em 40% em 9 anos sem ampliação da área cultivada. Só avanços tenológicos é utopia. Por isso foge de meu entendimento a proposta de não abrir novas áreas durante 5 anos. As emendas do código florestal são tímidas e procuram satisfazer os ambientalistas de ar condicionado e oa que recebem orientação do exterior e participam da tese: "produção aqui (EUA), floresta lá (Brasil).Discordo da idéia de só exportar alimentos processados. Pura tese desiderativa: vamos exportar o que podemos produzir e outros querem comprar.Quando houver escassês mundial de alimentos a conversa vai ser outra. Não estarei aqui para ver, mas os moços vão assistir a pressão diplomática para que plantemos mais e produzamos mais. Então iremos abrir mais área onde agricultável e aproveitar o transporte fluvial onde viável como o Rio Máximo, o Amazonas, nas palavras do P. João Daniel em seu notável relatório.
    Fernando Penteado Cardoso-
    Eng.Agr.Sênior-USP/ESALQ,1936

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  2. Meu caro Jakubaszko
    ...e o gargalo maior se chama desmatamento zero, inexistente em qualquer país que não é escandalosamente abobalhado.
    HEB[ ]s
    Eng. Thomas Renatus Fendel
    www.fendel.com.br

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  3. Muito interessante esta postagem. Creio que sim, não digo que seja fácil, mas que temos capacidade e espaço aberto para aumentar nossa produção e chegar a números muito mais expressivos temos, e muito facilmente. Aqui vai um exemplo. Na região do Baixo Amazonas, nos arredores de Santarém PA, existe muito espaço para isso. As terras são férteis e já abertas (anos 90). Estas provavelmente na época até podem ter sido abertas ilegalmente, mas não para produção de grãos e sim extração de madeira. Porém estão lá, sem utilização e muitas sem registro, esperando que alguém as cultive. Atualmente não servem nem para criação de gado nem para lavoura visto que literalmente o que toma conta é capim. Lembrem, que a não muito tempo atrás o próprio governo incentivava que agricultores fossem para aquela região e produzissem. Muitos até foram, hoje alguns até são tratados como bandidos, isso se tratando de agricultores que visam produzir. Nesta mesma região para fins de curiosidade temos um ponto que seria muito fácil se tornar um grande pólo de exportação com ligação direta do MT através de BR 163 (atualmente se encontra em excelentes condições de tráfego, onde que para se fazer trajetos como 100 km de ônibus, as empresas são obrigadas a ter até 03 veículos, pois existem trechos que os passageiros precisam desembarcar e andar para chegar até o próximo ônibus imaginemos então como circulam caminhões e carretas com grãos). Estamos falando de Gargalos da Produção! Pensem comigo: metade da produção do Mato Grosso, somada a áreas abertas e não cultivadas do baixo amazonas sendo cultivadas, podendo ser exportadas não através do porto de Santos, mas sim com uma nova saída usando o rio amazonas, creio que até mesmo a Capital Belém se renderia a esta região. Facilitaria muito o escoamento dos grãos além de desenvolver o comércio num todo. Saibam que os municípios nem podem realizar concertos na BR 163, pois a mesma é de responsabilidade do Governo, este que trabalha com muito esforço, cerca de 1 km/ano. Mas concluirá os serviços em breve, pois Cuiabá/Santarém são apenas 1740 km, tranqüilo não? Pasmem, a BR 163 existe e esta lá! De Cuiabá/Santos pra quem não sabe são 1680 km. Quem duvidar é só ir ver, nota-se facilmente que ao invés de contribuir para o desenvolvimento da região o Governo a trava, muitas vezes a ignora. Este é apenas um exemplo, peço-lhes, não seria fácil de aumentarmos os números? Creio que seria e é. O Brasil tem as ferramentas, Agricultores, Engenheiros, Técnicos, o que nos falta? Eleições em Outubro.....Gente!!!! O Brasil é o penúltimo País no Mundo em inversão do PIB em infra-estrutura, mas tudo bem. Perdemos para o Turcomenistão.
    Engenheiro agrônomo Tiago Passinato

