segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pensar

Daniel Strutenskey de Macedo 
Pensar foi das minhas distrações a preferida. Desde menino, eu consumia todas as horas vagas, depois do futebol e das brincadeiras com barro, imaginando possibilidades, criando mundos próprios, idealizando a vida. Ontem, acompanhei a entrevista de um filósofo iugoslavo, o Zizek. Sujeito temperamental, mais pra criativo de anúncios do que para pensador. Um atrevido cujo herói é Hegel. Para ele, Hegel foi o único que pensou o mundo como ele é e não como deveria ser. Acho que a Iugoslávia tem a ver com isto. Num país tão dividido e complicado, com tantas dores e crimes políticos, a idealização não é possível. Só o pragmatismo é capaz de salvar vidas e encontrar caminhos. Hegel é pragmático.

A despeito de seu atrevimento, sua vontade de independência intelectual, o Zizek comete o mesmo desvio dos demais intelectuais. Não explica o mundo com palavras suas, mas com a dos outros. Precisa citar frases marcantes de gente notável para afirmar a sua verdade. A verdade não é encontrada na coerência do próprio discurso, fruto de experiência própria, mas no testemunho de terceiros, na referência a pensadores respeitáveis. Por isto, para se entender o discurso do Zizek é preciso conhecer o pensamento e a obra intelectual dos pensadores citados. Impossível.

Impossível porque temos à nossa disposição centenas de pensadores e milhões de páginas que registram as ideias que eles trabalharam e os mundos idealizados. Nenhuma mente é capaz de ler o acervo que eles nos deixaram, menos possível ainda é reter as discussões propostas, os conceitos trabalhados. A despeito disto, os intelectuais citam uma dúzia deles numa entrevista, como se tivéssemos a memória do mundo e a capacidade de compreender todas as razões já discutidas.

Desde pequeno, quando eu ia ao médico, o Dr Valentim, e ficava aguardando na sala de espera, via que o doutor pesquisava os sintomas dos pacientes em grossos livros de medicina. Às vezes ele pedia para minha mãe, que era a auxiliar dele, pegar outro volume. O paciente aguardava cerca de cinco ou dez minutos e ele então explicava o seu parecer e o que tinha pesquisado para ministrar tratamento. Agora que minha filha é médica, é a mesma coisa. Em vários casos, ela pesquisa sintomas, doenças e tratamentos nos livros e publicações científicas da medicina. Também consulta colegas especializados para se aprofundar no assunto e poder ajudar o paciente. O médico age assim porque é responsável pela vida do paciente e reconhece que é limitado, que não tem todos os compêndios de medicina na memória, pois são milhares e são modificados pelas novas descobertas a cada dia.

A diferença é que a medicina é pragmática e o discurso intelectual é metafísico. Na medicina, a teoria tem que se encaixar com a prática. É a prática que muda a teoria. A medicina é uma ciência experimental. Se o medicamento não curar o paciente, muda-se o medicamento. Nas discussões filosóficas e políticas, se o interlocutor não aceitar o argumento ele é que é burro. Na melhor das hipóteses, não teve acesso, não se aprofundou na questão, está condicionado, é preconceituoso. O Zizek, para expor sua visão de mundo, condenou todos, exceto Hegel. Esqueceu que para que o mundo tivesse Hegel foi preciso ter os anteriores. A civilização é uma construção. As ideias de uma época são próprias dela, são frutos das circunstâncias geográficas, econômicas, culturais e políticas, entre outras. As ideias de um homem são frutos de sua história, das circunstâncias que o cercaram, do que viveu, sofreu, aprendeu. Não dá para considerar todas as ideias do passado. É preciso conhecer o contexto em que elas vicejaram e nós temos apenas uma vaga noção da história passada. Os historiadores eram intelectuais que trabalhavam com o que havia nos arquivos oficiais. Mesmo agora, temos dificuldade de analisar o que de fato está acontecendo. Não temos uma luz clara e definitiva. O pensamento não é pragmático, nunca será. Somos regidos pela emoção. Medicina e Política são atividades distintas. Medicina é ciência. Política é escolha!
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