quinta-feira, 16 de março de 2017

A confusão geral é o apelo à racionalidade

Fernando Brito *
A máquina jurídico-midiática de moralismo passou a ser, agora, um problema sério para a direita brasileira.

Se ser acusado é o mesmo que ser condenado – e só a condenação é admissível, independente de prova – a “lista de Janot” compromete toda a política, porque “todos são iguais”.

E se “todos são iguais”, quem sobra? O Ministério Público? Moro? Deltan Dallagnol?

Os que detém autoridade – e cada vez maior – dispensados do voto popular?

A máquina posta em movimento para derrubar um governo passa a moer a própria usurpação do governo.

Michel Temer está “fora” da lista por uma mera formalidade constitucional: a de que o Presidente não pode ser julgado por atos anteriores ao exercício do seu mandato.

Ou não estaria, não fosse assim?

Os remédios que, agora, correm a aplicar – ou a tentar, porque a histeria midiática e o caldeirão de ódio que ela construiu com a negação da política (e do voto) como a ferramenta legítima de organização da sociedade têm francas chances de impedir – são aqueles que negavam e achavam absurdo quando queriam demolir o poder eleitoralmente construído...

O voto em listas partidárias, por exemplo, a redução do número de partidos, tudo isso não era inaceitável, quando proposto em 2013? O “presidencialismo de coalizão” que se aponta como pai de todas as desgraças políticas é quase um santo, perto do mecanismo de cooptação do Governo Temer para alcançar o quórum para as “reformas” que pretende.

E onde vai parar a independência e harmonia entre os poderes, quando o presidente da Câmara se torna um descarado agente do presidente na casa e o presidente do TSE, Gilmar Mendes, dá-se a convescotes e a formação de “comitês de salvação nacional”, articulando uma inédita – para usar a tese suicida do Dr. Janot – a “caixa 2 do bem” e a “caixa 2 do mal”?

Não dá, porque foi a tese que se injetou na classe média, desde o chamado mensalão , foi o contrário disto, embora fosse – e sabiam todos – a regra do sistema político brasileiro.

A “igualdade” que se criou para a destruição da política, a insânia do moralismo udenista que se quis transformar na lei única da disputa política e a opressiva unanimidade em que se pretendeu condenar como “defesa da corrupção” todos aqueles que apontavam o arbítrio, deram nisso aí.

Contra quem os “coxinhas de pato” protestarão no dia 26? Cadeia para todos? “Pixuleco” do Temer, “não vou pagar o pato” para o Henrique Meirelles que vai aumentar os impostos?

Já se evidencia, exceto para os que sofrem de idiotia política, que a subtração da democracia ao povo brasileiro depende de uma de duas condições, o que é algo que já afirmei há mais de um ano.

A primeira, inviável nestes tempos, é nos tirarem o voto.

A segunda, única em que se agarram agora, é retirar do voto a opção por um candidato: Lula.

O “mar de lama” que procuraram criar com a aventura judicial saiu do leito que pretendiam e os tragou, também.

O que está em jogo em Curitiba é uma coisa só. Não é a condenação de Lula, mas a sua cassação.

E isso vai se tornando evidente, apesar de todo o massacre da mídia.

Porque a realidade – ah, esta teimosa – teima em se impor e mostrar que é impossível, senão por algum tempo, impor ao Brasil um projeto autoritário e excludente, que o transforme, na colônia que já não pode mais ser.

* o autor é jornalista, editor do Tijolaço.

Publicado no Tijolaço: http://www.tijolaco.com.br/blog/confusao-geral-e-o-apelo-racionalidade/
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