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  4. A linguagem que eles entendem é a linguagem da prateleira do supermercado. Usemo-la:
    O mundo produz mais de 2,4 bilhões de t de grãos e isto dividido por 6,6 bilhões de habitantes dá mais (+) de um (1) kg de grãos secos por pessoa por dia. Além disto temos toda a mandioca, todas as verduras, todos os legumes, todas as frutas, o sal, o açúcar, o leite, os ovos, os peixes e a carne produzida a pasto. Como se vê, ninguém dá conta de comer nem a metade disto. Ah!, mas o milho e a soja são usados como ração! Sim, só que a conversão em carne é de quase 2:1 e se fôsse de apenas 3:1 ainda assim cada habitante teria que comer 333 gramas de frango ou de suino por dia mais (+) o que não está contado nos grãos acima. Portanto, pregar uma redução de 10% na oferta é uma coisa bem factível ou seja, basta cada um não plantar aqueles pedaços que todo ano dão prejuizo. Olha o quye aconteceu com o algodão doi ano passado para cá, reduziram 12% a área, deu uma sequinha e a produção se reduziu 15% e o preço que estava entre 30 e 35 reais por arrôba subiu para mais de 55 rerais a arrôba. Não compensou? Próximo ano estes agricultores devem fazer contratos futuros e voltar a plantar a área anterior e assim os desprevenidos é que sofrerão...

    Este negócio de Perfil no Google parece que não dá certo para mim. vou tentar mais uma vez se não vou largar este negócio de mão, a gente escreve, escreve e de repente perde tudo... assium não dá!

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  5. Árvores nascem, crescem, florescem, amadurecem, perecem, apodrecem e se regenerecem. Isto pode levar 30, 50 ou 100 anos. Quando se queima, este processo é abreviado. A produção de residuos é a mesma com a diferença de que quando queimadas, os residuos são reciclados mais rapidamente. Que diferença fazem 50 ou 100 anos para o planeta Terra que tem sua idade calculada em "Eras Geológicas"? Além disto a fuligem fica toda abaixo das nuvens e na primeira chuva cai tudo para a Terra. É um abobalhamento midiático sem precedentes este que condena exageradamente as queimadas. Verdadeiro prejuizo é queimar petróleo e carvão que estavam adormecidos nas profundezas da crosta terrestre e aí o homem toca fogo e manda tudo pelos ares de onde estas substâncias não faziam parte enquanto que a vegetação queimada, subsituida por novas plantas, terá que reabsorver aquilo que jogou na atmosfera para crescer de novo... Quanta Ignorância neste mundo. Coisas que se aprende nas aulas de ciências do primário e as pessoas esquecem.
    Telmo Heinen
    (61)9989-6005

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  6. Parabéns, Richard. Mais uma vez prova que somente com pesquisa e divulgação sobre a "realidade existente por trás de notícias plantadas na mídia mundial" é que a VERDADE vem à tona. Fugindo do lado "político" da frase, a melhor coisa que o Brasil fez para a agricultura nacional foi FUGIR DO FMI. Agora vem a segunda parte: mostrar a verdade sobre o AMBIENTALISMO EXACERBADO e as ONG´S FAMIGERADAS POR DINHEIRO..... Com a sua devida autorização, pretendo postar esta matéria completa na página da Revista Attalea Agronegócios. Abraços

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  7. Caríssimo Carlos Arantes,
    manda ver, meu amigo, não esquecendo que a primeira parte do texto eu republiquei, não é de minha autoria, mas citei fonte.

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  8. Luiz Fernando Ferraz de Siqueira10 de julho de 2010 11:36

    Richard, muito obrigado.
    Ótima a matéria.
    Luiz Fernando Ferraz de Siqueira
    Usina São Fernando
    Dourados

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