terça-feira, 10 de agosto de 2010

Esgoto é o maior vilão ambiental brasileiro

Richard Jakubaszko
 
publicado hoje no site da Veja:

Desafios brasileiros: 
Esgoto é o maior vilão ambiental brasileiro, diz pesquisador

Ampliação do saneamento básico levaria à recuperação de rios, flora e fauna, defende Evaristo de Miranda, e afetaria vida de 100 milhões de brasileiros
por Jones Rossi
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"A produção de alimentos está

aumentando há trinta anos principalmente
devido ao aumento da tecnologia e não à 
expansão de novas áreas de plantio" 
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Doutor em ecologia pela Universidade de Montpellier, na França, e pesquisador há três décadas da estatal Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Evaristo de Miranda, de 58 anos, qualifica as queimadas que assolam a Amazônia e o cerrado de "prática do Neolítico". Quer dizer com isso, claro, que essas são técnicas primitivas para um país que quer e precisa se modernizar. Por isso, o especialista propõe a aposta na tecnologia. É a inovação que pode permitir ao Brasil um futuro sustentável, que combine preservação ambiental e exploração racional das fontes naturais. A boa notícia é que parte disso já é realidade. “A produção de alimentos está aumentando há trinta anos principalmente devido ao aumento da tecnologia, e não à expansão de novas áreas de plantio”, diz Miranda.

Na entrevista a seguir, ele defende o agronegócio, comenta o projeto do novo Código Florestal, que deverá mexer na produção vinda do campo, critica os números que colocam o Brasil entre os maiores poluidores do planeta e surpreende: para ele, o maior desafio brasileiro no campo ambiental é ampliar e melhorar o saneamento básico nas áreas urbanas e rurais.


O pesquisador Evaristo Eduardo de Miranda








Qual é o maior problema ambiental do Brasil hoje?
A falta de coleta e tratamento de esgoto. Segundo dados do IBGE, quase 100 milhões de brasileiros vivem sem coleta de esgoto, que contamina os solos, corre a céu aberto e é fonte de graves doenças, responsáveis por 30% de nossa mortalidade. Do esgoto coletado, o Brasil trata apenas 10%. O resto vai direto para os rios.
 
Então, essa deveria ser a prioridade ambiental atualmente?
Sim. A prioridade deveria ser o saneamento básico em áreas urbanas e rurais, ampliando e melhorando a coleta e o tratamento do lixo e do esgoto, sobretudo na Amazônia e no Nordeste. Isso levaria a uma recuperação extraordinária dos rios e do litoral, de seus peixes, da flora e da fauna. Ainda garantiria a redução da mortalidade infantil e a melhoria da saúde para mais de 100 milhões de pessoas. Quantas ONGs internacionais interessadas no meio ambiente militam por essa causa ou financiam projetos de saneamento no Brasil?

 
O Brasil é apontado como o quarto maior poluidor do clima no mundo. O IBGE afirma que 75% das emissões de gases tóxicos vêm dos desmatamentos e queimadas, principalmente na Amazônia. O quanto devemos ficar preocupados com esses números?
Para comparar emissões totais, seria necessário incluir os dados de desmatamentos e queimadas dos outros países, e não só do Brasil. Se não for assim, é uma comparação desonesta. Será que os russos vão incluir no cálculo de suas emissões os atuais incêndios florestais, por exemplo? E os Estados Unidos incluem os desmatamentos do estado de Washington e as emissões resultantes da queima das florestas da Califórnia? Entre 2000 e 2005, o desmatamento total do Brasil foi de 165.000 km2, o do Canadá de 160.000 km2 e o dos Estados Unidos de 120.000 km2. Esses dados foram publicados pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Se todos incluírem seus desmatamentos e queimadas, aí, sim, dá para comparar.

Mesmo assim, as queimadas constituem um problema. Como acabar com isso?

Grande parte das queimadas brasileiras não contribui para o acúmulo de CO2 na atmosfera. Em termos de CO2 de origem fóssil, pelos dados de 2008 da EIA (Energy Information Administration, órgão americano que coleta e analisa dados sobre energia), o Brasil ocupava a 17ª posição - após China, Estados Unidos, Rússia, Índia, Japão e outros. Se levar em conta o consumo per capita, caímos ainda mais, para a 123ª posição. Quando o capim ou a cana-de-açúcar voltam a crescer, eles retiram da atmosfera a mesma quantidade de carbono emitida na queima. De qualquer forma, nada justifica essa prática do Neolítico, a ser banida da agricultura. Há vinte anos eu pesquiso e monitoro as queimadas por satélite. O uso agrícola do fogo deve ser substituído por tecnologia moderna.

O agronegócio garante ao brasileiro comida barata. Segundo o levantamento que o senhor fez na Embrapa, legalmente não há mais espaço para expandir a agricultura no Brasil. Por que a agricultura é considerada vilã do meio ambiente no Brasil? Faz sentido essa visão?

Não faz o menor sentido. O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com 47% de energia renovável, em que 29,5% vêm da agricultura. A cana-de-açúcar gera hoje mais energia – graças ao etanol e à produção de energia elétrica nas usinas com o bagaço – que todas as hidrelétricas juntas. A produção de alimentos está aumentando há trinta anos principalmente devido ao aumento da tecnologia e não à expansão de novas áreas de plantio. As cidades, sobretudo as grandes, são as maiores vilãs do meio ambiente, por sua demanda de recursos, pelo consumismo, pelo desperdício e por todos os impactos qualitativos e quantitativos que geram.

A proposta do novo Código Florestal, de autoria do deputado Aldo Rebelo, traz avanços reais para a questão do meio ambiente no Brasil?

Creio que sim. Ele procura compatibilizar a proteção dos biomas com a legítima e necessária exploração do território nacional, em benefício do povo brasileiro. Ele incorpora novos conhecimentos científicos e reconhece as particularidades de nossos biomas e das diversas agriculturas existentes no Brasil. Ele respeita as áreas agrícolas consolidadas em conformidade com a legislação de seu tempo.

Como fazer o crescimento econômico e a sustentabilidade andarem juntos?

Com inovação. Inovando na forma de produzir, na gestão da energia e dos resíduos, no uso de tecnologias modernas, nas parcerias, no consumo consciente e buscando sempre soluções de longo prazo. A pesquisa científica tem um papel fundamental no desenvolvimento da inovação para os processos produtivos, tanto na agricultura como na indústria. Infelizmente, ainda existe muita gente especializada em planejar o que não executa para depois avaliar o que não fez. Eles só atrapalham na busca dessa sustentabilidade.



Comentário do blogueiro:
A entrevista acima não foi publicada na edição impressa, mas apenas no site, o que considero lamentável pela importância do assunto, tema ambiental que tenho debatido aqui no blog, digamos, com muita insistência e teimosia.
Entrei no site da revista Veja (às 18h00), e fiz um comentário sobre a coragem de Evaristo em contestar as informações sistematicamente repetidas pela imprensa. Até 23h30 não tinha sido publicado.
Em e-mail que me encaminhou Evaristo de Miranda informou que a série "Desafios brasileiros" será encaminhada amanhã (4ª) aos presidenciáveis.



Publicado no site da revista Veja, em 10/08/2010:

http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/esgoto-e-o-maior-vilao-ambiental-brasileiro-diz-pesquisador

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3 comentários:

  1. Muito boa a entrevista.
    Obrigado.
    Abraço,
    Ronaldo Trecenti
    Engº Agrº M.Sc. Especialista em Integração Lavoura-Pecuária-Floresta e Sistema Plantio Direto
    Brasília-DF

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  2. Luiz Fernando Ferraz Siqueira11 de agosto de 2010 08:44

    Vou ler , mas já antecipadamente concordo .
    Aliás, concordar com sua inteligência é um fato corriqueiro em minha vida.
    Luiz Fernando Ferraz Siqueira
    Usina São Fernando, Dourados, MS

    Comentário do blogueiro:
    meu amigo Luiz Fernando, o que seria de mim sem amigos como vc?

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  3. Mario Ernesto Humberg, São Paulo11 de agosto de 2010 18:37

    Richard – ótima entrevista – concordo com ele, não há problema ambiental mais sério do que o esgoto não tratado, que contamina a maior parte dos rios brasileiros
    Abraço
    Mario Ernesto Humberg

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